Niki Caro | De A Domadora de Baleias a Mulan

Niki Caro, a futura realizadora do remake “live-action” de Mulan, começou a sua carreira bem longe de Hollywood e das produções dos grandes estúdios como a Disney.

 

niki caro o jardim da esperança
Niki Caro e Jessica Chastain durante as filmagens de O JARDIM DA ESPERANÇA (2017)

 

Das várias mulheres realizadoras de que temos vindo a falar nesta nova rubrica, Niki Caro é, até agora, a que mais abertamente aponta o dedo ao sexismo institucional de Hollywood. Recentemente, esta realizadora neozelandesa aproveitou a atenção mediática possibilitada pela divulgação de que seria ela a realizar o remake de Mulan da Disney para dar uma série de entrevistas sobre o assunto. A sua mensagem não podia ser mais clara, ao contrário dos seus colegas masculinos, é quase impossível para mulheres realizadoras fazerem a transição de sucesso de festivais para grandes projetos financiados por estúdios de renome. Gareth Edwards, Marc Webb, Rupert Wyatt e Colin Trevorrow, por exemplo, não tiveram nenhum problema em passar de filmes independentes aclamados pela crítica a superproduções de Hollywood, mas no que toca a realizadoras apenas nos últimos meses e depois de muita luta é que se tem vindo a verificar alguma abertura da parte da indústria cinematográfica americana. Niki Caro faz assim parte do grupo de mulheres, juntamente com Patty Jenkins, Ava DuVernay e Anna Boden, que está a quebrar barreiras cuja mera existência em pleno século XXI é um imperdoável absurdo.

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Apesar de tudo isto, no início do seu percurso artístico, Caro estava bem longe de Hollywood e do cinema em geral. Aliás, ela estudou escultura na Universidade de Auckland e foi esse o seu meio de expressão artística durante vários anos, antes do amor pelo cinema lhe mudar os planos de vida. Essa paixão, levou a que Niki Caro enveredasse por mais um percurso académico e, depois de completar os seus novos estudos, ela começou uma frutífera carreira no mundo da publicidade. Chegado 1992, Caro realizou o seu primeiro projeto televisivo e alguns anos depois, usou o seu vasto currículo de anúncios e vídeos publicitários para garantir apoio estatal à sua primeira longa-metragem.

 

NIKI CARO
MEMORY & DESIRE (1998)

 

Memory & Desire fez parte de uma iniciativa do Governo da Nova Zelândia que tinha o intuito de estimular o turismo através de uma série de eventos e produções culturais a valorizar a nação, suas paisagens naturais e suas tradições ancestrais. Apesar de ter recebido pouca atenção positiva a nível internacional, o filme teve um moderado impacto nacional, recebendo vários prémios e dando renome a Niki Caro. De facto, esta tragédia matrimonial de um casal japonês em lua-de-mel não tem falta de problemas, especialmente no que diz respeito às secções exclusivamente nipónicas da sua narrativa, mas também tem as suas mais-valias. O uso lírico das paisagens naturais e a definição, quase visceral, da materialidade do espaço geográfico merecem ser celebrados. Na futura filmografia de Niki Caro, estes aspetos viriam mesmo a evidenciar-se como as suas principais marcas estilísticas e toques autorais.

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A DOMADORA DE BALEIAS NIKI CARO
A DOMADORA DE BALEIAS (2002)

 

Em 2002, quatro anos após a sua primeira aventura no mundo das longas-metragens cinematográficas, Caro estreou o seu segundo filme no festival internacional de Toronto e, desta vez, ninguém ficou indiferente. A Domadora de Baleias retrata a vida de uma jovem Maori que acredita estar destinada a ser a chefe da sua tribo, mesmo que a tradição patriarcal do seu povo não permita mulheres em posições de liderança. Mais do que uma história de sexismo ancestral, Caro viu o filme como uma oportunidade de mostrar ao mundo a cultura tribal especificamente neozelandesa e explorar temas e conceitos de liderança referentes a esses mesmos sistemas e modos de vida.

