10ª Festa do Cinema Italiano | La ragazza del mondo, em análise

A jovem atriz Sara Serraiocco e o realizador Marco Danieli comprovam que são dos artistas mais promissores do atual cinema italiano com La ragazza del mondo. O filme está em competição na presente Festa do Cinema Italiano.

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Em La ragazza del mondo, testemunhamos a história de Giulia, uma jovem rapariga pertencente a uma comunidade italiana de Testemunhas de Jeová bastante fundamentalistas. No início do filme, observamos os ritmos usuais do seu quotidiano, o trabalho que ela faz para a sua fé, a forte religiosidade da sua família e até o modo como as suas ambições académicas são subjugadas às crenças que lhe guiam a vida e a impedem de seguir os estudos superiores. Um dia, numa sessão de estudos bíblicos na casa de uma senhora de meia-idade, ela conhece o agressivo Libero que saiu recentemente da prisão e se mostra hostil para com a jovem e sua disseminação de ideias religiosas. Cativada pelo homem, ela convence o pai a arranjar-lhe um emprego na carpintaria industrial onde Giulia também está a trabalhar como aprendiz. Eventualmente, ela começa secretamente uma relação amorosa com Libero e sofre terríveis consequências quando isso é descoberto, sendo interrogada e eventualmente desassociada da comunidade, onde todos ficam cegos e surdos para a sua existência.

Esta narrativa de libertação feminina da opressão através do romance é uma fórmula muito recorrente no cinema atual. Isso torna-se especialmente verdade, quando consideramos o modo como o filme sublinha a natureza patriarcal da religião de Giulia e seu controlo ditatorial sobre a vida da rapariga. Juntamos a isto a adolescência e vibrante juventude das personagens principais e temos aqui os ingredientes perfeitos para um filme efusivo, cheio de emoções fortes e sinceras platitudes sobre liberdade e o poder do amor. Ou, pelo menos, isso seria o usual. La ragazza del mondo, felizmente, é um filme com mais maturidade do que a idade da sua heroína possa sugerir.

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Por exemplo, uma crítica tipicamente feita a este tipo de histórias em que um romance proibido é o fio condutor para a libertação feminina de um regime opressor é que, as protagonistas de tais tramas parecem estar sempre a trocar um patriarca por outro. De um pai e anciãos elas passam a ter um amante ou marido como centro da sua existência e derradeiro orientador das suas escolhas. La ragazza del mondo levemente levanta a possibilidade dessa mesma situação, sublinhando a frustração de Giulia e o seu desejo por liberdade. Um desejo que parece estar suprimido no início do filme, até que a arrebata e não deixa de se manifestar mesmo quando ela está a viver com Libero.

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Para ela e para o seu filme, liberdade é o controlo de uma pessoa sobre as suas próprias ações. Para Giulia, ser livre será viver de uma forma em que ela própria possa ter autonomia do seu corpo, da sua profissão, da sua vida e não num sistema em que tais privilégios lhe são insistentemente negados, mesmo que de modo inconsciente. É por essa mesma razão que, apesar da odisseia de desgraças que se abatem sobre a protagonista, é o interrogatório dos anciãos a respeito da sua conduta sexual que mais transtorna o espetador se mantém inesquecível na memória. Não é a punição efetiva de Giulia, ou sua ameaça, que mais perturbam, mas sim o modo como três homens se sentem no direito de violar a integridade e privacidade da rapariga à sua frente e o fazer de um modo hipocritamente benevolente, como forças autoritárias que só querem o seu bem. Nesta cena, o astuto uso de claustrofóbicos grandes planos é soberbo e coloca a audiência numa posição de insuportável desconforto.

