13º IndieLisboa | Un monstruo de mil cabezas, em análise

Uma mulher, de arma em punho, tenta desesperadamente lutar contra injustiças institucionais em Un monstruo de mil cabezas de Rodrigo Plá.

un monstruo de mil cabezas

Un monstruo de mil cabezas, a quarta longa-metragem do realizador uruguaio Rodrigo Plá, inicia-se com um angustiante plano geral de longa duração. Aí vemos uma família em angústia à espera da chegada de uma ambulância. O patriarca da unidade familiar é um doente terminal de cancro e, durante um acesso de dor, caiu da cama em sofrimento. No dia seguinte, num estado de inegável e frustrado desespero, Sonia, a mulher do doente, vai confrontar o médico encarregue do caso do marido, em busca de respostas que expliquem o facto de o seu marido ter sido negado, pela sua seguradora, acesso a um tratamento experimental que mostrou resultados.

É claro desde início que o que nos espera não é um mero drama médico, e Plá depressa estabelece um clima de constante tensão sobre todos os procedimentos narrativos. Nas suas primeiras confrontações com os desumanos absurdos do processo burocrático, a situação de Sonia parece quase saída de uma comédia negra, mas, rapidamente, a predisposição da protagonista a usar violência ameaça um caminho mais negro para a narrativa, algo mais ligado ao ameaçador tom. Com uma arma em punho e um filho adolescente a acompanhá-la, Sonia parte numa odisseia de um dia através dos labirintos de convoluta burocracia da seguradora Alta Salud, forçando uma coleção de indivíduos que vivem à custa do sofrimento alheio a confrontarem a sua fúria e indignação. Desde cedo, nos damos conta que Sonia sabe que se está a condenar à clausura judicial depois de toda esta missão estar completa, mas, o suspense não atenua, com a mise-en-scène de Plá e o argumento de Laura Santullo a sempre sugerirem mais desgraçadas reviravoltas.

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Esse suspense é conjurado a partir, não só da premissa narrativa, mas também da brilhante execução de Plá. Seguindo os códigos usuais do género do thriller criminal, o realizador chega a níveis de mestria quase Hitchcockianos. No seu máximo triunfo estrutural, aquando da introdução de novos indivíduos, meros observadores ou vítimas da missão de Sonia, um voz-off revela à audiência o testemunho em tribunal da entidade em questão. Na primeira vez que tal acontece, esse mecanismo coloca logo a possibilidade de um final triunfal fora da mesa, pelo contrário, vincula a eventual tragédia desta viagem furiosa. Com a repetição, este mecanismo converte-se num padrão e, quando não ouvimos tais palavras na introdução de uma nova cara, como que sustemos a respiração, esperando angustiados pela explosão, pela bala ou tacada que vai eliminar este indivíduo. Por vezes, tal violência regista-se, enquanto noutros momentos tal foi apenas um falto indício. Como Hitchcok, Plá mostra-nos a bomba antes de ela explodir e vai-nos continuamente lembrando da sua existência. O interessante é a espera e não a explosão, o suspense e não o choque.

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Seguindo essa mesma técnica de clássico cinema de suspense, os enquadramentos do filme são de uma absoluta precisão, forçosamente colocando muitas das suas mais importantes personagens em posições de desequilíbrio visual, demasiado próximas de um dos cantos do ecrã, por exemplo. Há uma grande riqueza em espaço vazio nestas imagens, um vácuo que parece estar ser sempre a ameaçar ser preenchido, ora por movimentos bruscos e insensatos, ora por uma inesperada nova presença. Num semelhante registo, mas diferente mecanismo, o som segue uma linha subjetiva, caindo em silêncios e momentos de sonoplastia abafada quando o trauma e o choque se começam a tornar demasiado intensos. Os tiros, no então, são sempre maldosamente audíveis, perfurando o equilíbrio tonal de todo o exercício com uma violência que apenas gera mais violência. É claro que nenhuma discussão da técnica presente na construção de Un monstruo de mil cabezas ficaria completa sem uma menção do espetacular trabalho de Miguel Schverdfinger, que consegue editar o filme de modo magistral e reduzir a sua totalidade a uns musculosos 74 minutos que quase não dão tempo para a audiência respirar, tal é o orgânico mas agressivo seguimento de acontecimentos.

