BlacKkKlansman: O Infiltrado, em análise

BlacKkKlansman: O Infiltrado” é uma eletrizante obra de cinema histórico e político que valeu a Spike Lee o Grande Prémio do Festival de Cannes deste ano.

“O Nascimento de uma Nação” de D.W. Griffith é um dos filmes mais importantes na História do Cinema. Pelo menos, é essa ideia que mantém este relicário de racismo virulento, que em 1915 deu azo ao renascimento do Ku Klux Klan, nas páginas de todos os livros sobre o tema e nas bocas de estudiosos da sétima arte por todo o mundo. Certamente o impacto que o filme teve na fundação de Hollywood é impossível de negar, assim como seu papel na solidificação de longas-metragens como uma proposta financeiramente viável. Contudo, é no seu uso supostamente pioneiro de ‘cross-cutting’, a montagem entre-cortada de eventos separados a acontecer ao mesmo tempo, que o legado do filme mais fortemente assenta*. Spike Lee conhece muito bem essa desculpa para a perpétua importância deste épico de ódio e, em “BlacKkKlansman”, o realizador torna essa mesma faceta de interesse histórico na arma com a qual ele dilacera o legado de “O Nascimento de Uma Nação”.

Perto do seu portentoso clímax, “BlacKkKlansman” desdobra-se numa das sequências mais inspiradas na carreira de Lee. Aí, o cineasta afro-americano contrapõe as celebrações ritualistas de uma fação do KKK com o testemunho de um ativista envelhecido a um grupo de estudantes que luta pela libertação negra. Para sublinhar sua investida contra o próprio edifício racista da História do Cinema Americano, Lee mostra os supremacistas brancos a verem “O Nascimento de Uma Nação”, explodindo em nojentos epítetos de racismo gritado e grotesca revelia. Em contraste, Harry Belafonte, uma das faces mais mediáticas da luta pelos direitos civis dos anos 60, dá voz ao ativista veterano da guerra racial, descrevendo calmamente uma série de inimagináveis horrores a um grupo de jovens retratados com digna solenidade.

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Spike Lee em estado de graça.

Trata-se de uma violenta crítica histórica em forma de gramática cinematográfica, assim como uma genial mostra da montagem enquanto arma de discurso político por meio de galvanização emocional. Esta nem é a única instância em que Lee se aventura pela História do Cinema em “BlacKkKlansman”, sua versão meio fictícia da história de Ron Stallworth, um polícia afro-americano de Colorado Springs que, nos anos 70, infiltrou o Ku Klux Klan. Afinal, o filme começa com um dos mais famosos planos de “E Tudo o vento Levou”, onde uma bandeira da Confederação balança na brisa perante um campo cheio com os corpos de incontáveis soldados caídos. Noutra ocasião, Ron e sua namorada Patrice, membro dos Black Panthers, discutem os seus gostos por cinema Blaxploitation e, pelo fim, a sua conversa caiu numa discussão sobre a representação afro-americana nesses filmes fantasiosos.

Aquando desse diálogo, Ron argumenta que não é preciso olhar para os filmes com tanta seriedade. São só filmes. Lee, claramente discorda, e as suas alusões cinematográficas pintam uma necessária exumação de iconografia cultural contida em artefactos cinematográficos, quer sejam aqueles que ajudaram à continua glorificação da causa Confederada como o último hurra de um mundo romântico em fatalístico fim, ou as imagens que calcificaram estereótipos, ao mesmo tempo que, para certos espectadores, ofereceram um raro reflexo de si mesmos no grande ecrã. Spike Lee é um realizador bem ciente do poder do cinema, a nível de cultura e História, de sociedade e indivíduo. Apesar de não ser uma referência a cinema do passado, um dos momentos mais impressionantes do filme encontra o cineasta a usar esse mesmo poder para tornar discurso político em imagens.

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Quando o ativista Kwame Ture pontifica a uma audiência atenta sobre a necessidade de se mudar os paradigmas da beleza, valorizando assim a estética afro-americana e sua específica fisionomia, Lee enche o ecrã com composições das caras da audiência, perfeitamente iluminadas. A retórica política não é assim ilustrada, mas traduzida numa linguagem não verbal, a linguagem do cinema. Numa sequência que decorre não muito depois deste momento, uma descrição de monstruoso assédio sexual por parte de um polícia racista é seguida pelas suas vítimas a dançarem num soul train, jubilantes e belas. Por muita indignidade que seja arremessada contra as suas pessoas, estes combatentes pela causa da liberdade e igualdade não se deixam cair no desespero, mas continuam a celebrar a sua existência, com música, dança, sexo e obstinada joie de vivre. Não há melhor resposta àqueles que nos querem oprimir, do que viver bem, viver feliz.

