Fantasporto 2013 | Mamã, em análise

 

mama-poster1 Título Original: Mama

Realizador: Andrés Muschietti

Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier

Género: Terror

ZON | 2013 | 100 min

Classificação: 

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Andrés Muschietti referiu-se à sua primeira longa-metragem como um remake expansivo da curta-metragem que lhe deu origem, durante a apresentação de “Mamã” no Fantasporto 2013. Foi notório o tom marcadamente descontraído com que o disse mas, ainda assim, é algo que permite realçar alguns pontos fulcrais na forma como o cinema de terror tem inversamente evoluído nos últimos anos.

Num ano onde vamos poder assistir ao renascer de “Evil Dead” e “Carrie”, fica evidente que as ideias estão esgotadas e os organismos que pensam e concretizam o cinema de terror preferem reproduzir fórmulas, em vez de inventar novos artifícios e novas crónicas. “Mamã”, apesar de cair nos sinuosos buracos narrativos do cinema de horror moderno, vem dar um outro ar e uma outra atmosfera a um grupo cinematográfico que necessita de ressurgir das cinzas.

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Resumir o enredo de “Mamã” sem revelar uma partes importantes do enredo é uma tarefa ingrata. De maneira que a sinopse oficial se adequa à situação: “Há cinco anos, as irmãs Victoria e Lilly desapareceram de casa sem deixar rasto. Desde esse dia, o tio Lucas (Nikolaj Coster-Waldau) e a namorada, Annabel (Jessica Chastain), procuram-nas incessantemente. Quando, já sem esperança, as crianças são descobertas vivas numa decrépita cabana, o casal questiona-se se as meninas serão as únicas convidadas em casa…”

A crise económica dá o mote para um acontecimento trágico que vai mudar para sempre o destino dramático de duas crianças. E é logo nos primeiros minutos, que podemos constatar que há algo de diferente em “Mamã”. A inspirada música de Fernando Velázquez (compositor de “El Orfanato”, cuja atmosfera é semelhante a “Mamã”), o trabalho fotográfico Antonio Riestra compactando na tela tons soturnos como cinzas e azuis ou até a magnífica sequência de créditos iniciais, contribuem para a recriação de um design-típico de um suspense moderno.

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Após o prólogo prodigioso, Andrés Muschietti consegue prender a atenção na forma como revela as consequências do seu falso-início. Interessante a forma como consegue justificar, de uma forma verosímil, a capacidade do ser humano (e das duas crianças) se adaptar a um meio externo e a sobreviver numa realidade diferente.

A exploração da relação maternal recíproca é um dos trunfos principais da obra de Muschietti. Porque dessa análise interpessoal surge uma componente dramática que complementa, com solidez, o terror que aqui até poderia assumir facilmente a banalidade. “Mamã” realça o papel da figura maternal através da sua psique e amor genuíno, deixando a mensagem moral de que o amor materno se rege por emoções sensíveis e não por aparências físicas.

Andrés Muschietti, estreante nas longas-metragens, é sempre bastante explícito na abordagem e nas situações que recria (por vezes esmiuçando em demasia aquilo que deveria permanecer no anonimato). No entanto, tem uma direção muito segura da câmara e dos ângulos corretos, conseguindo conceber um ambiente denso e constrangedor e provocando certamente alguns sobressaltos na audiência, seja através dos seus tortuosos sons ou do seu impacto visual.

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Outra componente que contribui para um produto final mais coeso é a direção de atores. Torna-se evidente o cuidado na manipulação das performances infantis para que estas se tornassem puramente magnéticas. E Jessica Chastain, mesmo a exibir-se num género e personagem que lhe são estanhos, consegue arrancar uma prestação equilibrada e autêntica, à semelhança do seu parceiro, Nikolaj Coster-Waldau.

O problema de “Mamã” reside mesmo no argumento que extrapola situações cliché demasiado gastas. Ruídos altos, portas a bater, luzes intermitentes e perigos em florestas são alguns dos imensos lugares-comuns do filme de Muschietti. O que não joga a favor da sua ambicionada perseverança. As previsibilidades são uma mera consequência de algumas decisões pouco acertadas.

Sente-se também que há um decaimento de qualidade assim que a figura sobre-humana é revelada. A Mama é exibida cedo demais, o que diminui a tensão e o interesse que essa indefinição poderia causar.

Apesar do seu início ser bastante superior ao seu seguimento, “Mamã” é uma obra extremamente bem executada, e que compensa alguma falta de originalidade com conteúdo palpável e pertinente. Uma bela surpresa a abrir o Fantasporto.

DR

 



Sobre Daniel Rodrigues