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Depois de Toronto, o filme chegou ao festival de Sundance, onde, se possível, a reação crítica e popular foi ainda mais explosivamente positiva e, de repente, este pequeno filme independente protagonizado por um elenco de atores profissionais e amadores Maori afirmou-se como um dos pesos pesados da temporada dos festivais de Cinema e, mais tarde, da Awards Season. O impacto que o filme teve foi tal, que veio a tornar-se numa das produções nacionais mais lucrativas da história do cinema neozelandês e Keisha Castle-Hughes de 13 anos, tornou-se na atriz mais jovem de sempre a ser indicada para o Óscar de Melhor Atriz (atualmente, Quvenzhané Wallis detém este recorde).

 

NIKI CARO CHARLIZE THERON
Niki Caro e Charlize Theron durante as filmagens de NORTH COUNTRY – TERRA FRIA (2005)

 

Inebriada pelo sucesso da sua segunda longa-metragem, Niki Caro não demorou muito a completar o seu terceiro filme, desta vez uma produção independente norte-americana. Tal como os seus projetos anteriores, North Country – Terra Fria prima mais pelo modo como a sua realizadora estabelece a sociedade local e o ambiente geográfico do que pela sua elegância a contar dramas humanos. Mesmo assim, os temas políticos do filme, o prestígio da sua história verídica sobre um controverso caso de assédio sexual numa empresa mineira, e uma coleção de exímias prestações valeram ao filme um moderado sucesso assim como duas indicações para os Óscares: Melhor Atriz (Charlize Theron) e Melhor Atriz Secundária (Frances McDormand).

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NIKI CARO
THE VINTNER’S LUCK (2009)

 

Com o seu quarto projeto, a sorte de Niki Caro pareceu esgotar-se. Estreado em 2009, The Vintner’s Luck é uma adaptação cinematográfica de um daqueles livros que se dizem inadaptáveis devido aos seus temas metafísicos e estruturas literárias. Se na obra original de Elizabeth Knox, esta é a história da relação homoerótica, romântica e co-dependente entre um anjo caído e um vinicultor setecentista que aborda temas como o papel da Fé no quotidiano e a relação entre o conhecimento científico e fundamentalismo religioso, a adaptação de Niki Caro é uma narrativa venenosamente convencional que amputa todos elementos mais transgressivos e ideologicamente complicados do livro. O resultado final é um filme visualmente sofisticado (Caro torna a vindima numa autêntica pintura viva, por exemplo) mas dramaticamente risível e ideologicamente anémico. The Vintner’s Luck foi um fracasso crítico e de bilheteiras o que fez com que a sua realizadora perdesse muito do respeito e influência que tinha custosamente ganho até aí. Felizmente, houve quem ainda valorizasse os seus trabalhos anteriores e, em 2013, foi anunciado que Caro iria realizar O Jardim da Esperança.

 

McFARLAND U.S.A. (2015)

 

Antes ainda do início da produção desse filme histórico sobre o heroísmo de um zoólogo e a sua mulher na Varsóvia ocupada por nazis, Niki Caro filmou um filme para a Disney. McFarland U.S.A. faz parte do subgénero de narrativas condescendentes sobre professores brancos que vão para comunidades pobres e não-caucasianas e inspiram os seus alunos ao mesmo tempo que são eles mesmos mudados pela experiência. Em suma, o guião, baseado em factos verídicos, não podia ser mais cliché, mas Niki Caro, com a ajuda do diretor de fotografia Adam Arkapaw, faz milagres na cadeira de realizadora, usando uma elegância formalista surpreendente para tornar o filme numa experiência bela e sofisticada que nunca caricatura indevidamente a comunidade latina em que o filme se passa, nem mesmo quando o seu protagonista interpretado por Kevin Costner olha para os seus vizinhos com desagrado. Os talentos de Caro nesse projeto cativaram os estúdios Disney que, como já dissemos, a contrataram para realizar o remake de Mulan. Caro planeia contratar atores chineses e excisar as canções do filme de animação, pondo o seu cunho pessoal no projeto que, esperemos, se vá provar um sucesso. Por agora, O Jardim da Esperança está a chegar a cinemas do mundo inteiro, incluindo Portugal. Não percas!

 

NIKI CARO O JARDIM DA ESPERANÇA
O JARDIM DA ESPERANÇA (2017)

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho, assim como um cinéfilo devoto.

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