Oscar 2026: As Últimas Previsões, Entre Vampiros, Drones e um Génio Chamado Paul Thomas Anderson
Entre medidas de segurança dignas de um filme de espionagem, um apresentador sarcástico, um palco orgânico cheio de árvores, reencontros nostálgicos de Hollywood e uma corrida imprevisível entre “Pecadores” e “Batalha Atrás de Batalha”, a 98.ª cerimónia dos Oscar 2026 promete menos rotina e mais suspense e talvez se torne na gala mais incerta da década.
A Noite em que Hollywood Tentará Parecer Humana
Se acreditarmos nas promessas da Academia de Hollywood — e sabemos todos que isso exige sempre um pequeno acto de fé cinematográfica — os Oscar 2026 querem ser um “ponto de viragem”. Não apenas uma cerimónia anual cheia de vestidos impossíveis, discursos emocionados e montagens sentimentais, mas uma espécie de ensaio geral para o grande centenário da Academia em 2028. A 98.ª edição realiza-se no habitual Dolby Theatre, em Los Angeles, e chega num momento curioso da história de Hollywood: uma indústria em transformação, entre plataformas de streaming, inteligência artificial, guerras culturais nas redes sociais e um planeta cada vez mais nervoso. Talvez por isso os produtores decidiram que o tema da noite seria algo tão simples quanto ambicioso: “humanidade”. Sim, humanidade. Em Hollywood. Raj Kapoor, o produtor executivo e showrunner da cerimónia, explicou a ideia com entusiasmo quase filosófico: o palco foi redesenhado para parecer “imersivo”, com formas orgânicas, luz natural e camadas arquitectónicas que lembram — nas palavras da directora artística Misty Buckley — “espaços reverentes”. Em termos menos poéticos: o cenário vai parecer um templo ecológico futurista onde se distribuem estatuetas douradas. A intenção é clara: depois de anos de polémicas, discursos inflamados e audiências televisivas em queda, os Oscar 2026 querem recuperar alguma coisa que Hollywood perdeu algures entre a pandemia e a guerra cultural permanente: o prazer de celebrar o cinema.

Conan O’Brien e a Arte de Fazer Piadas em Tempos Estranhos
O mestre de cerimónias será novamente Conan O’Brien, regressando após a experiência do ano passado. O comediante tem uma missão delicada: fazer rir uma sala cheia de estrelas milionárias enquanto o mundo parece cada vez mais parecido com um thriller geopolítico. O’Brien sabe disso. Disse mesmo que o seu trabalho é encontrar “um equilíbrio entre entreter e reconhecer a realidade”. Tradução livre: fazer piadas suficientes para manter a audiência acordada sem irritar metade de Hollywood. O humorista descreveu a experiência de apresentar os Oscar com uma metáfora inesperada: conduzir uma Maserati. Rápida, sensível e — aparentemente — cara demais para ele comprar. Se o monólogo inicial mantiver este tom auto-irónico, já é meio caminho andado para evitar os habituais momentos constrangedores que costumam circular nas redes sociais no dia seguinte.

Segurança de Guerra: Quando os Oscar Parecem um Filme de Espionagem
Mas o detalhe mais surreal da preparação deste ano não tem a ver com cinema. Tem a ver com drones. As autoridades norte-americanas receberam alertas sobre um possível ataque com drones na Costa Oeste, alegadamente ligado a tensões entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. Resultado: a cerimónia contará com medidas de segurança reforçadas envolvendo o FBI e a polícia de Los Angeles. É um detalhe estranho mas revelador do tempo em que vivemos. Hollywood prepara-se para celebrar o cinema global enquanto ao mesmo tempo se protege de ameaças que parecem saídas de um guião de Tom Clancy. Se isto não é material para um filme, não sei o que será.

Música, Nostalgia e um Extraterrestre em Palco
No capítulo do espectáculo propriamente dito, a Academia promete uma noite generosa em música. As canções nomeadas para Melhor Canção Original serão interpretadas ao vivo — tradição que os Oscar retomaram nos últimos anos para recuperar algum brilho televisivo. Entre elas destaca-se “Golden”, do fenómeno animado “KPop Demon Hunters”, que deverá trazer ao palco uma pequena invasão de K-pop. Também haverá uma grande homenagem ao filme “Pecadores”, de Ryan Coogler, que entra na cerimónia com um número impressionante de nomeações — 16, um recorde histórico. A sequência incluirá bailarinos, músicos e a lendária bailarina Misty Copeland. E, num daqueles momentos que só Hollywood consegue produzir, haverá também reencontros de elenco: actores do universo Marvel e da comédia “Missão Madrinha de Casamento” vão subir ao palco para recordar velhos sucessos. A nostalgia continua a ser uma das grandes indústrias de Hollywood.
Uma Temporada de Prémios Mais Caótica do que o Costume
Se a cerimónia promete espectáculo, a corrida aos prémios promete suspense. Este ano, várias categorias continuam em aberto até ao último momento, fenómeno raro numa temporada de prémios que normalmente chega aos Oscar já praticamente decidida. Parte da confusão vem de uma nova regra da Academia: os votantes passaram a ter de confirmar que viram todos os filmes nomeados numa categoria antes de votar. A medida foi introduzida através da aplicação oficial de streaming da Academia. Em teoria, isto significa votações mais informadas. Na prática, significa que muitos votantes viram filmes que normalmente ignorariam e isso pode mudar resultados.

