LEFFEST ’17 | Roda Gigante, em análise

Em “Roda Gigante”, Woody Allen presta homenagem ao altar de Kate Winslet, dando à atriz um dos seus melhores papéis dos últimos anos. Este é um dos filmes, cuja antestreia portuguesa foi incluída na programação oficial do Lisbon & Sintra Film Festival.

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O escândalo em volta de Harvey Weinstein deflagrou por Hollywood com a velocidade de uma bala, propiciando o aparecimento de uma série de outras acusações contra homens que, de vários modos e com diferentes graus de gravidade, assediaram mulheres através da sua posição de poder na indústria cinematográfica. Uma figura de que poucos têm falado, no entanto, é Woody Allen, um cineasta cuja reputação é posta em causa há mais de duas décadas por repetidas acusações de abusos sexuais a menores. Pela sua parte, a atriz Ellen Page já veio a público afirmar que trabalhar com Allen foi um dos seus maiores erros, não por qualquer tipo de comportamento do cineasta para consigo, mas pelo tipo de homem cujo trabalho e legado ela estava implicitamente a validar. Com isto dito, começa-se a levantar uma questão: por que razão é que tantos atores, especialmente atrizes declarativamente liberais e progressistas, continuam a trabalhar com o cineasta?

Esta pergunta torna-se particularmente preocupante, quando se tratam de atores com carreiras, de tal modo importantes, que uma colaboração com Allen não iria representar qualquer tipo de mudança significativa de estatuto ou prestígio artístico. Uma particular cena no mais recente filme do realizador “Roda Gigante”, oferece uma resposta não muito apaziguante, mas não por isso menos válida. Afinal, mesmo que não ignoremos a difícil e muito problemática dinâmica entre a ética e moral de um artista em relação ao seu trabalho, será difícil negar a maravilha do monólogo que Kate Winslet chorosamente interpreta debaixo de um porão numa praia à noite. Apesar de começar a cena com uma declamação estudada de falas já ensaiadas em frente ao espelho, Winslet, que aqui interpreta uma antiga atriz, vai mostrando como a emoção domina a sua personagem, fazendo-a a abandonar gradualmente o guião mental e explodir em chorosa autenticidade emocional antes de voltar a tudo esconder por detrás de melancolia dramatizada. Allen filma tudo isso num só grande plano, construindo todo o seu edifício cinematográfico como um altar aos talentos da sua atriz.

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Não há dúvida, que Ginny, a protagonista de “Roda Gigante”, é o melhor e mais complicado papel que Winslet tem a seu cargo desde que interpretou o papel titular de “Mildred Pierce”, uma minissérie de Todd Haynes estreada em 2011. Se, em “Blue Jasmine”, Woody Allen deu a Cate Blanchett a oportunidade de explorar a figura de Blanche DuBois num contexto contemporâneo, “Roda Gigante” representa mais uma homenagem oblíqua à famosa peça de Tennesse Williams, só que, desta vez, a figura central parece ser um híbrido entre Blanche e a sua irmã Stella. Pela sua parte, o cineasta parece mais interessado em referenciar outro grande dramaturgo americana, Eugene O’Neil, do que em revisitar as personagens de “Um Elétrico Chamado Desejo”, mas é praticamente impossível não ver os paralelos, que não se estendem somente ao facto de a narrativa de “Roda Gigante” se passar nos anos 50.

Tal como Stella, Ginny é casada com um brutamontes abusivo que tem problemas com o álcool e gosta de andar pela casa de camisa interior. Para além disso, Ginny partilha com Stella uma palpável sexualidade, terrena e sedutora, que lhe enche o corpo de desejo e a faz parecer, em certas ocasiões, uma espécie de Marilyn Monroe perdida em Coney Island. No entanto, é com Blanche que Ginny partilha as suas ambições de grandeza, seus devaneios meio enlouquecidos sobre o passado, um historial trágico de maridos levados ao desespero e um gosto preocupante por viver num mundo de sonhos irreais. É claro que nem Blanche nem Stella se tinham de preocupar com um filho pirómano e uma enteada perseguida pelo ex-marido mafioso a viver em segredo numa casa construída no meio das estruturas temporárias de uma feira popular.