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O encadeamento de conflitos à mão armada, nunca seriam tão viscerais e galvanizantes sem o estrondoso elenco que Plá conseguiu reunir para este filme. Apesar de muitos atores oferecerem exemplares prestações, especialmente Sebastián Aguirre como Dario, esse já referido filho adolescente, a verdadeira estrela deste thriller é Jana Raluy como Sonia, a nossa anti heroína que decide lutar contra um sistema de injustiças sistematizadas recorrendo à força. Ao longo do filme, a audiência tem pouco acesso a detalhes específicos sobre a vida de Sonia, nem sequer sabendo o seu emprego, pelo que seria de esperar alguma indefinição no trabalho da atriz principal. Raluy nega quaisquer simplismos textuais, ou intencionais opacidades, criando em Sonia uma visão de uma mulher em completo desespero e portadora de uma imparável fúria indignada. Mesmo assim, apesar de ter um trabalho caracterizado por grandes emoções óbvias, Raluy tem a delicadeza sagaz de acrescentar pequenos e preciosos pormenores na sua caracterização, como a posição estranha e pouco treinada como Sonia segura na sua arma ou mesmo o modo como nenhuma das suas decisões parecer alguma vez ser amplamente planeada, mas sim um pensamento louco que acabou de ganhar existência

Talvez o melhor instante desta titânica prestação seja mesmo um olhar facilmente esquecido. Quando o seu filho agride o aparente companheiro de um notário da empresa contra a qual ela se debate. Nesse instante, o filho de Sonia deixa de ser um simples acompanhante silencioso das ações da mãe, mas sim um ativo participante na sua violência, e, numa fugaz expressão de incerteza e angústia, Raluy perfeitamente telegrafa a mágoa de uma mulher em absoluto desespero que se apercebeu que já não há volta a dar depois disto, nem para si nem para o seu filho. Essa relação maternal e filial é o centro emocional do filme, mais ainda que o relógio em contagem decrescente que é a mortalidade do pai e marido destas personagens. Aliás, a máxima tragédia do filme poderá mesmo ser a progressiva agressividade e segurança de Dario nas ações criminosas da sua mãe. Parece que, tal como ela, o jovem se apercebeu da horrenda verdade que talvez seja mesmo preciso a força para combater este tipo de injustiças.

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Afinal, este é um mundo em que apenas uma arma parece acordar as pessoas para a sua falta de básica empatia humana face a abjeto sofrimento, apelando ao seu egoísmo e instinto de sobrevivência animal. Tais elementos narrativos e temáticos fazem de Un monstruo de mil cabezas, uma obra tão caracterizada pelos seus mecanismos de suspense como pelas suas gritadas intenções como crítica socioeconómica, mostrando com palpável fúria, como a ganância e amoralidade reinam em instituições que baseiam todo o seu sustento na negação e manipulação de serviços dos quais dependem muitas vidas. Tal conflito entre classes e ideologias, ganha apoteose visual nos ambientes que vamos vislumbrando como que numa crescente luxuosidade. O filme inicia-se na casa de Sonia, mas rapidamente entra num clube desportivo para elites, em casas de vários indivíduos da empresa e termina num prédio de luxo, de superfícies marmóreas e elevadores reluzentes, onde o conflito entre esta mulher e a instituição que nega dignidade humana ao seu marido chega a um conturbado clímax.

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Dentro de tudo isto, uma marca de louvor na abordagem de Plá é, sem dúvida, o modo como demonstra uma notável falta de julgamento, tanto no modo como retrata a protagonista como na fragmentada apresentação do julgamento da nossa anti heroína, cujo final veredito nos é roubado. É certo que o realizador é bastante óbvio na sua representação dos injustos cabecilhas da Alta Salud, mas na sua principal caracterização, Plá, com a ajuda do maravilhoso argumento e sua divina atriz, consegue conferir a este exercício cinemático uma necessária e importante humanidade.

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O MELHOR: A bombástica prestação de Jana Raluy.

O PIOR: A falta de nuance na caracterização de algumas das personagens menos simpatéticas.


 

Título Original: Un monstruo de mil cabezas
Realizador:  Rodrigo Plá
Elenco: Jana Raluy, Sebastián Aguirre, Hugo Albores
Drama, Thriller | 2015 | 74 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho, assim como um cinéfilo devoto.

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