Melhor Filme: Paul Thomas Anderson à Espera do Momento Certo
A grande batalha da noite opõe dois filmes muito diferentes. De um lado está “Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson, um épico político ambicioso e elegante que venceu praticamente todos os prémios importantes da temporada: Globos de Ouro, BAFTA e Producers Guild. Do outro está “Pecadores”, de Ryan Coogler, um drama vampírico que se transformou num fenómeno cultural e bateu recordes de nomeações. Se os Oscar seguissem apenas o entusiasmo popular, talvez “Pecadores” tivesse vantagem. Mas Hollywood adora narrativas históricas e neste momento existe uma narrativa irresistível: Paul Thomas Anderson nunca ganhou um Oscar. Depois de mais de duas décadas de obras-primas, a Academia parece finalmente pronta para corrigir essa omissão.
Previsão:
Melhor Filme —“Batalha Atrás e Batalha”
Melhor Realizador: A Consagração de um Autor
Se “Batalha Atrás e Batalha” ganhar Melhor Filme, é praticamente inevitável que Anderson leve também o Oscar de realização, embora a entrega seja anterior.
Os votantes parecem ver esta vitória como uma consagração tardia de um dos grandes autores do cinema contemporâneo.
Previsão:
Melhor Realizador — Paul Thomas Anderson
Actor e Actriz: As Corridas Mais Imprevisíveis
A categoria de Melhor Actor é talvez a mais incerta da noite.
Timothée Chalamet parecia favorito no início da temporada, mas perdeu força. Leonardo DiCaprio continua sempre presente. Ethan Hawke tem apoio crítico. Wagner Moura conquistou simpatias internacionais.
Ainda assim, quem chega com mais impulso é Michael B. Jordan, protagonista de “Pecadores”.

Previsão:
Melhor Actor — Michael B. Jordan
Já em Melhor Actriz, a corrida parece praticamente decidida. Jessie Buckley dominou a temporada com a sua interpretação intensa em “Hamnet”.
Previsão:
Melhor Actriz — Jessie Buckley
Actores Secundários: O Regresso de Velhas Lendas
Nas categorias secundárias, a Academia parece inclinada para narrativas de carreira.
Sean Penn surge como favorito para Melhor Actor Secundário graças à sua transformação em “Batalha Atrás de Batalha”.
Já em Melhor Actriz Secundária, tudo indica um momento emocionante: Amy Madigan, aos 75 anos, pode conquistar finalmente o seu Óscar com “Weapons-Hora do Desaparecimento”.

Argumentos, Música e Técnicos
Outras categorias também revelam tendências interessantes: “Pecadores” deverá vencer Melhor Argumento Original; “Batalha Atrás de Batalha” lidera em Argumento Adaptado; “Frankenstein”, de Guillermo del Toro, surge como favorito em várias categorias técnicas: design de produção, figurinos e maquilhagem; “Avatar: Fogo e Cinzas” deverá continuar o domínio da saga nos efeitos visuais e “F1”, as categorias de Som. Na animação, o fenómeno pop “KPop Demon Hunters” parece imbatível, na sua categoria.

Cinema Internacional e Documentários
Na categoria de Melhor Filme Internacional, o favorito é o norueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier. Mas se ganhar o brasileiro “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, não será uma surpresa. Já no documentário, o impactante “A Vizinha Perfeita” — sobre violência racial nos Estados Unidos — surge como ligeiro favorito.

No Fundo, Hollywood Continua a Contar Histórias
No meio de todas estas previsões, estatísticas e apostas, os Oscar 2026 continuam a ser aquilo que sempre foram: uma narrativa sobre si próprios. Hollywood adora histórias. E a cerimónia dos Oscar é a maior história que a indústria conta sobre si mesma todos os anos. A história deste ano parece clara: um grande autor finalmente reconhecido; um blockbuster cultural que quase conquista tudo; uma cerimónia que tenta parecer mais humana, e uma gala protegida por medidas de segurança dignas de um filme de espionagem. Se tudo correr bem, daqui a alguns anos vamos lembrar esta noite como o momento em que Paul Thomas Anderson finalmente recebeu a estatueta que Hollywood lhe devia há décadas. Se correr mal… bom, teremos sempre Conan O’Brien para fazer uma piada.
JVM

