Berlinale 2026 | Miniaturas, Marionetas e um Parque que Nunca Mais é o Mesmo
Entre uma casa em miniatura onde o luto ganha corpo (“YO (Love Is a Rebellious Bird)”) e uma menina de oito anos (“Josephine”) que aprende demasiado cedo o que é o mal, a Competição da Berlinale 2026 fechou a lembrar-nos que crescer dói e amar também.
No final da Competição da Berlinale 2026 cruzaram-se dois filmes americanos que, embora muito diferentes na forma, mergulham fundo na experiência íntima das suas protagonistas: “YO (Love Is a Rebellious Bird)”, de Anna Fitch e Banker White, e “Josephine”, de Beth de Araújo. Um documentário híbrido sobre luto e criação artística; e um drama ficcional sobre trauma infantil e violência. Dois filmes centrados numa personagem feminina, dois dispositivos narrativos muito controlados e duas abordagens formais que recusam o sentimentalismo fácil.

“YO (Love Is a Rebellious Bird)”: A Casa Como Corpo da Memória
“YO (Love Is a Rebellious Bird)” parte de um gesto concreto: a construção de uma réplica à escala 1/3 da casa de Yolanda Shea por parte de Anna Fitch, sua amiga durante quase duas décadas. O filme acompanha esse processo ao longo de vários anos, intercalando imagens de arquivo do último ano de vida de Yo com a criação artesanal de cenários, marionetas e dioramas que recriam episódios narrados por ela. A estrutura do documentário organiza-se em camadas. Há o registo observacional das visitas filmadas antes da morte de Yo, onde a relação entre as duas se revela na intimidade de conversas, silêncios e pequenos gestos domésticos. Há depois a materialidade da construção: madeira cortada, tecidos, objectos miniaturizados, paredes erguidas peça a peça. A câmara insiste na textura dos materiais, sublinhando o carácter manual do projecto. Dentro da maquete habita uma marioneta de Yo. Esta figura não surge como elemento grotesco, mas como extensão cénica da memória. A marioneta é filmada em planos cuidadosamente compostos, iluminados de forma suave, integrando-se nos cenários reduzidos com uma naturalidade que resulta do rigor plástico do conjunto. O filme alterna entre preto e branco de imagens de arquivo e a cor, reforçando a sensação de trânsito entre tempos. As sequências de arquivo, muitas vezes cruas e frontais, contrastam com as recriações estilizadas. As histórias de Yo — que atravessam várias décadas e continentes — são encenadas em miniatura com uma imaginação visual que remete para o teatro de objectos e para o cinema artesanal. A narração de Anna Fitch assume um papel estruturante. A realizadora aparece em cena, expondo o seu processo emocional e criativo. Não se trata de um documentário biográfico convencional, mas de um dispositivo autorreflexivo onde o acto de filmar e o acto de construir se confundem. A casa deixa de ser apenas espaço físico e transforma-se em dispositivo narrativo. O ritmo é deliberadamente pausado. Os planos prolongam-se, permitindo que o espectador observe os detalhes dos cenários e das marionetas. A montagem privilegia associações visuais entre o real e a sua recriação miniaturizada. O resultado é um objecto híbrido, entre documentário, ensaio autobiográfico e instalação artística filmada.

“Josephine” — A Violência Vista à Altura de Uma Criança
Em contraste formal quase total, “Josephine”, de Beth de Araújo, o grande filme desta Competição da Berlinale 2026, estrategicamente, guardado para a última sessão, opta por um registo ficcional rigorosamente realista. O filme acompanha Josephine (Mason Reeves), uma menina de oito anos que testemunha uma agressão sexual num parque enquanto o pai corre atrás do agressor.
A sequência inicial estabelece a relação entre pai e filha através de movimento e da proximidade física. A câmara acompanha-os em corrida, alternando entre o ponto de vista da criança e planos que reforçam a cumplicidade entre ambos. A ruptura acontece de forma abrupta: a violência é mostrada sem elipse significativa, mantendo a perspectiva de Josephine. A partir desse momento, o filme centra-se nas consequências psicológicas do acontecimento. A cinematografia de Greta Zozula adopta frequentemente ângulos baixos e foco instável, sugerindo o olhar fragmentado da protagonista. O mundo adulto surge desfocado, distante ou incompreensível.
Mason Reeves constrói uma interpretação marcada por mudanças subtis de expressão e por explosões inesperadas. A personagem oscila entre silêncio, agressividade e confusão. A montagem evita grandes saltos temporais, privilegiando a continuidade emocional. Os pais, interpretados por Channing Tatum e Gemma Chan, ocupam um espaço dramático relevante. O pai reage com soluções práticas — aulas de defesa pessoal, discursos protectores — enquanto a mãe tenta enquadrar o acontecimento num discurso mais verbalizado. As divergências entre ambos são tratadas sem histeria, mas com tensão crescente. O filme inclui sequências no contexto escolar, onde o comportamento de Josephine se altera de forma visível. A divisão maniqueísta entre colegas “seguros” e “ameaçadores” é filmada com enquadramentos fechados, reforçando a claustrofobia psicológica. Há também momentos ligados ao sistema judicial. A preparação para testemunhar e a presença em tribunal são encenadas com sobriedade. A câmara permanece próxima do rosto da criança, evitando espectacularização. A banda sonora de Miles Ross surge pontualmente, sublinhando estados emocionais, mas grande parte do impacto advém do som ambiente: passos, respiração, ruídos urbanos. O silêncio desempenha um papel dramático essencial.
“Josephine” mantém uma linha narrativa coesa e linear. Ao contrário do experimentalismo plástico de “YO”, aqui prevalece uma gramática cinematográfica clássica, ainda que com atenção particular ao ponto de vista infantil. A realização insiste na permanência do trauma através de imagens recorrentes e pequenas variações de enquadramento que sugerem memórias intrusivas.
JVM

