69º Festival de Cannes (Dia 8) | O Brasil como um Aquarius

Em plena crise política Aquarius do brasileiro Kleber Mendonça Filho, um filme passado no Recife é um extraordinário ensaio sobre a memória das coisas, protagonizado pela bela Sónia Braga. É sem dúvida o filme mais belo e conseguido até agora nesta competição e ainda por cima é falado em português.

Aquarius

Aquarius de Kleber Mendonça Filho (Brasil) com Sónia Braga, Irandhir Santos, Maeve Jinkings (competição)

A história: Clara (Sónia Braga), é uma ‘enxuta’ sexagenária, ex-crítica musical, da classe média do Recife. Clara vive num belo apartamento de um prédio muito singular chamado Aquarius, construido nos anos 40, em plena Avenida da Boa Viagem, junto ao mar. Só que um importante promotor imobiliário conseguiu comprar todos os outros apartamentos, enquanto Clara recusa-se a vender o seu, porque é onde na verdade se sente bem e guarda os seus LP’s, livros, fotografias e sobretudo as suas memórias e recordações da sua vida cheia de altos e baixos. Por isso, Clara vai entrar numa guerra fria e dura com a empresa imobiliária, que a tenta pressionar por todos os meios a vender o apartamento. Muito perturbada com esta tensão, Clara começa realmente a repensar a sua vida, o passado e sobretudo as coisas que mais ama e conserva no seu íntimo e no seu espaço.

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A análise: Depois do filme de uma rua do Recife de O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho, o mais vibrante e promissor realizador brasileiro da actualidade (e ex-crítico de cinema ora bem!), regressa agora à geografia dos lugares em Aquarius, título do filme e de um prédio rústico da bela e famosa Avenida da Boa Viagem, onde se passa todo o drama. Este é novamente um lugar para o Kleber transpor para o cinema, em três partes (um dispositivo narrativo muito acertado e que elimina o factor tempo), um retrato cirúrgico e crítico da sociedade brasileira da actualidade; e sobretudo das tensões sociais da crise política e da grande pressão imobiliária e económica, que sofrem as pessoas, da cidade do Recife e da generalidade das grandes cidades brasileiras. Mesmo assim, e ainda bem, Aquarius guarda muitos dos elementos de O Som ao Redor, principalmente no que diz respeito à violação do espaço público e privado e de uma certa violência contida, que pode rebentar a qualquer momento. Mas igualmente sobre as grandes desigualdades sociais que permanecem na sociedade brasileira. É também a história de um Brasil dividido entre ricos e pobres, entre bem educados e mal-educados. Estas questões estão bem representadas pela doméstica Ladjane (Zoraide Coleto) a empregada da protagonista Clara que vive em Pina, na parte mais pobre da Boa Viagem, que não tem arranha-céus  e que começa por um esgoto a céu aberto que dá para a praia; ou então pelos trabalhadores da construtora. O Som ao Redor era um filme com uma rigorosa construção sonora, a Aquarius junta-se-lhe uma extraordinária banda sonora, que inclui muitos temas tradicionais da música popular e clássica brasileira, que fornecem o lirismo necessário à construção da narrativa e às emoções dos personagens, sobretudo de Clara (Sónia Braga), como uma ex-crítica musical.

Aquarius

No entanto, Aquarius é sobretudo um espectacular e ansiado regresso da bela e sensual Sónia Braga que tem 66 anos e está em grande forma. Sónia tem uma interpretação notável (aí aqueles pés descalços, recordam-me e excitam-me com na Gabriela, Cravo e Canela da minha adolescência), e novamente afirmou-se aqui no Festival de Cannes, como uma grande figura do cinema brasileiro internacionalmente (embora entretanto tenha trabalhado pouco no Brasil). Sónia é a Clara, a ex-crítica musical reformada e viúva, que procura representar um certo estilo de vida perdido, da praia da Boa Viagem, nem sempre tão limpa como seria desejável devido à sistemática construção de altos prédios de apartamentos. Assim Clara não só tem de cuidar-se dos tubarões que por vezes aparecem na realidade na praia da Boa Viagem (como estão nos placards), como vai enfrentar os ‘tubarões’ imobiliários como o jovem herdeiro da construtora (muito bem interpretado por Humberto Carrão), que tem planos para demolir o prédio onde ela vive e criar um novo empreendimento. Só que Clara vive cercada pelos seus livros, discos de vinil, no fundo de uma memória física, que não quer apagar. Todo o elenco está muito bem, incluíndo Maeve Jinkings (Boi Neón), que interpreta a filha de Clara, que de alguma forma vive inconformada com o fato da mãe viver num prédio fantasma.

Aquarius

Aquarius é um filme sobre a sobrevivência das pessoas, do passado das memórias, mas também é uma pulsão da energia de uma cidade em renovação e em grande crescimento cultural, como o Recife. Uma cidade que Kleber Mendonça Filho, tem representado muito bem (ai que saudades do Restaurante Leite, um ícone da cidade e que aparece no filme!), nos seus filmes incluíndo nas suas curtas metragens de Recife Frio a Eletrodoméstica.

JVM


José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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