Os deslumbrantes figurinos de A Bela e o Monstro

Com os recursos da Disney e a inspiração do clássico de 1991, a figurinista Jacqueline Durran criou um guarda-roupa deslumbrante para a nova versão de A Bela e o Monstro.

 


Parte 2: O estilo icónico de Belle>>


 

a bela e o monstro jacqueline durran

Muito se fala da importância histórica de A Bela e o Monstro tanto em termos da evolução da Disney como do cinema de animação (foi o primeiro filme de animação a ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme!), mas um dos seus aspetos mais inovadores é raramente apontado. Estamos a referir-nos à questão de especificidade espaciotemporal. É que, no passado, o cinema de animação, especialmente os contos-de-fadas da Disney, tinham sempre apresentado mundos fantasiosos que pouco ou nada têm que ver com a nossa realidade histórica e geográfica. Veja-se por exemplo Branca-de-Neve e os Sete Anões e A Bela Adormecida, dois filmes cujas narrativas decorrem algures numa pseudo Europa meio medieval, ou Cinderela cuja localização temporal é basicamente impossível de determinar. O mais notório exemplo de todos é A Pequena Sereia, onde tudo isso está tão diabolicamente indefinido que ninguém consegue dizer ao certo em que parte do planeta Terra é que a história supostamente se passa.

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Chamamos a atenção a este peculiar fator na história dos filmes da Disney pois A Bela e o Monstro veio romper com tudo isso. A história, inspirada no conto-de-fadas setecentista de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, decorre muito especificamente no sul da França do século XVIII. Tais informações são estabelecidas através do design, da música (Belle é claramente inspirada em operetas francesas) e do próprio diálogo que chega mesmo a fazer referência aos estilos arquitetónicos usados como base para o desenho do castelo do Monstro: Barroco tardio, Rococó e Neoclássico. Tal especificidade foi apenas intensificada com o remake de imagem real que está a gora nas salas de cinema.

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Ao invés de escolherem uma relativa indefinição histórica, como os cineastas por detrás de Cinderela ou Maléfica, a equipa responsável pela criação do mundo do novo A Bela e o Monstro virou-se para as sugestões históricas dadas pelo filme de animação e levou-as ao seu extremo. Tendo em conta que certas partes do filme são recriações plano por plano do original, isto não deverá surpreender ninguém mas, mesmo os cinéfilos mais cínicos, certamente ficaram estupefactos com o nível de fausto e ostentação em evidência no filme.

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A cenografia de Sarah Greenwood construiu um castelo aparentemente baseado no conceito “Rococó com esteroides” (dependendo do ideal estético de cada espetador, o resultado poderá parecer mais horrendo que encantador) e a criadora de maquilhagem Jenny Shircore filtrou as modas da corte francesa através de um estilo entre o glam rock e o Carnaval que é tão rica em perucas empoeiradas como em batom metálico.

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Voltando à animação, o filme de 1991, como quase todos os trabalhos de animação, constitui uma estilização da realidade através da simplificação. Ajudados pelos recursos quase ilimitados da Disney, nenhuma das pessoas envolvidas com o novo projeto mostrou tal contenção. Nem mesmo Jacqueline Durran, que não é nenhuma estreante no panorama da estilização extrema sobre uma base histórica – ela ganhou o Óscar pelas suas criações, fantasias reminiscentes de alta-costura francesa, para Ana Karenina de Joe Wright.

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Apesar disso, Durran mostra uma fascinante utilização de referências históricas, exemplificando estilos que raramente veem a luz do dia mesmo nos mais luxuosos dramas de época. Nem mesmo a segunda temporada de Outlander, por exemplo, teve uma única reprodução decente de um robe à la française. Logo na primeira cena de A Bela e o Monstro, Durran dá-nos dezenas destes vestidos, perfeitamente construídos com impecável requinte e atenção ao detalhe.

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A figurinista chega mesmo a diferenciar as gerações de personagens através de escolhas estilísticas. Por exemplo, as mulheres mais velhas da aldeia de Belle, usam toucados reminiscentes de fontagnes, um estilo que já seria antiquado a meio do século XVIII, enquanto as raparigas mais jovens usam estilos mais próprios de meados da década de 60 desse século. Estes detalhes históricos, contudo, são suplantados pela influência da simplicidade do filme de animação quando se trata da nossa heroína. Quase todos os figurinos de Belle são explicitamente baseados na versão animada, apesar do seu visual final ser marcado por uma enorme riqueza de detalhes e diversas texturas que, como as referências históricas situam o filme em algo próximo da nossa realidade.

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Se formos suficientemente cínicos podemos mesmo dizer que essa preocupação realista é uma consequência do crescente e desesperante interesse de Hollywood em abandonar estilizações teatrais e mundos abertamente inverosímeis. Aliás, esta mesma procura por máxima credulidade leva a que o filme esteja pejado de pequenos apontamentos que dão explicações a algumas das concessões dramáticas da narrativa original – aparentemente a Disney assume que uma audiência contemporânea iria ficar demasiado confusa se o conto-de-fadas não fosse minimamente realista. Enfim, “realismo” é aqui uma expressão relativa pois as explosões de renda e orgias de talha doirada em evidência neste filme continuam mais perto do sonho que da História. É o que acontece quando a Disney investe mais de 150 milhões de dólares num conto-de-fadas musical.

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Na próxima página começamos a explorar os figurinos de modo mais aprofundado, a começar pelo icónico guarda-roupa de uma das mais apaixonantes heroínas que a Disney já teve. Não percas!



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