Mundo Jurássico: Reino Caído, em análise

Mundo Jurássico: Reino Caído atreve-se a pisar território hitchcokiano, evocando, assim, laivos daquele realismo assustador e suspense petrificante do primeiro parque temático.  

Mundo Jurásicco: Reino Caido
Jeff Goldblum em Jurassic World: Fallen Kingdom (2018)

Depois de um considerável interregno de três anos, a febre paleontológica está de volta para fazer o rescaldo da destruição de mais um parque temático, na mítica ilha Nublar, agora um local inóspito para qualquer ser vivo. E enquanto no congresso americano se discute se estas criaturas de Deus devam ser salvas da sua extinção eminente, uma missão clandestina de resgate é levada a cabo pelo braço direito de um dos antigos associados do falecido John Hammond: Elis Mills (Rafe Spall). Mas desde cedo desconfiamos logo das intenções nobres de um gestor de fortunas vestido à Wall Street e com sotaque britânico diferenciador, revelando prematuramente o primeiro indício da subordinação do enredo de Trevorrow ao repentismo da ação fabricada para a audiência familiar.

(…) Para tentar compensar as gritantes fraquezas de um guião mainstream, que mal consegue capitalizar nas somíticas ideias que ainda possui, somos brindados com um nível de realismo sem precedentes.

De resto, Trevorrow, que cede agora a cadeira de realizador a Bayona (O Orfanato), esforça-se em contextualizar abusivamente o seu argumento com os típicos chavões cinematográficos de Spielberg, agora imortalizados como quase monótonos e previsíveis clichés. Mas, ainda assim, a expertise de Bayona em tentar infundir de uma cena banalizada um arrepio na espinha ou um pêlo eriçado é digno de louvor pela irrepreensível execução técnica. Sim, porque aqueles metros aguçados de garra a gatinharem no cobertor papão de uma menina mal comportada, ou a deglutição de uma cabra inofensiva abandonada à sua sorte, já tiveram uma aceitação mais vibrante e airosa.

Mundo Jurássico: Reino Caído
Chris Pratt em Jurassic World: Fallen Kingdom (2018)

Contudo, para tentar compensar as gritantes fraquezas de um guião mainstream, que mal consegue capitalizar nas somíticas ideias que ainda possui, somos brindados com um nível de realismo sem precedentes. Enquanto que há vinte e cinco anos atrás o modelo de um T-Rex à escala real era operado por meio de sistemas hidráulicos, agora temos marionetistas de ioga que controlam joysticks através de servomotores. São os chamados efeitos especiais práticos, em que a animatrónica assume importância vital, sobretudo no que concerne à credibilidade do enlace interativo entre humano e dinossauro. Nessa conformidade, Treverrow alimenta-se dessa tecnologia para potenciar ainda mais a relação simbiótica de Owen (Chris Pratt) com a sua menina letal “Blue”, raramente contrariando o chauvinismo hiperativo e megalomaníaco de uma maratona de patas a fugir de um vulcão em erupção

(…) A expertise de Bayona em tentar infundir de uma cena banalizada um arrepio na espinha ou um pêlo eriçado é digno de louvor pela irrepreensível execução técnica.

Mas não nos interpretem mal, as vistas são magníficas, mas comem o tempo útil para uma ligação humanamente significativa, mesmo que Claire (Bryce Dallas Howard) seja agora uma acérrima ativista dos direitos dos animais e continue a fazer olhinhos de Bambi ao domador de velociraptors. O flirt de ambos cria a química oportunista para se sobreviver com o maior otimismo possível aos apetites carnívoros dos pretendentes ao topo da cadeia alimentar, mas quer-nos parecer, que também aqui, ambos foram buscar a mesma indumentária de safari e as mesmas dinâmicas emocionais da primeira dupla heterossexual do Parque Jurássico. Até uma versão mais hipocondríaca do geek informático Nedry é reavivada para umas supostas gargalhadas anticlímax, que acabam inevitavelmente por colar a fita de Bayona ao original.

