71º Festival de Cannes (8): A Luta do Povo, Salaviza e Brisé

João Salaviza e a companheira apresentaram “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, um dos filmes mais bonitos desta jornada; o francês Stephen Brizé continua a ir à luta com “En Guerre”. Resta ao novo “Solo: A Star Wars Story”, continuar a espalhar acção pela galáxia.

En guerre
Vincent Lindon, dá novamente  a cara num filme de Brizé, desta vez para interpretar um sindicalista.

Três anos depois de “A Lei do Mercado”, que a valeu aqui a Vincent Lindon, o Prémio de Interpretação, o realizador francês Stéphane Brizé, regressou à competição do 71º Festival de Cannes, com “En Guerre”, um filme sobre a cólera, desespero e a desilusão. “En Guerre” é uma obra radical, quase como uma continuação de “A Lei do Mercado” sobre o horror económico e a violência social que daí advém. Vincent Lindon, dá novamente a cara para interpretar um sindicalista, que se mistura com os operários e actores não-profissionais numa situação vivida na sua realidade e no dia-a-dia, das lutas sindicais. Apesar dos pesados sacrifícios financeiros por parte dos funcionários e um lucro recorde da sua empresa, a nova administração alemã da fábrica Perrin Industrie decide o encerramento da fábrica. Com um acordo desrespeitado, promessas não cumpridas, os 1100 funcionários da empresa, liderados pelo seu porta-voz Laurent Amedeo (Vincent Lindon), recusam esta decisão brutal e vão fazer tudo para salvar seu emprego. O efeito da globalização e do capitalismo financeiro recaí obviamente sobre as costas dos trabalhadores, como em “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho, Prémio Fipresci do ano passado.

En guerre
Vincent Lindon tem uma interpretação notável e visceral.

A história centra-se no personagem de Vincent Lindon — com mais uma interpretação notável e visceral —, que ocupa praticamente toda a história, colocando os seus colegas quase como soldados às suas ordens. A luta dos trabalhadores vai obviamente ter uma forte oposição e conflito entre ferozes sindicalistas e patrões insensíveis, aos problemas dos trabalhadores. Stéphane Brizé mantém como habitualmente nas suas histórias, uma intensidade  e um ritmo particularmente comovente e rápido, destacando as injustiças sociais e as lutas dos trabalhadores num mundo em mudança. O protagonista é necessariamente um revoltado diante dessa visão capitalista que não hesita em sacrificar o indivíduo pela busca de lucros e satisfação dos accionistas. O filme não podia vir mais a propósito sobretudo para a França onde os conflitos laborais estão ao rubro em empresas como a Orange, Danone, entre outras.

En guerre
“En Guerre”, é no fundo um filme poderoso e intenso sobre a cólera, desespero e a desilusão.

De qualquer modo neste testemunho de revolta,  de “En Guerre”, não é certo que algo de duradouro permaneça a longo prazo na cabeça do espectador, até pelas constantes imagens dos noticiários das televisões. O final algo inesperado serve mais para criar um choque momentâneo, do que provocar uma reflexão duradoura, como aliás acontecia em “A Fábrica de Nada”, sobre várias visões dos conflitos e mudanças, no mundo do trabalho.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
Uma história de ficção e realidade sobre o destino do povo índio Krahô, do norte do Brasil.

O filme luso-brasileiro “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de João Salaviza e Renée Nader Messora, apresentado na secção Un  Certain Regard, é um dos filmes mais bonitos apresentados na recta final deste 71ª Festival de Cannes. O filme embora possa parecer à partida um documentário é na realidade uma história de ficção sobre o destino do povo índio Krahô, que vive numa grande região  do norte do Brasil.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
A câmera aproxima-se de uma forma respeitosa e poética das pessoas da aldeia Krahô.

“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, é um filme que nasceu da experiência dos dois cineastas que viveram quase um ano na aldeia de Pedra Branca, uma aldeia do povo Krahôn, localizada em pleno cerrado brasileiro, no Estado de Tocatins, não muito longe da capital Brasília. O cineasta português João Salaviza, foi o vencedor da Palma de Ouro 2009, com a curta-metragem “Arena”; e Renée Nader Messora, é uma paulistana que foi assistente realização em “Montanha”, a primeira longa-metragem de Salaviza. Mas agora e dada a proximidade e experiência formam um casal.

