Micróbio e Gasolina, em análise

Em Micróbio e Gasolina, Michel Gondry propõe retratar a amizade entre dois rapazes adolescentes e suas perspetivas sobre o mundo numa fase turbulenta das suas vidas.

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É curioso pensar que, apesar de ter realizado uma obra unanimemente reconhecida como um dos maiores triunfos cinematográficos do século XXI com O Despertar da Mente, Michel Gondry é um dos cineastas franceses menos celebrados da contemporaneidade. Ele tem os seus fãs, disso não há dúvida, e o seu nome está normalmente presente nas listas dos maiores realizadores de videoclips de sempre, mas o seu estatuto enquanto autor de longas-metragens é incomensuravelmente inferior ao de outros seus compatriotas como Assayas, Denis, Hansen-Løve, Audiard, Bonello, Sciamma, Téchiné e, é claro, os velhos mestres que ainda se mantêm ativos como é o caso de Godard e Garrel.

Parte da sua relativa inconsequência enquanto autor, mesmo dentro do circuito dos festivais, devém do esmagador sucesso da sua já mencionada magnum opus que, entre muitas outras honras lhe valeu um Óscar. Face a isso, as suas narrativas ora parecem pálidas cópias da ingenuidade criativa de O Despertar da Mente, como é o caso de A Ciência dos Sonhos e A Espuma dos Dias, ou devaneios inconsequentes e desinspirados com apenas alguns fãs devotos a defender o seu valor, como Por Favor Rebobine. No meio de tudo isto, os seus documentários, por muito obscuros que sejam, têm sido a principal fonte de respeito internacional para o cineasta, assim como o modesto A Malta e Eu, onde Gondry largou algumas das suas mais estilizadas afetações em prol de um estudo realista de vários adolescentes na França dos nossos dias.

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Esse filme de 2012 é, aliás, o lógico precedente para o mais recente trabalho de Gondry a estrear nos cinemas portugueses, Micróbio e Gasolina. Tal como A Malta e Eu, temos aqui um estudo filmado dentro dos padrões de uma estética realista sobre personagens a viver os turbulentos anos da adolescência, quando uma pessoa é forçada pelo tempo a renunciar a inocência da infância em prol das responsabilidades da vida adulta. Atente-se que a maioria dos protagonistas adultos de Gondry raramente demonstram ter realizado essa transição por completo, algo evidente nas fantasias coloridas que tanto tendem a caracterizar os seus filmes.

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Micróbio e Gasolina não está desprovido de tais epítetos de imagética sonhadora à la Gondy, mas a sua base narrativa não está cimentada nesse tipo de deslumbramento. Pelo contrário, se há algo que se torna evidente logo nos primeiros minutos do filme é que Gondry está a explorar os seus protagonistas através de um exercício de observação relativamente objetiva. Aqui, os detalhes inócuos da rotina diária do jovem Daniel, chamado Micróbio pelos seus colegas em consequência da sua baixa estatura, desdobram-se diante dos nossos olhos. Nada disso se conflagra numa expressão da sua interioridade criativa ou emocional, acabando por ser uma simples documentação da existência material de um jovem pouco popular, infeliz e com as hormonas aos saltos.

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Cabe assim ao elenco principal telegrafar os conflitos interiores que propulsionam o desenrolar do simples enredo. Como Daniel, Ange Dargent é bastante eficaz num registo direcionado para a caracterização indireta através de reações silenciosas e inações ditadas pelo guião. Théophile Baquet, por outro lado, entra de rompante na narrativa com a intensidade obstinada de uma antiga estrela da Nouvelle Vague. Nas suas mãos, Théo, também chamado Gasolina devido ao odor característico que acompanha a sua presença, é um orgânico catalisador para os impulsos mais rebeldes e sonhadores de Daniel, seu único amigo na nova escola para onde vai estudar no início do filme.