Mundo Jurássico: Reino Caído
Isabella Sermon em Jurassic World: Fallen Kingdom (2018)

E este é o problema eterno de se tentar respeitar em demasia o espírito de uma obra com uma identidade já sedimentada, caminhando a linha ténue entre a falta de inspiração e a desvirtuação. Mas não obstante o reaparecimento de um spinoff das mesmas personagens tipificadas de 93, como o chefe de segurança Muldoon, que encontra em Ted Levine (Ken Weatley) mais um ganancioso mercenário que peace keeper, o Mundo Jurássico de Bayona sobrevive graças ao somatório de todas as suas partes compensatórias. Para uma trama tão vulgar como esta, os atores vestem o fato de macaco com a devida competência, mas estamos em crer que, o grosso do apelo de longas metragens deste género, depende mais da pintura e da intensidade das suas cores, do que do seu conteúdo propriamente dito. Na perspetiva de uma criança, ávida pelo guincho infame de uma Indominus Rex, quer-se um filme graúdo trocado por miúdos, mas o inverso já não será exequível ou sequer rentável.

(…) As vistas são magníficas, mas comem o tempo útil para uma ligação humanamente significativa, mesmo que Claire (Bryce Dallas Howard) seja agora uma acérrima ativista dos direitos dos animais e continue a fazer olhinhos de Bambi ao domador de velociraptors.

O Mundo Jurássico: Reino Caído poderia reinar com mais liderança e elevação, mas tropeça no compromisso das bilheteiras, servindo um público alvo mais preocupado com a ferocidade dos acontecimentos na grande tela. E isso deixa-nos em que pé? Bem, não podemos deixar de reconhecer que a injeção de adrenalina constante não possua os seus méritos, e pese embora os atalhos e omissões em favor do bombardeamento audiovisual, estamos perante mais uma era jurássica altamente visionável, mas que desilude em última análise.

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Mundo Jurássico: Reino Caído
Mundo Jurássico: Reino Caído

Movie title: Jurassic World: Fallen Kingdom

Movie description: Três anos depois do parque temático e resort de luxo Mundo Jurássico ter sido destruído por dinossauros fora de controlo, a Ilha Nublar é agora um lugar abandonado pelo Homem, enquanto os dinossauros lutam pela sobrevivência na selva. Quando o adormecido vulcão da ilha se torna ativo, Owen (Chris Pratt) e Claire (Bryce Dallas Howard) preparam uma missão para salvar os dinossauros da extinção. Owen tem como objetivo de encontrar Blue, a sua raptor líder que desapareceu sem deixar rasto, enquanto Claire, que ganhou respeito a estas criaturas, torna-as na sua missão de vida. Ao chegarem à instável ilha, mesmo quando a lava começa a aparecer, a expedição descobre uma conspiração que pode devolver todo o planeta a um estado nunca visto desde os tempos pré-históricos.

Date published: 2018-06-11

Director(s): J.A. Bayona

Actor(s): Bryce Dallas Howard, Chris Pratt, Ted Levine

Genre: Ação, Aventura, Sci-fi

  • Miguel Simão - 70
  • Inês Serra - 70
  • Luís Telles do Amaral - 50
  • Daniel Rodrigues - 40
  • Rui Ribeiro - 75
  • Filipa Machado - 70
62

CONCLUSÃO

Mundo Jurássico: Reino Caído cai nas suas próprias armadilhas nostálgicas, variando ligeiramente a receita do primeiro Parque Jurássico relativamente às suas personagens e dinâmicas das mesmas. Amplifica a ação e o pano de fundo, mas esquece-se de catapultar o lado humano, insistindo nas mesmas premissas demasiado comerciais. No entanto, Bayona oferece-nos uma dinolândia em ebulição, só resfriada pelo intervalo de cinco minutos a meio.

O MELHOR: Veracidade arrepiante dos modelos mecânicos dos dinossauros protagonistas; equilíbrio perfeito entre efeitos especiais digitais e práticos; ação frenética sem momentos mortos; Chris Pratt e Bryce Howard perfilam-se como uma dupla credível.

O PIOR: Guião básico e facilmente desmontável com poucos focos de interesse; sensação de dejá vu de algumas cenas recicladas; aproximação enfadonha ao original.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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