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Outras cenas que evidenciam as mais inteligentes escolhas formais do realizador Marco Danieli são os momentos mais sexuais da narrativa. Primeiro, por exemplo, o momento em que Libero pergunta a Giulia se ela fantasia com ele e lhe pergunta o que gostaria de fazer. Num panorama cinematográfico que raramente se preocupa com os desejos femininos, esta cena é especialmente valiosa, mesmo na sua apresentação sem cortes da montagem e uma composição que coloca os dois parceiros sexuais em lugar de igualdade. Quando, após a desassociação de Giulia, os dois se envolvem mais carnalmente, as escolhas do realizador são menos aventureiras, mas não por isso menosprezáveis. Os desejos que Giulia havia verbalizado de ver o corpo despido de Libero, de o tocar e admirar nunca são traduzidos pela câmara, mas, numa cena em que a protagonista confessa que ainda não está preparada para ter sexo penetrativo mas acaba por masturbar o namorado, Danieli faz a estranha escolha de encenar o momento a partir de um grande plano estático da rapariga.

O prazer de Libero é tornado somente no som diegético dos seus gemidos, ao mesmo tempo que o corpo desnudo de Giulia nos é ocultado. A sua face á nosso único elemento visual, convidando-nos a examinar a pormenor as suas expressões, suas mudanças e seu mistério, culminando num enigmático sorriso de Mona Lisa que acompanha o orgasmo do seu parceiro. Tais escolhas de apresentação cinematográfica, que se repetem noutros momentos semelhantes, tornam as cenas de sexo em estudos de personagem, onde as dinâmicas de poder entre os dois parceiros são examinadas a partir da observação singular de Giulia, o que ela está a sentir, o que ela está a esconder e o que está a revelar.

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Para tais mecanismos funcionarem é necessário que haja um grande trabalho de ator a justificar o obsessivo foco do realizador e, felizmente, isso manifesta-se aqui. Como Giulia, a atriz Sara Serraiocco é simplesmente sublime, tornando-a num livro aberto ao mesmo tempo que, paradoxalmente, nos nega a completa ilustração do seu pensamento interior. Juntamente com Michele Riondino como Libero, Serraiocco demonstra a rara capacidade de exprimir o ato de pensar com a sua expressão de um modo que nunca parece forçado ou inorgânico. Esta descrição pode, talvez, sugerir um par de interpretações secas e friamente cerebrais, mas ambos os atores trazem também uma potente intensidade emocional ao filme.

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Esta conflagração de sentimento e inteligência, tornam La ragazza del mondo num filme tão apaixonante e emotivo quanto maturo. No seu final esperançoso, a narrativa recusa-se a punir a sua protagonista com reacionários moralismos e resume-se a examinar a confusão de uma jovem a tentar encontrar o lugar no mundo. Ao mesmo tempo, deixa-nos com uma considerável questão de difícil resposta. Enquanto seres humanos, temos tendência a ansiar fazer parte de uma comunidade. Queremos sentir que pertencemos a algo maior que nós, que nos dá valor, propósito, sentido á vida e que nos aceita. Contudo, para termos isso, temos normalmente de sacrificar certas noções de liberdade pessoal. Por vezes, o preço é demasiado grande e ficamos subjugados a um sistema que nos rouba a nossa própria autonomia, que nos nega a nossa própria capacidade de escolher. Mas, como sabemos onde fica esse limite? E vale a pena revoltarmo-nos contra o status quo? Será a alternativa realmente preferível? Não há respostas fáceis para tais questões.

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O MELHOR: A personagem principal, tanto a nível do argumento, da sua apresentação em termos formais e da interpretação formidável de Sara Serraiocco.

O PIOR: Em termos narrativos, o tom miserabilista da maior parte do filme torna-se cansativo. A nível mais técnico temos a muito pouco convincente prestação da atriz que interpreta a irmã mais nova de Giulia.



Título Original:
La ragazza del mondo
Realizador:
Marco Danieli
Elenco:
Sara Serraiocco, Michele Riondino, Lucia Mascino, Pippo Delbono
Drama, Romance | 2016 | 101 min

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Ana Rodrigues
Ângela Costa
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Cláudio Alves
Daniel Rodrigues
José Vieira Mendes
Filipa Machado
Maria João Bilro
Marcos Mendes
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