120 batimentos por minuto, em análise

120 batimentos por minuto” de Robin Campillo é um poderoso retrato de ativistas queer durante o auge da crise do HIV, em Paris no início da década de 90.

120 batimentos por minuto critica

2017 tem sido um ano glorioso para o cinema queer, especialmente para os filmes que, num panorama de distribuição cinematográfica pós-Moonlight, têm conseguido insinuar-se às margens do mainstream. “Chama-me pelo teu nome” de Luca Guadagnino, por exemplo, é já uma das mais aclamadas obras do ano, um relativo sucesso popular e está a afigurar-se como um dos grandes favoritos da Awards Season. “God’s Own Country” e “Beach Rats” conquistaram o público dos festivais e rapidamente asseguraram distribuição nos seus países de origem. “Uma Mulher Fantástica”, pelo seu lado, foi um dos filmes mais celebrados e premiados na Berlinale e está a conseguir níveis de distribuição comercial inéditos à escala internacional para um filme sobre uma mulher transgénera. Tal como esse filme chileno, também “Thelma” e “Tom of Finland” foram selecionados pela Noruega e Finlândia, respetivamente, como seus representantes na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Outro filme queer a ser selecionado pelo seu país como representante nacional nos prémios da Academia foi “120 batimentos por minuto” de Robin Campillo, que ganhou o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes. De todos os títulos que mencionámos, esta é certamente a obra mais declarativamente política, sendo o retrato das ações militantes de um grupo ativista queer durante os anos 90, no auge da crise do HIV. Histórias do flagelo do HIV e SIDA na comunidade gay são algo comum no panorama deste tipo de cinema, mas perspetivas políticas sobre essa realidade raramente foram retratadas no grande ecrã. Existem uns quantos documentários e docudramas americanos sobre o tema, mas, mesmo aí, esse retrato costuma incidir quase exclusivamente sobre a comunidade gay de Nova Iorque. No filme de Campillo, a trama passa-se do outro lado do Atlântico, no coração da versão francesa do movimento ACT UP, que teve origem na Grande Maçã e foi depressa emulado noutras áreas do globo como Paris.

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Para nos introduzir a este universo militante, Campillo utiliza uma das fórmulas narrativas mais comuns no cinema histórico de Hollywood. Referimo-nos ao modo como o cineasta, que também escreveu e editou o filme, nos posiciona na perspetiva de um novo membro da organização, justificando assim toda a montanha de exposição informativa que é necessária para a contextualização do espetador. Ele é Nathan, um jovem seronegativo com o tipo de aparência classicamente masculina que já estamos habituados a ver no centro de tais histórias queer. No entanto, por muito pouco desafiante que seja a performance de género de Nathan ou a estrutura narrativa pela qual ele nos é apresentado, convém dizer que “120 batimentos por minuto” está bem distante do tipo de passividade respeitosa e confortáveis mostras de heroísmo heteronormativo normal em histórias deste género à caça de Óscares.

Ao contrário desses filmes, “120 batimentos por minuto” é uma bomba cinematográfica a explodir de raiva, pânico e sede de viver, recusando a narrativa do herói singular em prol de uma observação de resistência enquanto um esforço coletivo. Durante a primeira metade da sua narrativa, que se vai tornando progressivamente mais íntima, o filme está cheio de longas reuniões do ACT UP, tornando essa mesma ideia de coletividade ativista em algo impossível de ignorar. Talvez sob a influência do seu antigo colaborador Laurent Cantet, Campillo filma estas cenas com um estilo realista de câmara ao ombro rico em grandes planos, confiando na sua espetacular montagem para redimir a qualidade prosaica das imagens. O resultado final, longe de banal, é uma tapeçaria de humanidade que engloba mesmo os membros do ACT UP visivelmente aborrecidos pelo tema em discussão, aqueles cujos olhos ardem com o fogo da discordância e até quem está mais preocupado em trocar olhares sedutores com um colega do que em prestar atenção ao debate.

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Os atores são uma parte essencial desta extraordinária representação de dinâmicas de grupo, desde os silêncios pensativos de Arnaud Valois como Nathan até ao pragmatismo casual de Saadia Bentaïeb no papel de uma mãe que, face à morte do filho, parece mais aliviada pelo fim do seu sofrimento do que afetada pela dor da perda. Não há um único elo fraco aqui e, ao contrário do que acontece em muitos filmes de temática LGBT+, grande parte dos intérpretes incluem-se na comunidade a que estão a dar vida como é o caso de Adèle Haenel, que aqui volta a mostrar que o seu carisma nato não é em nada abafado pela natureza secundária do papel ou o registo naturalista do seu trabalho. Com tudo isto dito, existem ainda dois nomes que merecem especial destaque. Um deles é Antoine Reinartz que consegue telegrafar, com claridade e empatia, o conflito de um líder confiante que, apesar de tudo, não consegue entender por que razão os outros não o amam e veem como uma presença abrasiva.

