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Óscares 2026: Hollywood em Guerra Civil Ou Porque Anda Tudo Tão Tóxico?

Entre campanhas tóxicas, rivalidades de estúdio, discursos políticos e uma corrida imprevisível entre “Pecadores” e “Batalha Atrás de Batalha”, a noite dos Óscares 2026 promete menos glamour e mais pólvora.

Durante anos repetiu-se a mesma conversa: os Óscares tornaram-se previsíveis, burocráticos, uma espécie de missa anual de Hollywood onde todos sabem quem vai ganhar antes de a cerimónia começar. A indústria entrega prémios a si própria durante três meses — Globos de Ouro, BAFTA, SAG, PGA, DGA — e, quando finalmente chega a grande noite no Dolby Theatre, em Los Angeles, já toda a gente sabe o final da história. Pois bem: este ano alguém decidiu baralhar o jogo. A 98.ª edição dos Academy Awards 2026 acontece no domingo, 15 de março. Em Portugal começa às 23h na RTP1 e arrasta-se madrugada dentro, aquela tradição meio masoquista que todos os cinéfilos e jornalistas de cinema conhecem bem: glamour, discursos emocionados, chávenas cheias de café às três da manhã enquanto se escreve um texto a correr para o online e uma ressaca enorme no dia seguinte. Mas, em princípio, este ano vamos para a cama mais cedo. A cerimónia dos Óscares 2026 volta a ser apresentada por Conan O’Brien, um comediante suficientemente inteligente para gozar com Hollywood sem provocar uma guerra civil, o que, convenhamos, já não é fácil. Porque, se há palavra que define a corrida aos Óscares deste ano, é uma só: toxicidade. Nunca houve tanta tensão, tanta rivalidade, tantas campanhas agressivas, tantos comentários venenosos e tanta política misturada com cinema. Hollywood está dividida. E os Óscares 2026 tornaram-se o campo de batalha de opiniões diversas e apostas arriscadas.

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VÊ TRAILER DE “BATALHA ATRÁS DE BATALHA”

A guerra dos dois filmes

Se há dois títulos que definem esta temporada dos Óscares 2026 são: “Pecadores”, de Ryan Coogler, e “Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson. Curiosamente — e isto parece quase um argumento de série de televisão — ambos pertencem ao mesmo estúdio: a Warner Bros. Um estúdio que neste momento vive uma novela própria depois do anúncio inesperado da sua aquisição pela Paramount. “Pecadores” chega aos Óscares com dezasseis nomeações, um recorde absoluto. É um fenómeno cultural, um filme que mobilizou público, crítica e indústria. Venceu o prémio de Melhor Elenco no sindicato dos actores (SAG), e isso nunca é um detalhe menor: a Academia está cheia de actores. Já “Batalha Atrás de Batalha” (13 nomeações) fez o percurso clássico do vencedor: Producers Guild, Directors Guild, BAFTA, Globo de Ouro. Ou seja, tudo aquilo que tradicionalmente indica um caminho inevitável para Melhor Filme. Durante meses pareceu uma coroação anunciada. Agora parece um duelo de western ao pôr do sol. O Producers Guild continua a ser o melhor preditor do Óscar principal porque utiliza o mesmo sistema de voto preferencial da Academia. Traduzindo para português corrente: não ganha necessariamente o filme mais amado; ganha o menos odiado. E, nesse aspecto, “Batalha Atrás de Batalha” é perfeito para os academistas: autoral, politicamente relevante, sofisticado. Mas Hollywood também adora uma onda emocional. E “Pecadores” tem essa energia extra. A minha aposta continua a ser:

Melhor Filme: “Batalha Atrás de Batalha”. Mas com a margem de vitória mais pequena dos últimos anos.

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VÊ TRAILER “PECADORES”

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A reviravolta de Michael B. Jordan

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Se há categoria onde a narrativa mudou radicalmente nas últimas semanas foi a de Melhor Actor. Durante meses toda a gente repetia o mesmo mantra: Timothée Chalamet ia ganhar por “Marty Supreme”. Jovem estrela, talento reconhecido, nomeações anteriores, a narrativa perfeita. Até que chegaram os outros prémios depois dos Golden Globes. Primeiro os BAFTA. Depois os SAG, ou Actors Awards. E depois Michael B. Jordan ganhou e subiu ao palco, emocionado, humilde, quase incrédulo. Hollywood adora redenções. Adora histórias de reconhecimento tardio. E Jordan nunca ganhou nada “grande”. De repente, a corrida virou-se de pernas para o ar. E há ainda um terceiro elemento interessante: Wagner Moura, nomeado por “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. O Golden Globe de Melhor Actor em Drama que ganhou deu-lhe visibilidade internacional e tornou-o numa das presenças mais fascinantes desta temporada. Mesmo assim, a minha previsão é clara:

Melhor Actor: Michael B. Jordan (“Pecadores”).

