Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier, em análise

Em Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier, o realizador leva-nos numa odisseia íntima e pessoal sobre a sua experiência enquanto devoto amante da sétima arte.

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Por vezes, é interessante considerar a diferença que um título faz. Veja-se, por exemplo, como o título português e o título anglófono do novo documentário de Bertrand Tavernier prometem duas experiências de importante distinção. Em Portugal, o filme é conhecido como “Uma Viagem Pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier”, um título que, tirando a menção explícita do nome do cineasta, é bastante próximo do original francês. Por outro lado, em mercados de língua inglesa, a obra foi distribuída como “My Journey Through French Cinema”. É certo que se trata de algo quase insignificante à primeira vista, mas enquanto um nome nos refere para uma exploração da História do cinema francês, o outro indica-nos uma reflexão fortemente pessoal, distante de qualquer presunção de objetividade crítica. Curiosamente, o título inglês é muito mais apropriado ao filme que nomeia, que as versões de França ou de Portugal.

Esta não é uma crónica da evolução do cinema francês, ao estilo de A História do Cinema: Uma Odisseia de Mark Cousins, por exemplo. Longe de examinar o cinema desde os irmãos Lumière até às mais recentes provocações de Assayas, Bonello e Hansen-Løve, Tavernier está preocupado em retratar aqui a sua própria experiência com a produção nacional do seu país. Mais especificamente, o cineasta está a expor o modo como uma série de diferentes artistas o influenciaram, maravilharam, entretiveram e o moldaram até à ocasião em que ele mesmo se tornou numa parte da História cinematográfica de França. Note-se como, no advento da década de 70, o filme termina, chegando somente a fazer breve referência à primeira longa-metragem de Tavernier em 1974. Dos filmes nomeados para Óscares que Tavernier assinou na década seguinte, nem se fala.

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Aliás, longe de tais glórias em terras americanas, se há algo que domina esta viagem, é a sombra da 2ª Guerra Mundial. Numa das passagens mais belas da obra, Tavernier chega mesmo a descrever como, na sua juventude, a antecipação esperançosa que acompanhava sempre o abrir das cortinas dos cinemas onde ele passava as tardes, o relembravam do sentimento semelhante que este havia sentido quando foi anunciada a Libertação de França, o fim do domínio Nazi sobre a sua pátria. Muitas vezes caracterizado, juntamente com muitos outros, como um filho da Libertação, Tavernier tem o cuidado de salientar que todos os filhos da Libertação foram também filhos da Guerra. Foi essa mesma guerra que causou as enfermidades juvenis do futuro cineasta, que ainda hoje sente os efeitos da devastação que a subnutrição desses anos causou ao seu corpo em crescimento.

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É mesmo através de uma lembrança dos serões passados num sanatório para onde os pais o enviaram após o fim da Guerra, que Tavernier abre o primeiro grande capítulo do seu filme que, na sua maioria, se divide por personalidade. A primeira delas é Jacques Becker, cujo thriller criminal Dernier atout constitui um dos primeiros grandes momentos de fascinação pelo cinema na vida de Tavernier. Na altura, nem ele mesmo sabia quem tinha realizado a obra que tanto o fascinava, mas no futuro, viria a tornar-se admirador da obra de Becker, deliciando-se no seu virtuosismo técnico e na elegância formal tipificada em filmes tão célebres como Casque D’Or ou o impiedoso épico humano Le Trou.

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Outras das pessoas cujo trabalho é explorado a fundo por Tavernier neste documentário, incluem, entre outros, o ator Jean Gabin, o compositor Maurice Jaubert e os realizadores Marcel Carné, Claude Sautet e Jean-Pierre Melville. Este último é o protagonista da mais interessante parte de Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier, tendo sido responsável pela entrada do jovem cinéfilo no mundo do cinema, primeiro enquanto devoto fã, depois como assistente e finalmente como assessor de imprensa. Para fãs do trabalho de Melville, onde se incluem obras-primas como Le Samouraï e L’armée des ombres, este documentário será uma indubitável delícia, estando recheado de pormenores divertidos e do tipo de considerações que somente alguém muito próximo do próprio Melville poderia alguma vez fazer.

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Tal intimidade trespassa toda a obra, quer seja pelo modo pessoal e familiar com que Tavernier partilha as suas memórias e reflexões sobre os filmes de outras pessoas, quer seja pelo facto de que o cineasta chegou a conhecer praticamente todas as figuras de que fala no documentário. Nesse aspeto, o filme ganha muito pela curiosa posição de Tavernier na História cinematográfica de França, sendo ele suficientemente novo e velho para ter estado em contacto com a maior parte dos nomes canonizados pela cinefilia internacional. Por muito desinspiradas que as soluções mecânicas deste documentário com mais de três horas possam ser, é delicioso ouvir um amigo pessoal e amante de cinema falar de Jean Gabin, quer seja das suas ideias, manias, talentos ou defeitos.

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Antes de terminarmos a nossa análise desta carta de amor pessoal ao cinema francês, convém mencionar que, não obstante a sua considerável duração, Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier é bastante limitado. Ninguém deveria olhar para este filme como um modo de estudar a História do cinema francês, mesmo se pusermos de parte a componente subjetiva e sentimental do exercício. Uma das grandes lacunas da obra é, por exemplo, o modo como, apesar de falar de muitas atrizes e até referir o génio de Agnès Varda, Tavernier nunca dar grande atenção ao trabalho de mulheres no cinema. Este problema é tão gritante que o próprio Bertrand Tavernier já o reconheceu, dizendo que, num filme futuro no mesmo modelo, tentará idealmente falar mais das grandes mulheres que fizeram do cinema francês o que é hoje. Uma coisa é certa, para qualquer cinéfilo com algum afeto para com o cinema desse país, a promessa de uma “sequela” a este documentário será um deleitoso e informativo prazer.

 

Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier, em análise
UMA VIAGEM PELO CINEMA FRANCÊS COM BERTRAND TAVERNIER poster pt

Movie title: Voyage à travers le cinéma français

Date published: 2017-08-11

Director(s): Bertrand Tavernier

Genre: Documentário, 2016, 201 min

  • Claudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO

Apesar de graves limitações históricas e estéticas, Uma Viagem pelo Cinema Francês com Bertrand Tavernier é um comovente passeio pela vida do cineasta titular enquanto amante da sétima arte. Para além do mais, dá ao espetador uma maravilhosa lista de recomendações.

O MELHOR: As descrições que Tavernier faz do trabalho nos estúdios pessoais de Melville e as anedotas que ele partilha sobre a sua engenhosa presença em praticamente todos os filmes desse realizador.

O PIOR: A já referida falta de referências femininas entre a galeria de personagens importantes celebradas e exploradas por Tavernier.

CA

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