Nómada, em análise

 

Nómada (3)
  • Título Original: The Host
  • Realizador:  Andrew Niccol
  • Elenco: Saoirse Ronan, Max Irons, Jake Abel, Diane Kruger
  • ZON | 2013 | Aventura/Romance | 125 min

Classificação:

CO
DR
RM
RR
SL
TM
VS

 

Ficamos deveras surpreendidos por não contemplar um copy-paste da saga vampiresca que vem animado as hostes juvenis nos últimos anos. Andrew Niccol consegue impor um visual ousado (embora por vezes espalhafatoso), imprimir alguns níveis de sensibilidade moral e sobretudo expor um novo universo sci-fi (à semelhança do que havia feito, e bem, em “Sem Tempo”) com alguns pormenores interessantes, quer a nível visual, quer a nível argumentativo.

É certo que “Nómada” se tenta afastar da apatia visual, argumentativa e interpretativa dessa tal saga Crepúsculo. Saga essa que marcou categoricamente o cinema teen dos dias de hoje, através da transmissão veloz da sua inocuidade. E talvez por isso, até podemos dizer que “Nómada” começa bastante bem na explicação ao espectador do seu mundo novo que estamos prestes a descobrir.

Mas nem tudo são rosas. A marca distinta de Stephenie Meyer acaba por se revelar em ritmo exponencial, com desenvolver da ação, de forma que mais no final, as diferenças para com o seu “franchise-mestre” se resumem à metamorfose de um vampiro por um… alien.

Nómada (2)

Olhando para “Nómada” de um ponto de vista mais analítico, somos capazes de distinguir duas partes lógicas completamente distintas, e cada uma sob a influência de um criador-mor.

Na primeira parte, Andrew Niccol preocupa-se em explicitar a trama. Com alguma pujança visual e recreativa, vai entretendo o espectador com a sua capacidade de contar a história a um ritmo que se assemelha mais a um sci-fi, do que propriamente ao melodrama que estaríamos à espera.

Melanie é uma das poucas sobreviventes da raça humana que habitam o nosso planeta, mas é capturada por Batedores/Seekers, seres vivos comandados interiormente por uma raça alienígena que tomam os corpos humanos como hospedeiros para a sobrevivência. Melanie é “contaminada” com um alien que tem como objetivo se apoderar dos seus sentidos e memória, de modo a obter a localização de alguns humanos sobreviventes. Mas Melanie está longe de ser uma hospedeira bem comportada, tentando a todo o custo o domínio completo do seu corpo, que agora é propriedade de um minúsculo e poderososo ser.

SUNDAY CALENDAR SNEAKS  FOR JANUARY 13, 2013. DO NOT USE PRIOR TO PUBLICATION.*************** Max Irons and Saoirse Ronan in the movie THE HOST from Open Road Films.

Até sensivelmente a meio da sua duração, o filme de Andrew Niccol consegue entreter, embora muito timidamente. Consegue apoiar-se numa fotografia marcada por contrastes de tons quentes e algumas nuances mais frias, que nos demonstram com clarividência a distinção racial existente na obra, a que se juntam uma boa banda sonora e efeitos especiais competentes. Apesar de alguns pontos menos felizes no domínio dos diálogos, Andrew Niccol cumpre o básico admissível.

Tudo se transmuta quando o apelo melodramático de Stephenie Meyer entra em ação. O ser que habita o corpo de Melanie, apercebendo-se que esta adolescente deixara para trás o seu irmão e o amor da sua vida, decide inconscientemente ajudá-la na busca pelos seus entes queridos, abandonando rapidamente as tarefas que os seres da sua “família” lhe impuseram. E aqui é como se no mesmo corpo habitassem dois seres de universos distintos, mas com valores morais em comum. No reencontro com os humanos sobreviventes, Melanie e Nómada (assim foi batizado esse ser alienígena), entram em contacto com o antigo amor de Melanie, Jared, e com um novo rapaz, Ian, que se aproxima de Nómada. O filme escreve o seu próprio fim criativo quando, cena após cena, se limita a deambular entre beijos humanos e beijos intergalácticos.

É como se uma superficialidade desmedida se apoderasse de uma obra aceitável em termos de entretenimento. Há um sugar atroz de condições melodramáticas que se confundem muitas vezes com lamechices ridículas (que, curiosamente, provocam mais risos do que comoção).

Nómada

Talvez aqui a obra cinematográfica não tenha tido tempo de acompanhar o desenvolvimento crescente da história. Os enredos amorosos acontecem em curto espaço de tempo, o que não permite um aumento do grau de credibilidade e um desenvolvimento mais contido e gradual desses relacionamentos. Forma-se rapidamente um quadrado amoroso pouco sustentado e que não consegue estabelecer qualquer afinidade emocional com a plateia.

Há também sempre uma enorme dificuldade em perceber os receios da raça humana. Nunca se nota a presença de um grande vilão capaz abalar os últimos sobreviventes na Terra. Neste âmbito, a presença mais notada (e uma das melhores) é de Diane Kruger como The Seeker, mas a sua personagem é dotada de uma vilania inexplicável, onde é quase impossível descortinar as suas motivações para agir daquele modo. No fundo, é possível extrair algumas noções de resistência e retaliação, mas não há um grande oponente a essa revolta.

Podemos vislumbrar algumas lições morais, sempre mais relacionadas com o amor, com as nossas escolhas e capacidade de lutar por elas, mas são descortinos fugazes que esbarram sempre em incoerências e futilidades dilatadas por ritmo progressivamente mais lento, mais arrastado e mais sofrível. Desejaríamos assistir a um aprofundar das problemáticas inerentes à manipulação do Homem por seres externos, mas essas são vontades impossíveis, dado que se trata de Stephenie Meyer.

_GPA0456.NEF

Só uma incessante vontade em receber um recheado cachet, poderá ter levado Saoirse Ronan a envolver-se neste projeto. É uma das melhores figuras desta produção (ao lado de William Hurt), embora quase sempre em piloto automático, apoiando-se em alguns rascunhos expressivos de “The Lovely Bones”.

Essa presença constante de Saoirse Ronan não dá espaço para que sejam desenvolvidos outros personagens que talvez merecessem mais profundidade. Por outro lado, também permite que alguns protagonistas não apareçam tantas vezes, onde Max Irons se destaca particularmente pela sua exímia competência para o desastre.

Tal como dissemos no início, chega a um ponto onde é impossível não estabelecer comparações óbvias. Porque não importa se o protagonista é um alien ou um vampiro. Importa apenas que, apesar da tentativa de construir algo diferente, tudo se resume a uma história amorosa banal, sem valores, sem ensinamentos, sem ideias.

É triste ver que há cinema que se restringe à capacidade de um adolescente possuir um ‘crush’ por outro. É ainda mais triste ver esse nível de inocência criativa mergulhado no vazio. É como aquelas laranjas que parecem perfeitas para fazer um bom sumo. Quando se começa a espremer, não sai nada.

DR



Sobre Daniel Rodrigues