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A vitória inevitável de Jessie Buckley

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Na categoria de Melhor Actriz, pelo contrário, não há muito suspense. Jessie Buckley tem feito aquilo que em Hollywood chamam um “percurso limpo”. Desde “Wild Rose – Rosa Selvagem” (2018) que se percebeu que era uma questão de tempo até ganhar um Óscar. “Hamnet” confirmou tudo. É uma interpretação intensa, elegante, emocionalmente devastadora e capaz de levar às lágrimas.

Melhor Actriz: Jessie Buckley (“Hamnet”).

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Óscares 2026: Sean Penn em One Battle After Another
Sean Penn. © Warner Bros. Pictures

As categorias secundárias

Entre os actores secundários a corrida foi dura: Jacob Elordi, Stellan Skarsgård, Benicio Del Toro, Delroy Lindo. Mas Sean Penn ganhou BAFTA e SAG. Dois indicadores fortíssimos. E Hollywood continua a ter uma relação quase sentimental com Penn: o actor que aparece pouco, fala pouco e, quando aparece, ganha.

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Melhor Actor Secundário: Sean Penn (“Batalha Atrás de Batalha”).

Já Melhor Actriz Secundária é provavelmente a categoria mais caótica da noite. Amy Madigan ganhou força depois do SAG por “Weapons – Hora do Desaparecimento”. Mas Teyana Taylor tem um trunfo importante: pertence ao filme que pode ganhar Melhor Filme. E Hollywood gosta de premiar os vencedores em bloco.

Melhor Actriz Secundária: Teyana Taylor (“Batalha Atrás de Batalha”).

Teyana Taylor em "The Rip"
©Netflix

Paul Thomas Anderson: finalmente

Há injustiças que Hollywood demora anos a corrigir. Paul Thomas Anderson nunca ganhou um Óscar. E toda a indústria parece ter decidido que isso já chega de tanto esforço e talento, nunca recompensado. Toca a dar um Óscar ao homem.

Melhor Realizador: Paul Thomas Anderson.

VÊ TRAILER DE “O AGENTE SECRETO”

O caso brasileiro

Na categoria de Filme Internacional há também um elemento lusófono. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, representa o Brasil e chega com enorme visibilidade graças à nomeação de Wagner Moura para Melhor Actor. Mas o grande rival é “Valor Sentimental”, do norueguês Joachim Trier, um dos filmes mais aclamados do ano. Apesar de gostar muito de “Valor Sentimental”, os brasileiros sabem fazer campanhas. E fazem-nas muito bem. Portanto, a minha aposta continua a ser:

Melhor Filme Internacional: “O Agente Secreto”.

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©A.M.P.A.S.

A cerimónia mais nervosa dos últimos anos?

A noite promete também algum nervosismo político. Há expectativa sobre discursos relacionados com Gaza, com o Irão e com a situação global. Depois das polémicas recentes em festivais europeus — especialmente na Berlinale — Hollywood sabe que qualquer frase pode incendiar as redes sociais. Talvez por isso a Academia esteja a tentar controlar a cerimónia. Há até polémica na categoria de Melhor Canção: apenas duas das nomeadas serão interpretadas ao vivo. Televisivamente pragmático. Artisticamente discutível. Mas os Óscares tornaram-se também um programa de televisão, e os produtores pensam primeiro nas audiências.

Michael B. Jordan Creed III Oscares
Kyusung Gong / ©A.M.P.A.S.

Porque é que estes Óscares estão tão tóxicos?

A verdade é que o clima deste ano tem sido particularmente agressivo. Campanhas negativas. Artigos venenosos. Rumores plantados. Comentários nas redes sociais que parecem mais debates políticos do que discussões sobre cinema. Há três razões principais. Primeiro, o dinheiro. As campanhas aos Óscares custam milhões, e os estúdios sabem que uma estatueta pode multiplicar receitas. Segundo, a política. Hollywood vive num ambiente ideológico extremamente polarizado. Terceiro, as redes sociais. A temporada de prémios tornou-se um campo de batalha digital onde cada narrativa é amplificada, distorcida e transformada em polémica. O resultado em sido uma corrida nervosa, imprevisível e, às vezes, francamente absurda. Mas também — paradoxalmente — uma das mais interessantes dos últimos anos.

VÊ TRAILER DE “A VIZINHA PERFEITA”

A minha lista final dos prováveis vencedores dos Óscares 2026 (Principais Categorias)

Melhor Filme: Batalha Atrás de Batalha
Melhor Realizador: Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Melhor Actor: Michael B. Jordan (Pecadores)
Melhor Actriz: Jessie Buckley (Hamnet)
Melhor Actor Secundário: Sean Penn (Batalha Atrás de Batalha)
Melhor Actriz Secundária: Teyana Taylor (Batalha Atrás de Batalha)
Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto
Melhor Animação: KPop Demon Hunters
Melhor Documentário: A Vizinha Perfeita

Mas aviso já: estes Óscares 2026 é daquelas edições em que a palavra surpresa pode voltar a existir. E só isso já é uma boa notícia. Porque, convenhamos, depois de anos de cerimónias previsíveis, Hollywood voltou finalmente a oferecer aquilo que sempre soube fazer melhor: drama.

JVM


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