Annabelle 2: A Criação do Mal, em análise

A boneca demoníaca que apareceu pela primeira vez em The Conjuring, volta a aterrorizar as audiências em Annabelle 2: A Criação do Mal, um festim de sustos e clichés cinematográficos.

annabelle 2 critica em analise

Depois de ter dado ao mundo o franchise que viria a tornar-se o asqueroso epítome do subgénero “torture porn” (Saw) e de ter revitalizado o filme de terror baseado em possessões demónicas (Insidious), James Wan alcançou o seu maior sucesso cinematográfico com The Conjuring – A Evocação. O filme, estreado em 2013, provou ser uma espetacular montra para o virtuosismo classicista do realizador, usando mecanismos clichés do cinema de terror com uma segurança e vigor formalista raros. Para além do mais, a sua utilização de imagética instantaneamente icónica e cuidadas caracterizações viria a conquistar a crítica.

Em suma, The Conjuring foi um brilhante sucesso e o que era suposto ser um filme a solo depressa floresceu num franchise onde a palavra de ordem é sempre iconografia clássica do terror. Demónios que possuem crianças, imagética católica pervertida, bonecas assustadoras, casas vitorianas e muita escuridão marcam todos os filmes do franchise. No entanto, a qualidade dessas obras é muito variável. Se o filme original é um clássico moderno do género e a sua sequela direta é um espetáculo de exagero formalista, a primeira prequela, Annabelle, foi um desinspirado desastre. Pior ainda que os seus muitos problemas textuais e terríveis personagens foi mesmo o facto de esse filme ser bem carente em genuínos sustos.

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O mesmo não se pode dizer da prequela a essa prequela, Annabelle 2: A Criação do Mal. Apesar de, tal como aconteceu com o primeiro Annabelle, James Wan não estar envolvido na realização do projeto, o seu gosto por terror clássico e virtuosismo técnico estão bem presentes na direção de David F. Sandberg, que já tinha mostrado as suas habilidades com Lights Out – Terror na Escuridão. De facto, se há algo absolutamente louvável neste pesadelo fílmico é o trabalho de Sandberg. Ele usa espaço negativo, composições cuidadas, elegantes movimentos de câmara e uma diabólica imaginação no que diz respeito à conceção de situações assustadoras para proporcionar à sua audiência uma espécie de ataque incansável em forma de sustos. Para qualquer fã do cinema de terror, isto é néctar dos deuses.

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Não se trata de uma coleção particularmente original de técnicas e mecanismos, na verdade são quase todos lugares comuns do género, mas a sua variedade e falta de lógica interna é surpreendente. A um certo ponto da narrativa, o espetador não tem qualquer forma de suspeitar de onde virá o próximo horror, sendo que o comportamento do demónio principal não denota qualquer sombra de estrutura racional. Críticos menos generosos poderão dizer que isto é um problema, expondo o terror do filme como um mero mecanismo cinematográfico em nada orientado por uma história consistente, mas para quem queira ser assustado, tal imprevisibilidade é perfeita.

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Aliás, não há grande problema em olhar para um filme de terror como um exercício audiovisual em causar medo. Nesse sentido, Annabelle 2: A Criação do Mal é talvez um dos maiores sucessos de 2017. É claro que não estamos perante um endiabrado filme de terror italiano dos anos 70, mas sim de uma produção mainstream de Hollywood no século XXI, pelo que tem de haver uma base narrativa, uma história que dê um pretexto para todos os sustos no repertório de Sandberg. Nessa necessidade, é onde surgem os maiores problemas do filme.

O argumento escrito por Gary Dauberman não é tão catastrófico como o estafermo aborrecido que o mesmo escritor concebeu para o primeiro filme centrado em Annabelle. Esta história passa-se nos anos 50, na quinta isolada de um antigo fabricante de bonecas de porcelana que, 12 anos após a morte trágica da sua filha e de algo misterioso ter incapacitado a sua esposa, decide acolher várias órfãs no seu lar. Dentro do grupo, estão Linda e Janice, duas melhores amigas que decidiram nunca ser separadas, sendo que, se uma família quiser levar uma delas para casa, terá de levar a outra amiga também. O seu pacto é dificultado pela saúde fragilizada de Janice que, sendo uma vítima de pólio, necessita de muletas para andar e de uma cadeira mecânica para subir ao primeiro andar da sua nova casa – algo brilhantemente usado na sequência mais aterrorizadora do filme.

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Certa noite, uma nota misteriosa leva Janice até a um quarto trancado, cuja entrada o dono da casa tinha rispidamente proibido. Aí, ela encontra as marcas da infância mimada de uma menina e, num compartimento escondido da habitação, a grotesca boneca que dá nome ao filme. A partir dessa noite, o demónio que habita o horrendo brinquedo começa a atormentar as raparigas, focando-se inicialmente em Janice antes de tudo culminar numa noite infernal, onde assombrações parecem vir de todas as direções e nem um crucifixo pode defender uma alma inocente da violência sobrenatural da criatura.

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Porque é que o casal, bem ciente do horror escondido na sua casa, convidaria um grupo de órfãs para lá viver? Por que razão é que Linda se debruça sobre um poço depois de ter para lá atirado a boneca, que ela bem sabe ser uma entidade monstruosa? Por que é que as raparigas mais velhas se vão esconder no mesmo sítio onde elas sabem que Janice foi anteriormente atacada? Tudo isto, juntamente com muitas outras partes do texto, são meros mecanismos que traem a integridade e inteligência das personagens em prol dos já muito mencionados cenários de horror. Não faz sentido e não é boa dramaturgia, mas funciona. Essa é a ideia subjacente a todo este filme – não é uma obra-prima, mas funciona e isso por vezes é suficiente.

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O próprio cenário, um elemento visual que tem sido sempre fantástico neste franchise, mostra alguma dessa atitude. Não temos aqui nenhuma da especificidade temporal do The Conjuring ou mesmo do primeiro Annabelle, mas é um bom trabalho de cenografia horripilante e, em compensação, a fotografia e a sonoplastia são soberbas. O uso de luz solar direta para iluminar algumas das cenas mais chocantes é particularmente inspirada, como se um demónio estivesse a corromper uma pintura de Norman Rockwell. No final, não podemos pedir muito mais de Annabelle 2, uma prequela de uma prequela a um filme que não necessitava de ser o primeiro de um franchise mas que ainda vai dar à luz a muitos outros títulos bem lucrativos nos próximos anos.

 

Annabelle 2: A Criação do Mal, em análise
annabelle 2

Movie title: Annabelle: Creation

Date published: 2017-08-10

Director(s): David F. Sandberg

Actor(s): Talitha Bateman, Lulu Wilson, Miranda Otto, Anthony LaPaglia, Stephanie Sigman

Genre: Terror, Mistério, Thriller, 2017, 109 min

  • Claudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

Annabelle 2: A Criação do Mal é um filme de terror competente com algumas passagens verdadeiramente inspiradas. O bom trabalho da jovem atriz Talitha Bateman no papel de Janice e o formalismo seguro de David F. Sandberg elevam o projeto acima da sua proposta a la filme de série B.

O MELHOR: No primeiro Annabelle, um dos maiores problemas foi o modo como a imagem da boneca titular era tão grotesca que quase se tornava risível. Nesta prequela, Sandberg resolveu o problema ao abraçar de tal modo o seu ridículo, que os risos desconfortáveis da audiência se tornam no prelúdio orgânico dos seus gritos de horror.

O PIOR: O desperdício de Miranda Otto num papel minúsculo e todas as crassas tentativas de ligar este filme aos restantes títulos do franchise.

CA

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