Primata, a Crítica
Janeiro é, por norma, um mês um pouco aborrecido para os grandes fãs do cinema de terror. Embora sejam lançados muitos filmes do género nesta época, estes são, em grande parte das vezes, de qualidade duvidosa.
Somente nos últimos anos, recebemos filmes como “Night Swim”(2024), “Wolf Man” (2025) e “The Grudge” (2020), apenas para citar alguns dos fracos filmes de terror que saem sempre por esta altura do ano.
Este tipo de terror descartável tem um dono predominante, a produtora Blumhouse, que começou por produzir filmes que já são considerados clássicos do terror contemporâneo, como “Get Out”, “Split”, ou “Black Phone”. Porém, com o passar do tempo, a qualidade dos seus lançamentos foi caindo de forma óbvia. Mas os pequenos orçamentos dos filmes, permitiam que os próprios se tornassem rentáveis sem precisar de levar multidões aos cinemas.
Ao observar o sucesso da Blumhouse, a Paramount decidiu entrar ela também no mercado do terror, seguindo uma estratégia parecida: filmes baratos, fáceis de fazer render. Foi assim que encontrou a fórmula para o sucesso, apostando em terror original como nenhuma outra grande produtora. Destacam-se os lançamentos “A Quiet Place” e “Smile”, que já contam ambos com sequelas (e no caso do primeiro, também uma prequela)
Desta vez, o estúdio apostou num estilo diferente do terror, ressuscitando um sub género que estava enterrado desde o final dos anos 80, o terror com animais. “Primata” (2025) de Johannes Roberts, traz esse espírito violento que já vimos em “Cujo”ou “Link”. O terror feito através daqueles que são como família, os animais que vivem perto de nós, mas que podem sempre tornar-se uma ameaça.
O que é “Primata”?
É exatamente isso que vemos em “Primata”. O filme segue um grupo de jovens, que decide ir passar umas férias tropicais na belíssima e gigantesca casa da protagonista, Lucy (interpretada por Johnny Sequohya). Porém, os problemas começam a aparecer quando o macaco de estimação da família, Ben, começa a mostrar comportamentos mais violentos do que o normal.
O argumento de Johannes Roberts e Ernest Riera não nos tenta surpreender ou emocionar. É simples e direto ao ponto, num filme que nem chega à hora e meia de duração. No entanto, nenhuma das personagens tem qualquer tipo de profundidade ou desenvolvimento, são apenas elementos funcionais numa história em que o seu objetivo é sobreviver.
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O vencedor do Óscar, Troy Kotsur interpreta o pai da protagonista. Mas assim como o restante elenco, o ótimo ator é totalmente mal aproveitado pelo argumento. E o potencial para explorar uma personagem surda no filme de terror é imenso (lembremo-nos do filme “Don’t Breathe” e do seu antagonista cego). Porém, a personagem de Troy Kotsur é só mais uma desperdiçada neste “Primata”.
Este já é um problema conhecido do género de terror, sobretudo quando lida com personagens adolescentes. E em “Primata”, não é diferente. Pois as cenas mais constrangedoras e falsas do filmes são as interações entre os próprios adolescentes. Os diálogos são fracos e caiem no estereótipo, sendo o momento menos inspirado do filme quando as personagens nadam na piscina em câmara lenta. Tudo isto enquanto a música escolhida para tocar na cena é “360” de Charli XCX, o que acaba por soar quase como uma paródia daquilo que são jovens a divertir-se.
Violência pura

O filme melhora verdadeiramente quando a premissa violenta entra em ação. E muito do mérito tem que ser dado à equipa de efeitos práticos e maquilhagem. Pois o principal destaque do filme é Ben, o chimpanzé, que é feito totalmente através dessas ferramentas, sem quase nunca recorrer aos efeitos especiais digitais, o que, sem dúvida alguma, seria um grande erro.
Enquanto Ben está em cena, o espectador acredita que aquele ator num fato é realmente um macaco sedento por violência. Todos os pequenos detalhes do corpo do chimpanzé são pensados e trabalhados ao pormenor, e o resultado está à vista.
O trabalho incrível da equipa de efeitos práticos e maquilhagem não fica por aqui, pois um dos outros grandes méritos do filme é a maneira como ele aborda a violência. Embora o realizador tenha certas dificuldades em criar momentos de tensão, pois quando o faz, tende a ficar aborrecido e sem personalidade, ele sabe usar a violência para motivos de choque. Sempre que uma personagem morre, é do espectador levar as suas mãos aos olhos, pois só os mais corajosos conseguirão aguentar certos momentos.
O grande problema é que além desses momentos de pura violência, o filme tem dificuldades em encontrar a sua identidade dentro de um género já saturado. O realizador ainda tenta inovar com planos mirabolantes, mas que ficam completamente descaracterizados dentro da estética do projeto. Assim também acontece com a banda sonora, que tenta homenagear Carpenter e a sua brilhante banda sonora em “Halloween”. Sendo esta criada principalmente através de sintetizadores, num estilo muito característico dos anos 70/80. Porém, a homenagem fica por ai, num filme que não tem qualquer vontade de criar uma identidade própria, excluindo os momentos mais violentos.
Conclusão
Em suma, o projeto brilha quando é aquilo que se propõe: simples, direto e violento. Consegue surpreender graças aos incríveis efeitos que fazem do antagonista uma verdadeira ameaça. E o que diverte é ver esse mesmo antagonista a eliminar, uma por uma, as personagens de um elenco fraco e pouco desenvolvido pelo argumento.

