Veneza 74 (8): ‘Ammore e Malavita’, uma ópera napolitana

‘Ammore e Malavita’, dos Irmãos Manetti tem muita graça, pois é uma ideia genial de cinema e diversão. Combinaram as lutas entre a temida Camorra, a mafia de Nápoles, com um musical, em que os assassinos cantam e dançam enquanto disparam. E depois é uma divertida comédia romântica com a bela Nápoles em fundo. Mais um dos melhores filmes desta competição.

Ammore e Malavita

Comédia irrealista com personagens da realidade.

 

Ammore e Malavita é uma comédia musical — um dos filmes da Itália nesta Veneza 74   — representada em dialecto napolitano dirigida pelos Irmãos Marco e Antonio Manetti que se tornou hoje e surpreendentemente mais um dos filmes potenciais candidatos a vencedor do Leão de Ouro. Se quisermos falar da diferença e isso é o que se espera dos filmes de uma competição de um festival, este Ammore e Malavita, tem pelo menos muito mérito quanto mais não seja pelos inúmeros aplausos e gargalhadas que recebeu na sessão da imprensa da manhã (começa às 8h30).

VÊ O TRAILER DE ‘AMMORE E MALAVITA’

Mais uma vez em Nápolesver Nápoles e morrer — as famílias criminosas lutam pelo controlo das actividades ilegais, até que um dos capos (Carlo Buccirosso) depois de ter sobrevivido a um atentado, decide fingir a sua morte, instigado pela sua cinéfila, astuta, ambiciosa e fogosa mulher,  uma verdadeira madonna napolitana (Claudia Gerini). Uma jovem enfermeira (Serena Rossi) vê o capo com vida e este ordena o seu assassinato para que o seu plano não seja posto em causa. A execução fica a cargo dos ‘seus braços direitos’, dois eficientes e motorizados sicários conhecidos no meio como Os Tigres. Quando um dos assassinos (Giampaolo Morelli) encontra a rapariga cara a cara, ambos se reconhecem e recordam a relação que interromperam na adolescência, desencadeado daí para a frente uma intrincada e imprevista acção, cheia de reviravoltas e um divertido conflito entre mundos opostos: amor, música e crime organizado.

Um funeral simulado desencadeia toda a divertida acção.

 

Trata-se de uma história de mafiosos muito particular, filmada ao estilo série B, já que tudo decorre entre, diálogos vivos, canções populares e divertidas coreografias: as personagens matam-se aos tiros, ajustam contas, perseguem os rivais e dirigem os seus ilícitos negócios e trapaças cantando e dançando como num clássico musical ou (numa ópera). Curiosamente atrevendo-se a fazê-lo em todos os estilos: rock, pop, hip hop, passando por temas cantador napolitano Nelson, até grandes clássicos da música romântica.

Ammore e Malavita

Vicenzo (Carlo Buccirosso) e Maria (Claudia Gerini), um casal mafioso.

 

A partitura musical é  extraordinária e inspirada e com referências por exemplo a Grease ou Flashdance, dois filmes de género, considerados como um exercício perfeito de equilíbrio entre a música, dança e as palavras. E depois um elenco de excelência com destaque para Luca Tomassini, Serena Rossi, Claudia Gerini, Giampaolo Morelli, Raiz e Carlo Buccirosso, que compôem uns ‘bonecos’ notáveis e uma interpretação que varia entre o humor e o propositado e exagerado overacting.

Ammore e Malavita

Giampaolo Morelli é um eficiente e romântico sicário.

 

A cidade de Nápoles é também uma das grandes figuras do filme, que compõem o quadro de hilariantes situações: desde as mais belas vistas do casario branco, as ruas estreitas — às vezes faz lembrar Lisboa — a baia e ao mar com o Vesúvio em fundo; até  alguns dos lugares mais obscuros como as Velas de Scampia, — onde se filmou grande parte de Gomorra, de Matteo Garrone  o famoso complexo — pelas piores razões obviamente — de edifícios lúgubres e o covil de recrutamento de mafiosos, apresentado agora como um ‘destino turístico definitivo’: ‘París tem a Torre Eiffel, Roma o Coliseu e em Nápoles estão as Velas de Scampia’, palavras de um dos muitos divertidos diálogos do filme que mais risadas arrancou à habitual sisudez da crítica festivaleira.

Ammore e Malavita

Ciro (Giampaolo Morelli), pisca o olho ao agente 007.

 

Ammore e Malavita é um filme de acção, irónico e musical e estilo dramedy, mas foi sobretudo uma prenda para os festivaleiros de Veneza 74 e decerto será um prazer para o público, quando estrear nas salas.

José Vieira Mendes



Sobre José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.