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A presença da máfia e seus efeitos a la deus ex machina nas narrativas de Woody Allen já são algo cliché, mas nada se compara, em temos de irritante repetição de ideias, ao outro grande elemento dramático na história de Ginny. Referimo-nos, pois claro, ao seu amante mais jovem que ela, um salva-vidas com aspirações de dramaturgo que se chama Mickey e é aqui interpretado por Justin Timberlake. Como seria de esperar, este é o avatar do próprio cineasta dentro da narrativa, sendo que Mickey chega mesmo a narrar a história do filme e a falar diretamente para a câmara em várias ocasiões, reforçando a sua condição omnipresente e omnisciente sobre todo o drama que a audiência testemunha. Não só ele é um cliché enorme na oeuvre de Allen, a prestação de Timberlake é um desastre de afetações claramente modernas que nunca conseguem transmitir a ideia de um homem irresistível com ares de estrela de matinés. É sempre claro, desde início, que ele é um cretino que vê as mulheres à sua volta como meras personagens que se podem bem incluir ou não na narrativa que ele mesmo imaginou para a sua vida. Quando lhe aparece uma jovem charmosa perseguida por gangsters, ele está logo pronto a escolher uma nova atriz para o papel de seu interesse romântico.

O maior crime de Mickey no contexto geral de “Roda Gigante” nem é a má prestação de Timberlake ou o lugar comum que ele representa num filme assinado por Woody Allen, mas sim quão ele rouba tempo a uma outra história genuinamente interessante. A comédia pós-moderna e cheia de referências literárias do salva-vidas pretensioso parece uma irritante distração do melodrama matrimonial entre Ginny e seu marido Humpty. Quando, perto do final, o esposo atraiçoado finalmente põe as mãos em álcool, o medo visível no olhar e a reticente linguagem corporal de Ginny são aterradores, tal como as inúmeras micro agressões que Humpty desfere sobre a sua mulher são tão mais dolorosas pelo naturalismo com que ocorrem. Aqui temos um homem que, mesmo quando não está a tentar fazê-lo, rebaixa a sua companheira e a faz sentir-se insignificante.

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Mesmo que Jim Belushi não acrescente muito ao papel, Humpty é uma personagem surpreendentemente bem escrita, e Juno Temple, como a enteada de Ginny, é uma presença luminosa que consegue apaixonar o espetador, sem o fazer esquecer sua ligação à real protagonista de “Roda Gigante”. Nenhum ator, como é evidente, supera a maravilha de Winslet, que, na verdade não é a estrela do filme. Na sua segunda colaboração com Woody Allen, o diretor de fotografia Vittorio Storaro afirma-se como a mais preciosa voz criativa do filme, pintando a Coney Island dos anos 50 com uma coleção de cores apaixonadamente saturadas. Tons quentes pintam os atores na presença de emoções fortes, mas a dor de um coração partido tende a manifestar-se em tons de azul ou na passagem de uma nuvem em frente ao sol. Trabalhando em perfeita harmonia com atores, cenários, figurinos e estrutura dramática, Storaro chega mesmo a saber quando apagar as cores vivas do filme, anunciando a depressão de Ginny, quando, ela já não é capaz de sentir nem o fulgor da ambição sonhadora nem o perigo destruidor da tristeza.

 

Roda Gigante, em análise
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Movie title: Wonder Wheel

Date published: 2017-11-26

Director(s): Woody Allen

Actor(s): Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple, Jack Gore, David Krumholtz, Jenna Stern

Genre: Drama, 2017, 101 min

  • Claudio Alves - 64
  • Daniel Rodrigues - 45
55

CONCLUSÃO

Por muito polémico que seja enquanto ser humano, Woody Allen continua a ser um dos cineastas americanos mais respeitados da atualidade, um título que se torna cada vez mais dúbio com cada novo filme que ele estreia. Tal como muitos dos seus esforços recentes, “Roda Gigante” é um filme com grandes prestações e uma belíssima concretização visual, mas cujo argumento e realização deixam muito a desejar.

O MELHOR: Winslet iluminada por Storaro, que faz a atriz parecer uma protagonista de Fassbinder.

O PIOR: Quão perfuntório muito do argumento acaba por ser, a desastrosa prestação de Timberlake e quase todas as pueris tentativas de humor.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho, assim como um cinéfilo devoto.

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