Apesar desta dinâmica de reação pensadora e bombástica ação, Daniel e Théo estão longe de se apresentar como uma dupla improvável típica das desinspiradas comédias francesas que todos os anos enchem os cinemas. A sua amizade, pelo contrário, nunca nos parece um ditame mecânico da estrutura da história, mas sim uma clara ligação despertada pelo isolamento sentido pelos dois jovens que, mesmo no ambiente familiar, vivem alienados daqueles que os rodeiam. Aí está o grande triunfo de Gondry enquanto diretor de atores em Micróbio e Gasolina que, a certa altura, se torna num road movie com Daniel e Théo a viajar por França numa viatura construída por eles mesmos e que, para todos os efeitos, tem a aparência de uma adorável casa em miniatura sobre rodas.

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Quando os dois amigos se fazem à estrada e dão início à ação principal de Micróbio e Gasolina é quando a coerência tonal do projeto começa a deslizar por entre os dedos de Gondry. Apesar de, à superfície, o filme continuar num registo realista cheio de diálogos mais ou menos didáticos sobre temas como a amizade ou responsabilidade social, a sua estrutura observacional implode sobre si mesma, dando lugar a uma coleção de absurdos episódios. Desde o encontro com um suspeito dentista que disponibiliza abrigo durante a noite e cuidados médicos de borla, a uma visita a um cabeleireiro coreano onde as empregadas oferecem massagens com “finais felizes”, Micróbio e Gasolina rapidamente deixa de ser um simples retrato dos laços de amizade a unir dois rapazes.

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Se formos honestos, é precisamente com a inclusão destes elementos mais mirabolantes e típicos do seu cinema sonhador, que Gondry acaba por fragilizar a sua obra. Porventura numa tentativa de ilustrar a clara imaturidade dos seus protagonistas e sua inocência criativa (Daniel pinta e Théo é o principal criador da viatura “disfarçada” de casinha rústica), Gondry acabou por trair as suas personagens, ofuscando a sua caracterização humana com desnecessários e ineficazes acrescentos que, caso o resto do filme os sustentasse, poderiam efetivamente ter resultado numa circense odisseia de coloridos absurdos.

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Com isso dito, falhas tonais, por muito graves que sejam, não apagam as virtudes já mencionadas do filme. Michel Gondry pode não ter a capacidade de mergulhar numa psique juvenil com a autenticidade íntima e poderosa de Céline Sciamma ou André Téchiné, mas Micróbio e Gasolina representa, mesmo assim, uma comovente representação de amizade adolescente e inseguranças típicas dessa idade. Até nos episódios mais mirabolantes há uma contracorrente de melancolia e reflexão pessoal capazes de despertar empatia emocional e pensamento crítico em igual medida, o que tem inequívoco valor.

Micróbio e Gasolina, em análise
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Movie title: Microbe et Gasoil

Date published: 2017-06-19

Director(s): Michel Gondry

Actor(s): Ange Dargent, Théophile Baquet, Diane Besnier, Audrey Tautou, Vincent Lamoureux

Genre: Aventura, Comédia, Drama, 2015, 105 min

  • Claudio Alves - 68
68

CONCLUSÃO

Micróbio e Gasolina é uma comovente história de amizade adolescente, sonhos infantis e crescimento doloroso que tem inequívoco charme e valor, apesar de uma série de fragilidades nascidas da incoerência tonal e estilística com que o realizador abordou o projeto.

O MELHOR: A dimensão multifacetada das personagens juvenis e suas dinâmicas interpessoais. A relação entre Daniel e o seu irmão mais velho é de especial interesse devido às suas contradições e idiossincrasias.

O PIOR: A qualidade esboçada das personagens adultas é certamente uma escolha deliberada de Gondry, mas em certos casos a sua indefinição ou natureza caricaturesca é bastante distrativa. Audrey Tautou, em particular, parece ter deambulado de um filme diferente cada vez que aparece em cena como a mãe de Daniel.

CA

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