BoJack Horseman, quarta temporada em análise

E se uma série de animação com um cavalo como protagonista conseguisse ser um dos programas de entretenimento emocionalmente mais marcantes da atualidade? À quarta tentativa, “BoJack Horseman” mantém o tom depressivo, mas oferece finalmente uma luz ao fundo do túnel.

A animação televisiva está a mudar. Desde o nascimento dos Simpsons, em 1989, assistimos a etapas e momentos capitais. O sucesso da família de Homer abriu espaço para séries com um humor mais cáustico e para um público-alvo mais velho. “South Park” e os projetos com a assinatura Seth MacFarlane cabem neste raciocínio. Depois, entre 2013 e 2014, “Rick and Morty” e “BoJack Horseman”. Duas realidades bem distintas que, não deixando de ter o seu valor humorístico, têm-se afirmado como gigantes através dos seus murros emocionais. Graças a Rick Sanchez e BoJack Horseman, personagens social e psicologicamente próximas, a animação é hoje menos animada. Mas uma experiência bastante mais rica.

Em 2016, o popular site IndieWire considerou “BoJack Horseman” a melhor série do ano. A eleição surgiu depois de uma terceira temporada extraordinária, capaz de justificar a presença de Horseman como par de Soprano, Draper e Underwood. Afinal, foi assim que a Netflix promoveu a série, reunindo anti-heróis. Para aqueles que nunca espreitaram “BoJack Horseman”, a série aposta numa realidade onde humanos e animais antropomórficos vivem como iguais. A todos os níveis. E tem em BoJack (Will Arnett), antiga estrela de uma série dos anos 90 à procura de recuperar o sucesso ao mesmo tempo que atravessa uma crise existencial e se apercebe do vazio da sua vida de celebridade, o seu protagonista.

Bojack Mother

Preservando o núcleo BoJack, Todd (Aaron Paul), Diane (Alison Brie), Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) e Princess Caroline (Amy Sedaris), nas três temporadas anteriores a série mergulhou no existencialismo e niilismo, sabendo equilibrar o cómico e o depressivo. E vimos o tóxico, irresponsável, egoísta, viciado e narcisista Bojack acumular erros num caminho autodestrutivo.

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Numa sátira constante a Hollywood (Hollywoo na série, depois de BoJack roubar o D para impressionar Diane na primeira temporada), tivemos uma temporada de estreia mais fraca, essencial para apresentar personagens, e surpreender na mudança drástica de tom a meio da ação. A partir daí, a série de Raphael Bob-Waksberg explodiu, mantendo a sua personagem principal presa ao passado, asfixiado pelo presente e ansioso pelo futuro. O cavalo mais humano que alguma vez existiu.

No final da temporada 3 – aquela em que um episódio mudo passado debaixo de água e uma certa overdose entraram para a história da televisão – BoJack, como sempre à procura de respostas, atingira provavelmente o seu ponto mais negro. A comédia mais pesada da atualidade não parecia oferecer esperança ou qualquer redenção à personagem de Will Arnett. Sozinho, depois de afastar tudo e todos à sua volta. Mas os instantes finais do último episódio abriram uma nova janela: a família.

Mr. Peanutbutter

E é essencialmente sobre família e sobre gerações a quarta temporada de “BoJack Horseman”, que começa com o nosso cavalo preferido desaparecido. Sabem a capacidade que séries como “Mr. Robot” ou “Westworld”, ou o recente monumento cinematográfico “Blade Runner 2049” têm de proporcionar e pedir uma segunda visualização, pela reinterpretação que podemos fazer de determinadas cenas, desvendado o segredo? A temporada 4 da série da Netflix tem essa capacidade. Mas fá-lo talvez melhor que todos estes exemplos, por nem sequer nos fazer suspeitar que há um segredo ou mistério.

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A temporada parte da carreira política de Mr. Peanutbutter para levar a sua relação com Diane a um ponto sem retorno, não se coíbe de mostrar Todd como uma das primeiras personagens assexuadas em televisão, e o nono episódio (“Ruthie”) contado a partir do futuro por uma descendente de Princess Caroline, é profundamente devastador. No entanto, o plot principal obriga BoJack a lidar com a chegada de Hollyhock (Aparna Nancherla), que diz ser sua filha. O que contribui para a reaproximação da demente mãe de BoJack, Beatrice (Wendie Mallick), a verdadeira estrela da temporada.

Sem revelar demais, o brilhantismo da temporada em que, no final e pela primeira vez, BoJack vê um fino raio de Sol entrar na sua vida negra e à beira do abismo, está na resolução do passado e na possibilidade de construir um futuro.

Bojack Horseman 4

O episódio “Stupid Piece of Sh*t” é um dos destaques, fazendo-nos entrar na cabeça de BoJack e ouvir os seus demónios e o seu negativismo cíclico. Mas é através da capacidade de fazer coexistir passado e presente em episódios como “The Old Sugarman Place” e “Time’s Arrow” que o autor Bob-Waksberg (e Kate Purdy, que escreveu os dois episódios) revoluciona a animação e abre o coração da série. E faz poesia subtil com gelados e limões. O décimo primeiro episódio é mesmo um dos melhores episódios do ano, e um dos melhores retratos de doença mental, usando de forma inteligente e sensível ferramentas que só a animação tem.

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Matthew Broderick, Jane Krakowski, Lin-Manuel Miranda e Rami Malek são algumas das novas vozes presentes. Recorde-se que nomes como Stanley Tucci, J.K. Simmons, Olivia Wilde, Margo Martindale e Daniel Radcliffe, entre tantos outros, já tiveram participações especiais na série.

Tal como no fim da temporada anterior, não sabemos o que espera BoJack. Mas sabemos que a série continuará a ser um incrível, ousado, cínico e satirizante exame à consciência e natureza humanas. Há sempre uma primeira vez para um cavalo (e uma das melhores personagens criadas nos últimos anos) vos fazer rir. Mas a série da Netflix faz muito mais. Faz chorar, pensar e olhar para o mundo.

TRAILER | Descobre onde está e para onde vai BoJack Horseman

Já deste uma oportunidade a um dos melhores originais da Netflix? “BoJack Horseman” é uma das melhores séries da atualidade, mas também uma das mais subvalorizadas.

BoJack Horseman - Temporada 4
Bojack Horseman poster

Name: BoJack Horseman

Description: O tóxico, irresponsável, egoísta, viciado e narcisista Bojack prossegue a procura de respostas e significado para a sua vida. Preso ao passado, asfixiado pelo presente e ansioso pelo futuro.

  • Miguel Pontares - 85
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CONCLUSÃO

O MELHOR - BoJack Horseman preserva o seu lado profundo e o seu existencialismo e niilismo. A série continua a revolucionar a animação, desta vez com grande peso no drama familiar e numa narrativa ao longo de gerações.

O PIOR - O subplot de Todd é o menos interessante da temporada, parecendo ser a única personagem que os autores não sabem para onde conduzir.

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Sobre Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.