Percy Jackson e o Mar dos Monstros, em análise

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  • Título Original: Percy Jackson: Sea of Monsters
  • Realizador:  Thor Freudenthal
  • Elenco: Logan Lerman, Alexandra Daddario, Brandon T. Jackson, Douglas Smith, Jake Abel, Stanley Tucci
  • BIG Picture Films | 2013 | Ação/Aventura| 106 min

Classificação:

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Em 2010 iniciou-se uma das muitas demandas em Hollywood que tinham o objetivo comum de encontrar o tão esperado herói que preenchesse o legado que “Harry Potter” viria a deixar um ano depois. “Percy Jackson” foi só mais um improvável herói que nasceu nos livros e saltou para a tela e que estaria predestinado – pelo menos aos olhos da FOX – a ser a alternativa lógica e imediata à saga “Twilight”, que se encontrava em crescimento exponencial. Desta vez tínhamos pela frente um aparente humano que viria a descobrir que era descendente de Poseidon e, portanto, um semi-deus destinado a salvar o Olimpo.

Hollywood apostou nele, a crítica não lhe deu demasiada importância e o filme passou ao lado de quase todo o público.

No entanto, a fidelidade demonstrada pelos fãs infanto-juvenis permitiu que a FOX lhe desse uma segunda oportunidade para demonstrar que o primeiro filme – que, diga-se, trazia uma dose qb de entretenimento – tinha sido um erro. Depois de visionarmos este “Mar dos Monstros”, parece-nos que a decisão mais sensata do estúdio passará por impedir um terceiro filme.

A dinâmica que se via no primeiro filme entre Deuses e semi-deuses e por sua vez entre semi-deuses e humanos, permitia que o filme respirasse alguma (pouca) frescura criativa dando aso à existência de mais momentos cómicos e, acima de tudo, a cenas que exaltassem um verdadeiro herói. Em “Mar dos Monstros”, nada disso acontece. O filme confina-se aos personagens dos semi-deuses, não há um evidente destaque para a personagem de Logan Lerman, nem há alguma réstia do dinamismo entre os – insonsos e superficiais – personagens demonstrado em “Os Ladrões do Olimpo”.

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O filme parece reproduzir um tutorial que parece perfeitamente desenhado para ser executado em todos os filmes do género e perde-se na monotonia do seu ritmo apressado. Sente-se a vontade de contar tudo na mais diminuta unidade de tempo possível e essa pressa desmesurada deixa demasiados pontos do enredo por explicar – alguns dão mesmo origem a grandes plotholes.

E por consequência do pouco espaço para respirar e refletir sobre os acontecimentos do enredo, a conveniência apodera-se da história. Os sucessivos acontecimentos ficam sempre interligados por situações caricatas e sempre excessivamente vantajosas para a finalidade dos protagonistas e sem que as mesmas sejam explicadas com a mínima credibilidade. Assim, esvai-se a necessidade de explicar à audiência como é que determinada coisa apareceu em determinado local e – veja-se só – até serviu para salvar a humanidade. No fundo, o guião subestima a inteligência até do seu público-alvo numa aventura que, por muito que entendamos que se passa num universo fantasioso e destinado a adolescentes, se torna muito pouco crível.

Mas se a falta de credibilidade fosse compensada com outros atributos, não nos importaríamos de desligar o cérebro por uns momentos a apreciar um enredo mirabolante mas divertido. Mas isso não acontece.

As personagens não têm um mínimo de desenvolvimento e são sucumbidas para gritos histriónicos ou recitações de diálogos quase sempre ditos com convicção nula. Não são personagens com reais motivações ou com complexidade psicológica suficiente para temermos pelas suas vidas. Que o digam Alexandra Daddario e Leven Rambin que sofrem de um mal de muitos atores e atrizes do elenco: falta de talento.

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Já a Logan Lerman, falta-lhe sobretudo convicção no papel que está a desempenhar. Depois da sua bela prestação em “As Vantagens de Ser Invisível”, não era de esperar uma personagem tão insípida e com tanta falta de carisma. Esperemos que este passo atrás na carreira sirva para dar dois em frente (vem aí Noah, de Darren Aronofsky).

No fim, o que sobra é um disfarçado plágio a Harry Potter (apesar de Star Wars também ser subtilmente citado na conceção de algumas criaturas). Há o personagem central, um aparente comum humano que é levado para um mundo alternativo, a amiga sábia do protagonista (Annabeth a fazer de Hermione), o amigo mais avesso e divertido (Grover muito próximo de Ron), um terceiro amigo que foge aos padrões de normalidade e que acaba por salvar o dia (Tyson é semelhante a Neville), entre muitos outros pormenores onde ainda salta à vista um carro conduzido por seres estranhos (a lembrar o The Knight Bus de “O Prisioneiro de Azkaban”).

Embora aplique o modus operandi de “Harry Potter”, “Percy Jackson” nunca consegue minimamente alcançar esse patamar. Não há emoção, não há perigo, não há um vilão forte com objetivos definidos, não há monstros – como o título prometia – e a verdadeira criatura temível é aniquilada num curto espaço de tempo.

Embora o final sugira a existência de uma sequela, essa deverá ser extremamente difícil de se concretizar. Os resultados de bilheteira representam a total falta de carisma do protagonista e devem impedir um terceiro filme. Isso acontece talvez porque Percy Jackson não possui o negro passado nem sofre de um futuro incerto como Harry Potter. Porque não é um claro underdog como era Frodo, não demonstra ter a bravura de Luke Skywalker nem tão pouco o sentido de sobrevivência de Katniss Everdeen. É só mais um pseudo-herói no meio de muitos.

DR



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