13º IndieLisboa | Chevalier, em análise

Em Chevalier, um grupo de seis homens entra numa competição que, supostamente dirá quem é o melhor homem em tudo, um título tão ridículo como a totalidade desta comédia negra de tons surreais realizada por Athina Rachel Tsangari.

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A masculinidade enquanto conceito tem sido, desde o início do cinema de interesse psicológico, um tema incontornável no panorama cinematográfico. Basta vislumbrarmos o top 250 do IMDb, um horrendo barómetro de qualidade mas excelente modo de ver o que se considera de valor num ponto de vista puramente populista. Nessa malfadada lista, é fácil ver como narrativas que de algum modo abordam a masculinidade enquanto tema, são de uma extrema popularidade e pressuposto valor. Narrativas que giram em torno de homens que têm de encarar o legado da sua família e seu predestinado lugar numa hierarquia social, homens comuns que se tornam heroicos ao se agarrarem a ideias pessoais de integridade moral, crises identitárias que giram em torno de um indefinido sentido de valor, etc. Aliás, sendo o filme que estamos a examinar parte do IndieLisboa deste ano, convém apontar como obras sobre jovens a tentarem encontrar o seu lugar e propósito no mundo se têm vindo a tornar uma irritante constante de qualquer seleção anual do cinema independente internacional.

Apenas esta abundância e repetição já seria causa de uma certa paródia, mas, na sua terceira longa-metragem, a realizadora grega Athina Rachel Tsangari leva estas possibilidades cómicas e subversivas a excessos quase surrealistas. Esse tipo de desconstrução bizarra do comportamento humano tem sido um tema sempre presente na obra da autora, mas Chevalier consegue decerto ganhar o título de ser o seu mais audacioso e arriscado estudo do modo como pessoas interagem umas com as outras, ou melhor de como homens interagem entre si e negoceiam suas noções de grandeza, importância e inseguranças. Que Tsangari traz uma perspetiva feminina a tais temas é de destacar, pois na sua abordagem há sempre uma distância quase clínica que faz do filme um exercício quase científico, não fosse o absurdo da sua inicial premissa narrativa.

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Essa dita premissa é relativamente simples, se abjetamente absurda, um grupo de homens envolvem-se num jogo em que se julgam uns aos outros com o intuito de decidir qual deles é “o melhor homem”. A existência das simples palavras “o melhor” é a fulcral parte desta premissa que, de modo humorístico, se propõe a eviscerar e subverter a noção de competitividade masculina. Basicamente, é um concurso de comparação de genitais, elevado a um nível de ridículos extremos, se bem que, é bom apontar, esta competição chega a incluir uma comparação entre as várias ereções dos homens que se propõe ao título do melhor homem em relação a tudo, desde essa já referida comparação de sexos, até a julgamentos sobre toques de telemóvel ou a postura adotada durante o sono.

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Esta já referida competição é fruto de inseguranças e ressentimentos, na mesma medida, que de simples aborrecimento. Ela ocorre entre um grupo de seis homens que se encontram a fazer uma viagem pelo Mar Egeu num iate de luxo, durante uma noite em que não têm eletricidade e em que os seus outros jogos de tabuleiro se começam a mostrar algo entediantes e inconsequentes. O grupo de homens é de várias profissões e idades, mas parecem ser todos relativamente abastados. O doutor, pois ele não recebe qualquer outro nome, é o óbvio ancião do grupo assim como o seu mais abastado membro. Num patamar oposto, o gorducho Dimitris é um homem mais jovem, em pior forma física e que ainda vive com a mãe. De todos os jogadores ele é o que mais humilhações sofre. Em paralelo a esta insanidade da parte destes homens privilegiados, por detrás do luxo, os próprios empregados, todos homens, demonstram como tais parvoíces masculinas não são uma exclusividade de uma classe específica, mas sim um preocupante padrão comportamental.

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Tais comportamentos vão construindo uma crescente escala de absurdos, tanto da parte dos jogadores como dos empregados que os observam e nos seus resultados apostam. Competições inocentes como uma corrida de limpezas, depressa dão lugar a situações inenarráveis, tudo culminando numa desastrada tentativa de se fazer um pacto de sangue, como que indo buscar o mais arcaico e clássico símbolo dos laços fraternais entre homens. Em resumo, é tudo um absurdo, mas que, apesar da sua loucura, é baseado e fundamentado em realidades humanas. Pelo menos parece que essa é a principal intenção desta comédia satírica.

Este absurdo é estranhamente traduzido na formalidade e nas caracterizações do seu colorido elenco de personagens. Em termos estéticos, Chevalier está curiosamente preso a um estilo de relativo realismo, tanto a um nível visual como rítmico e diretorial. A maior marca estilística é mesmo a simetria com que muitos dos planos gerais do barco são enquadrados, posicionando esta construção humana, e masculina, como algo que se opõe à vastidão da natureza que é o mar, tentando futilmente dominar a imagem com uma ilusória e vácua ideia de ordem.

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Em termos mais humanos, mais interpretativos, este absurdo é traduzido num conjunto de valoráveis prestações de um excelente elenco de atores gregos. O seu trabalho segue o relativo naturalismo que a sua realizadora parece procurar nos visuais de Chevalier, o que tem consequências curiosas. Por um lado, existe suficiente estilização manienta para que muitos dos comportamentos das personagens pareçam reações minimamente credíveis no ambiente criado pelo filme. No entanto, o seu trabalho, especialmente quando nos aproximamos da eventual conclusão desta narrativa, tende a ser demasiado realista para o seu próprio bem, deixando o filme num meio-termo de caricatura e retrato realista com um toque de sátira. Isto concebe um elenco de personagens que, mais do que ridículas, parecem completamente desumanas e impossíveis de seriamente aceitar como manifestações de comportamentos existentes na vida real, ou seja, exatamente o contrário do que seria de esperar numa sátira com intenções de alguma qualidade cortante e incisiva.

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Essa quase-caricatura desumana não é somente uma consequência da estética, dos atores e das caracterizações textuais, sendo que a estrutura do filme também é bastante dúbia. Depois de meia hora, Chevalier fica obviamente vazio de ideias e o que se segue, por mais de uma hora, é uma contínua repetição, uma constante e irritante martelada de ideias não moduladas, que vão perdendo a sua componente acídica e importante à medida que se vão expondo num loop temático e situacional. No final, esta repetição torna-se redundante e cansativa. A premissa inicial é deveras fascinante, e muitas das ideias da autora são de louvar, mas, na sua execução e derradeira concretização, Chevalier é apenas isso, uma boa ideia. Infelizmente, nunca passa realmente disso, uma boa ideia que é repetida até à infinidade da paciência das suas audiências. É hilariante, há que reconhecer, mas é difícil não olhar o objeto final de Chevalier e não pensar que resultaria muito melhor como uma curta-metragem, e não como um filme com mais de hora e meia de duração.

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O MELHOR: A premissa inicial, assim como alguns dos mais insólitos momentos como uma competição em que os jogadores tentam descobrir quem é o mais rápido a montar uma estante do IKEA.

O PIOR: Essa cansativa repetição ideológica e estrutural.


 

Título Original: Chevalier
Realizador:  Athina Rachel Tsangari
Elenco: Giannis Drakopoulos, Kostas Filippoglou, Yiorgos Kendros
Alambique | Comédia | 2015 | 105 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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