“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, segue a  vida de Ihjãc, um índio Krahô de 15 anos, — já com família constituída — que chamado pela voz de seu pai morto, tem de celebrar a festa funerária, que permitirá que o espírito de seu pai parta definitivamente para a aldeia dos mortos. Relutante em aceitar essa tradição e o que isso implica, ou seja uma primeiro passo para se tornar um xamã, o jovem Ihjãc  simulando uma doença, foge para a cidade mais próxima, habitada pelos brancos. Se a civilização lhe oferece algumas soluções para os seus problemas por outro lado levanta-lhe outras questões burocráticas identitárias e cívicas, que também não se coadunam com a sua situação.

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Tal como muita ficção contemporânea, que assenta numa contaminação de realidade e ficção (e vice-versa), “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” está assente em realidades particulares, mas abrange questões culturais de maior dimensão. “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” mostra as dificuldades de um adolescente Krahô em viver em dois mundos diferentes, que não reconhece como seus e, ao mesmo tempo mostra como a civilização branca está a isolar o povo Krahô e como o agro-negócio está a ameaçar as suas terras e a biodiversidade local. O destino do jovem Ihjãc é ter de viver numa espécie de terra de ninguém, entre a cultura indígena e o mundo ocidental, que na verdade acaba também por rejeitá-lo.

O filme é baseado ainda na experiência dos alunos de Nader Messora, que têm trabalhado com o povo Krahô na aldeia de Pedra Branca, desde 2009, participando da mobilização de um coletivo local de cineastas Krahô, que vão registando com as suas próprias câmaras as cerimónias e rituais do seu povo. A ideia deste colectivo de cineastas indígenas é usar o cinema como ferramenta de autodeterminação e fortalecimento da identidade cultural. Outro dos grandes desafios de “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” foi sem dúvida ter conseguido filmar esse mundo espiritual e animista dos Krahôs. João Salaviza e Renée Nader Messora, com uma abordagem paciente e delicada em relação à cultura alheia, dirigiram um belo filme que não precisa de comentários nem de muita tradução, — a maioria do filme à excepção do que é passado na cidade é falado em língua indígena — já que as suas imagens únicas, de rara e singular beleza, falam por si. É curioso como a câmara de 16 mm, dos dois cineastas, consegue aproximar-se de uma forma respeitosa e poética  das pessoas da aldeia Krahô, acariciando a beleza que a cerca e a sua forte conexão com a natureza.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” regista esse mundo espiritual e animista dos Krahôs.

“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” parece procura ainda inserir-se numa florescente tradição cinematográfica no Brasil: uma das novas tendências do cinema brasileiro é construir uma narrativa alternativa do que significa ser brasileiro nos dias de hoje e, neste caso, relativamente a um indígena brasileiro. Resumindo “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” é uma extraordinária, paciente e calma experiência de um puro poema cinematográfico, que nos satisfaz plenamente como amantes do cinema e um dos filmes mais bonitos deste 71º Festival de Cannes. Depois do prémio para “Diamantino”, de Gabriel Abrantes e Daniel Schimdt na 57ª Semana da Crítica, são muitas as esperanças depositadas neste filme luso-brasileiro.

Solo: A Star Wars Story
“Solo: A Star Wars Story” é um poderoso regresso da saga, que volta ao princípio dos princípios.

Por falar em experiências cinematográficas, “Solo: A Star Wars Story”, de Ron Howard — o mais competente tarefeiro da indústria de Hollywood — passou pelo 71º Festival de Cannes, como um foguete; ou antes passou como a Millennium Falcon, a nave pilotada por Han Solo (atualmente por Rey) e co-pilotada pelo fiel Chewbacca. Foram sem dúvida quase duas horas e meia de acção — adorei ver a Emila Clark —  e um poderoso regresso da saga Star Wars, que volta ao princípio dos princípios — já houve quantos? — e dada a quantidade de jovens que estavam a porta do Palácio dos Festivais, a pedir uma sobra de um convite, é para dizer que ainda podemos falar da juventude de um mito. E não conto mais nada para não vos estragar a festa aí em Lisboa, mas na verdade “Solo: A Star Wars Story”, e apesar de tanta acção, já não é para a minha idade e devoção.

José Vieira Mendes (em Cannes)

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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