Talvez por isso, Spike Lee tenda a evitar cair nos cânones de seriedade imutável que caracterizam tantos dos filmes históricos e políticos da atualidade. “BlacKkKlansman” é um filme concetualmente denso que aborda alguns dos temas mais cáusticos da atualidade, mas fá-lo com impressionante flexibilidade tonal. Muito do filme é mesmo uma comédia extravagante, com montagens ensandecidas e uma energia eletrizante a pulsar por toda a sua narrativa. Isto, infelizmente, nem sempre trabalha em benefício do filme. Por muito que Lee tente encarar simultaneamente o KKK como um grupo de caricaturas risíveis e como uma das instituições mais venenosas da História Americana, a junção destes dois impulsos acaba por roubar muito do poder à representação que o filme faz do seu cocktail de ódio racista e real poder para implementar, sobre a América, a sua maneira de ver o mundo.

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As cambalhotas tonais do filme nem sempre funcionam em seu benefício.

Tal representação atonal é particularmente problemática quando emparelhada com o modo subdesenvolvido como Lee explora os Black Panthers. Verdade seja dita, esta é a parte mais concetualmente instável do filme, sendo também das mais fictícias. Ron Stallworth nunca esteve envolvido romanticamente com uma ativista. A presença dela no filme confronta o paradoxo de um homem negro que luta pelos direitos da sua comunidade, mas, ao mesmo tempo, é um feliz agente da polícia, cuja história de agressão contra afro-americanos continua tão horrenda como sempre. De modo semelhante, a invenção de um parceiro judeu na investigação levanta muitas questões de história de opressão partilhada entre duas comunidades, mas Lee nunca parece chegar a nenhuma conclusão.

O filme tem outros problemas notórios entre suas muito luminosas mais-valias. O maior deles é o uso de imagens de Charlotesville e da morte da ativista antifascista Heather Heyer. Ao longo de “BlacKkKlansman”, Lee posiciona os seus vilões como os claros percursores de Donald Trump e os neo-nazis da América contemporânea, chegando mesmo a fazer as suas personagens vomitar passagens que são versões quase inalteradas da retórica de campanha do presente Presidente dos EUA. Tal é claríssimo, pelo que o uso de imagens de arquivo no fim parece desnecessário e sensacionalista, de um modo quase ofensivo.

Nos tempos que correm, talvez subtileza não seja o caminho certo para uma mensagem política tão urgente como aquela presente nesta obra. Ao longo da narrativa, Lee vai gradualmente passando de comédia a uma tragédia insuflada pela mais pura das fúrias e, nesse contexto, mesmo que problemático, o gesto final é entendível como derradeiro grito de raiva. Lee podia ter escolhido uma abordagem mais comedida e elegante, mas provavelmente não estaria a ser autêntico para consigo mesmo. Na sua forma final, “BlacKkKlansman” é uma obra de cinema político e histórico profundamente pessoal, que vale tanto pelos seus triunfos como pelos seus defeitos, seus problemas e cáustico retrato do mundo em que vivemos.

*Lois Weber, uma das grandes pioneiras na História do Cinema, já havia empregue esta técnica de ‘cross-cutting’ dois anos antes de Griffith estrear “O Nascimento de Uma Nação”, na curta-metragem “Suspense”. Poderão até haver outros exemplos mais antigos.

BlacKkKlansman: O Infiltrado, em análise
BlacKkKlansman: O Infiltrado

Movie title: BlacKkKlansman

Date published: 2018-09-13

Director(s): Spike Lee

Actor(s): John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Alec Baldwin, Robert John Burke, Corey Hawkins, Jasper Pääkkönen, Ryan Eggold, Paul Walter Hauser, Ashlie Atkinson, Harry Belafonte

Genre: História, Comédia, Crime , 2018, 135 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO

“BlacKkKlansman” é um dos filmes de Spike Lee mais inebriados pelas possibilidades políticas da gramática cinematográfica. É também uma obstinada reinvenção do filme histórico de prestígio, que examina e confronta o racismo institucional americano através de uma dilaceração da sua iconografia e legado cultural. Está longe de ser um filme perfeito com o seu tom instável e fragilidades textuais, mas não deixa por isso de ser uma obra tão fascinante quanto urgente.

O MELHOR: As alusões de Lee à História do Cinema Americano.

O PIOR: Quão subdesenvolvido é o retrato dos Black Panthers.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho, assim como um cinéfilo devoto.

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