Sorrentino inventa um Presidente e Mitevska transforma Madre Teresa em punk rock | Festival de Veneza 2025 (Dia 1)
O Festival de Veneza 2025 começou logo com choque e contradição: Paolo Sorrentino apresentou “La Grazia”, com Toni Servillo como um Presidente íntegro que só existe no cinema, e Teona Strugar Mitevska abriu a secção Orizzonti com “Mother”, onde Noomi Rapace incarna uma Madre Teresa muito punk rock.
O Festival de Veneza 2025 parece não gostar de arranques tímidos e banais. O Lido abriu as portas em modo missa solene e profana, entre a política italiana e uma santidade em crise de imagem. Dois filmes, dois mitos desmontados: “La Grazia”, de Paolo Sorrentino, abriu a competição oficial, e “Mother”, da macedónia Teona Strugar Mitevska, inaugurou a secção Orizzonti.
Um Presidente que só existe no cinema
Com a estreia de “La Grazia”, no Festival de Veneza 2025, Paolo Sorrentino volta a confiar no seu parceiro de sempre, Toni Servillo, para dar vida a Mariano De Santis, Presidente da República italiana, católico, viúvo, solitário e fumador ocasional, que se vê perante a decisão de assinar — ou não — uma lei sobre a eutanásia e dar indultos a dois presos por crimes de desespero. É um homem de Estado que hesita, consulta a filha (Anna Ferzetti), cita rappers e pensa antes de decidir.
Parece banal, mas em Itália (e no mundo) isto já se tornou quase ficção científica. O realizador de “A Grande Beleza” diz que quis retratar ‘como um político deve ser’. A ironia é toda esta: Sorrentino, que antes despira Andreotti (“Il Divo”) e Berlusconi (“Loro”), mostra-nos agora um Presidente ideal, íntegro e quase utópico. Servillo encarna essa integridade com a gravidade de sempre. O rosto dele, já património cultural, sustenta o filme inteiro.
O resultado é um Presidente que não existe na realidade, mas que todos gostariam de ter. “La Grazia”, de Paolo Sorrentino filme de abertura do Festival de Veneza 2025 estreará nas salas, mas segue depois para o streaming da Netflix.
Uma Madre Teresa punk rock
Do outro lado do Festival de Veneza 2025, em estreia mundial na secção Orizzonti, Teona Strugar Mitevska apresentou “Mother”. E aqui o desafio é outro: despir Madre Teresa de Calcutá do mito, antes do Nobel, da beatificação e da canonização. Noomi Rapace interpreta Teresa em 1948, ainda freira em Calcutá, a lutar com o Vaticano para poder fundar a sua própria ordem. Em vez da santa sorridente dos postais, vemos uma mulher dura, ambiciosa, contraditória, quase uma CEO do divino.
O filme concentra-se em sete dias cruciais da sua vida, entre favelas, dúvidas e dilemas éticos. Uma das cenas mais fortes mostra-a a confrontar-se com a gravidez inesperada de uma freira e a hipótese de aborto. Não há catequese nem aura santificada: há conflito, humanidade e contradição. Rapace resume bem o seu papel: “Não esperem uma santa. Era uma pessoa complexa, com energia punk rock”.
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É essa energia que Mitevska explora, recusando a biografia de vitrina e proporcionando-nos uma Madre Teresa de Calcutá de carne e osso, capaz de inspirar e inquietar em simultâneo os espectadores do Festival de Veneza 2025.
Graça e pecado no arranque do Lido
O primeiro dia do Festival de Veneza 2025 deu-nos assim um Presidente íntegro que nunca vimos e uma santa que afinal era feita de falhas e ambição. Dois retratos políticos e religiosos que abrem espaço para debate e para ironia. Entre o cigarro pensativo de Toni Servillo e a fúria punk rock de Noomi Rapace, Veneza começou em estado de graça e de pecado. O resto do festival que se prepare: o tom já está dado.
JVM
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