Capitão Phillips, em análise

 

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  • Título Original: Captain Philips
  • Realizador: Paul Greengrass
  • Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman
  • Género: Drama, Biopic
  • CTW | 2013 | 134 min

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A 145 milhas da costa da Somália, uma modesta embarcação pirata desloca-se a alta velocidade pelas ‘águas africanas’. Na sua frente, segue um pujante navio em fuga, recheado de mantimentos. Já sabemos o que se segue.

No entanto, por muito que saibamos que o porta-contentores Maersk Alabama do Capitão Phillips (Tom Hanks) vá ser alcançado, ainda vivemos a efémera utopia de que os piratas somalis liderados por Muse (Barkhad Abdi) não consigam conquistar o que tanto ambicionam. Somos ali projetados para uma cena de ação frenética que queremos a todo o custo que termine de uma forma, apesar de termos a perfeita consciência que tal não irá acontecer, ou esta não fosse uma história verídica.

Nesse momento, “Capitão Philips” – ou “Argo” de 2013, como já lhe gostam de chamar – dá os primeiros sinais de que algo de muito bom se aproxima… e assim foi. Mais do que uma obra espantosamente realista sobre os efeitos colaterais da globalização e as consequências de uma economia global deteriorada, “Capitão Philips” é um drama intenso que joga com as emoções do espectador como quase nenhuma outra fita americana dos últimos anos foi capaz de o fazer.
Tom Hanks

Usufrui de um argumento riquíssimo baseado no livro “A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea”, escrito pelo próprio Capitão Richard Phillips, que se conjuga com uma montagem irrepreensível (são de cortar a respiração aquelas cenas iniciais quando os somalis vasculham o Maersk Alabama), um casting quase perfeito – veja-se crueldade das interpretações dos atores que encarnam os piratas somalis – e culminando no seu maior: uma das melhores realizações do ano da autoria de Paul Greengrass (realizador de “United 93” e os dois últimos filmes da trilogia Bourne).

A favor da sua consistência, o talento e competência atrás das câmaras é sempre facilmente transponível para o elenco. E é bem à frente das câmaras que Tom Hanks brilha.

930353 - Captain Phillips

Talvez não seja suficiente recuar uma década para ver um Hanks em tão grande nível. Inicialmente frio e circunspecto, mostrando a astúcia inata do seu personagem, para ir progressivamente explodindo como há muito não o víamos fazer. É na metamorfose heroica do seu Capitão Philips que ele consegue extrapolar todo o sofrimento e todos os receios do personagem num golpe de pura mestria emocional. E não necessita de grandes diálogos: por vezes bastam alguns gestos intensos ou algumas das suas tenebrosas expressões faciais para que se sinta a sua hegemonia no ecrã. O último ato irá marcar a ampla e variada carreira de Hanks, não temos dúvidas disso. É uma interpretação poderosa que valia com facilidade uma vitória nos Óscares, não fosse Tom Hanks já colecionar duas estatuetas na sua prateleira.

A maior surpresa nas representações surge de um estreante em Hollywood que descobriu o papel num anúncio televisivo e enfrentou um casting com cerca de 800 pessoas: Barkhad Abdi como ‘Capitão’ Muse. Viveu na Somália até aos seus sete anos de idade e mudou-se do Iémen para Minneapolis, nos EUA, aos catorze. Assim se descobriu um ator talhado para um estupendo papel. Em Muse sente-se um verdadeiro criador do caos, uma fonte de medo impulsionada por uma desconcertante esquizofrenia verbal. ‘No Al Qaeda here, just business.‘, diz ele a determinado momento. Barkhad Abdi interpreta com vigor um terrorista dos mares, por muito que este diga o contrário, apesar de se ficar com alguma vontade de ver um descortino mais concreto das suas motivações, porque talvez este ‘gerador de medo’ seja também assim gerado. Mas o que mais sobressai na prestação de Barkhad Abdi é a capacidade de compor um tremendo vilão que apesar de tudo consegue a compaixão da audiência. Uma interpretação de grande nível, a merecer uma nomeação nos próximos Óscares.

captain philips (2)

A evolução gradual e afunilada dos acontecimentos vai abrindo espaço para Tom Hanks e Barkhad Abdi contracenarem em cenas memoráveis, mas é o génio de Paul Grengrass que origina aquele ambiente.

A câmara de Greengrass é portentosa. A vibração dos planos induz a sensação de claustrofobia imensa. E nós ali in loco, somos as personagens ausentes que sentem toda aquela aflição e sofrimento que a personagem de Tom Hanks vai acumulando, até à ‘explosão’ final. A forma intensa e autêntica com que Greengrass filma esta história real sobre personagens reais provoca desconforto (muito à semelhança da inquietude que este expunha em “United 93”). O último terço é extraordinariamente perturbante: cruzamos e descruzamos as pernas, movemo-nos de posição, respiramos ofegantemente… a certa altura, até a maior das salas de cinema parece usufruir de escassas dimensões tendo em conta o pânico que se instala.

Tom Hanks

De Greengrass já se esperava que fosse capaz de prender a atenção, tal é a forma como normalmente concebe os seus thrillers de ação. O que não era de todo expectável seria ver em “Capitão Philips” tamanha riqueza emocional alicerçada num território tão frio do nosso mapa mundo. Ainda que com um reduzido número de personagens e cenários, Greengrass constrói um dos mais gloriosos dramas americanos dos últimos anos.

“Vai tudo correr bem.” é a frase que se ouve repetidamente naquele final notável (muito ‘quotable’, por sinal). E é perante a enormidade cinematográfica que “Capitão Philips” oferece, que ficamos convictos de que tudo correu bem a Paul Greengrass.

 

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Sobre Daniel Rodrigues