É claro que, por muito espetaculares que sejam os outros atores, a grande estrela do filme é Nahuel Pérez Biscayart como Sean, um jovem seropositivo com opiniões politicamente radicais que se envolve romanticamente com Nathan. Na sua prestação, o humanismo que pulsa por todo o filme ganha forma corpórea. Note-se, por exemplo, como ele nos mostra Sean a resguardar a sua vulnerabilidade com uma fachada de ironia sardónica quando se apercebe que as palavras que acabou de proferir são talvez mais verdadeiras e íntimas do que ele próprio esperava. Mesmo fora do campo da expressão facial e do diálogo, o ator é triunfante, sugerindo um tipo de fisicalidade desavergonhadamente efeminada que é pouco vista no grande ou no pequeno ecrã, assim como habilmente dando vida ao definhar de Sean face à doença.

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A química eletrizante entre Biscayart e Valois muito contribui para o impacto emocional de “120 batimentos por minuto”, que em Cannes levou Pedro Almodóvar, então presidente do júri, a desfazer-se em lágrimas numa conferência de imprensa. Nem tudo é tristeza e sofrimento, contudo, sendo este um filme que teimosamente renuncia a tragédia assexual de obras de prestígio sobre indivíduos queer a morrerem por complicações da SIDA como “Filadélfia” e “O Clube de Dallas”. Aqui, Sean e Nathan são vistos a ter sexo numa longa sequência que, apesar de nunca incluir nudez frontal, é bastante mais sugestiva do que o normal, chegando mesmo a conjurar os fantasmas sensoriais de amantes passados. Noutra ocasião, Nathan masturba o namorado na cama de hospital, como que se manifestando contra a narrativa de vitimização desumanizada que a sociedade impõe a pessoas afetadas por esta doença.

Essas cenas são de particular importância no esquema geral do filme, pois “120 batimentos por minuto”, enquanto obra de cinema político, é um extraordinário documento do corpo humano enquanto suprassumo objeto de ativismo. Num mundo que insiste em ignorar a existência de pessoas queer e dos seus desejos, mesmo quando as aceita putativamente, a manifestação física destas vidas e suas necessidades fisiológicas é a mais subversiva das ações. O sexo é tornado em ativismo do indivduo para consigo mesmo e a morte causada por uma doença que muitos definiram como um castigo divino a uma comunidade pervertida é o mais violento grito de indignação imaginável. Seguindo exemplos reais, que o próprio realizador terá testemunhado enquanto membro do ACT UP nos anos 90, os funerais dos membros da organização eram muitas vezes tornados em procissões fúnebres com cartazes em punho e slogans enfurecidos na ponta da língua.

Nos momentos finais, “120 batimentos por minuto” traz todas estas ideias sobre ativismo, sexualidade e existência numa comunidade a um apogeu assombroso. Na banda-sonora, a música eletrónica de Arnaud Rebotini invoca o espectro sónico das noites passadas em discotecas parisienses, transmutando uma manifestação pontuada pelo uso de cinzas fúnebres numa expressão da vitalidade e folia. Depressa a luz e a montagem seguem o mesmo caminho, abandonando o naturalismo em prol da loucura da noite ébria, ao mesmo tempo que dois corpos se entrelaçam em euforia sexual como modo de lidar com a perda. Num retorno ao mais enfático leitmotiv visual do filme, Campillo filma as partículas de pó e água no ar, vendo nelas constelações que se movem com cada respiração, como se todo um universo se moldasse à presença destas pessoas que recusam morrer em silêncio. Esta é uma celebração da vida em toda a sua complexidade e caos, tão feia como bela, tão sensual como sôfrega.

 

120 batimentos por minuto, em análise
120 batimentos por minuto

Movie title: 120 battements par minute

Date published: 2017-12-09

Director(s): Robin Campillo

Actor(s): Arnaud Valois, Nahuel Pérez Biscayart, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Ariel Borenstein, Félix Maritaud, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Saadia Bentaïeb

Genre: Drama, 2017, 140 min

  • Claudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 75
83

CONCLUSÃO

“120 batimentos por minuto” é um triunfo de cinema político do mais alto calibre, evitando cair em clichés do género e concedendo aos seus espetadores uma visão complexa e emocionalmente poderosa de ativismo queer.

O MELHOR: A montagem de Campillo, que confere a este filme de 140 minutos uma energia propulsiva que nunca deixa a experiência do filme ser encalhada por desnecessários momentos mortos. Em termos mais sociopolíticos, há que reconhecer a importância e valor da representação de sexo entre indivíduos seropositivos e negativos.

O PIOR: A falta de variedade visual na construção cénica de Campillo, não obstante o uso meio chocante de visões digitais do VIH a atuar a nível molecular.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho, assim como um cinéfilo devoto.

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