70º Festival de Cannes (Dia 2) | Da Rússia para Portugal

O nosso País está na moda e a culpa é nossa! Até em ‘Faute d’Amour’, do russo Andrey Zvyagintsev, filme que abriu a competição do 70º Festival de Cannes, apesar de ser um drama familiar sobre a incomunicabilidade, tem duas cenas com referências muito positivas a Portugal.

Há um grande entusiasmo da imprensa estrangeira, aqui em Cannes, em relação às recentes vitórias portuguesas. Diga-se de passagem não apenas às mais mediáticas, mas sobretudo relativamente à positiva situação económica atual — o maior valor do PIB nos últimos 10 anos — e à paz e tranquilidade que se vive em Portugal, como um dos melhores países da Europa para viver neste momento. Sobretudo a ver pela segurança reforçada que atrasou um pouco a sessão de imprensa desta manhã.

70º Festival de Cannes
O drama familiar de ‘Faute d’Amour.

Inspirado em As Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman, o filme russo Faute d’Amour, (Nelyubov) de Andrey Zviagintsev (Leviathan) é um excelente drama familiar à volta do desaparecimento de um menino de 12 anos, reagindo ao violento divórcio dos pais. Em relação a Portugal, podia-se de imediato ligar ao mistério Maddie e o filme segue em parte esse caminho. O filme conta a história do casal Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) que estão em pleno processo de divórcio e colocam o seu apartamento à venda. Os seus destinos parecem já decididos: Boris vive com uma mulher mais nova que entretanto está grávida; enquanto Zhenya tem um amante rico,— que tem a filha a estudar em Portugal — e com quem está disposta a casar. Nenhum dos dois parece importar-se muito com Aliocha (Matvey Novikov), o filho de 12 anos de ambos, que entretanto desaparece sem deixar rasto.

O filme desenvolve-se no conflito entre o casal, os seus novos relacionamentos e o processo de buscas da criança desaparecida. Numa das cenas Anton (Andris Keish), o amante de Zhenya, fala por Skype com a filha para uma esplanada em Lisboa, com a Ponte 25 de Abril e conversas em português em fundo. A rapariga diz ao pai que é sempre verão em Lisboa comparado com o clima de Moscovo e diz um obrigada sem sotaque ao empregado.

Faute d’Amour, de Andrey Zviagintsev é um excelente filme, frio e direto como o inverno de Moscovo, e os filmes anteriores do realizador (Elena ou Leviathan). É mais um pretexto para o cineasta russo de 53 anos, explorar os meandros de uma família em desagregação, utilizando como microcosmos para retratar a falência moral e a burocracia da sociedade russa em rápida mutação, na actualidade.

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Meinhard Neumann protagonista de ‘Western’.

A alemã Valeska Griesbach — cineasta que tem colaborado com Maren Aden, entre outras coisas, no argumento de Toni Erdmann — assinou Western, um belíssimo filme integrado na competição de Un Certain Regard. Com um olhar quase documental este filme interpretado por uma maioria de atores não-profissionais conta a história de um grupo de trabalhadores da construção civil alemães, que são enviados para uma obra no interior agrícola e quente da Bulgária, onde têm que enfrentar a barreira linguística e falta de recursos — principalmente a escassez de água —, além de terem de fazer um esforço para para estabelecer uma boa relação com os aldeãos.

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Um filme sobre a diversidade europeia.

Além da fabulosa fotografia de Bernhard Keller, o filme conta em primeiro lugar com a interpretação notável de Reinhard Neumann, no protagonista e no papel de um silencioso trabalhador, ex-Legião Estrangeira que conhece bem o mundo e as culturas — embora não fale búlgaro — que consegue fazer a ponte com os locais. Western, de Valeska Griesbach é um extraordinário retrato da Europa, da sua diversidade cultural e económica.

Adaptado de um romance de Brian Selzinck, o mesmo de Hugo Cabret, que Martin Scorcese adaptou ao cinema recentemente, o muito aguardado Wonderstruck é uma uma verdadeira reviravolta na carreira do cineasta norte-americano Todd Haynes (Carol). O filme segue em duas épocas distintas, o percurso de duas crianças Ben na década de 70 e Rose na década de 20 em Nova Iorque. Embora siga o tema da família recorrente nos seus filmes anteriores, Todd Haynes faz em primeiro lugar um filme-homenagem à cidade de Nova Iorque; e depois um filme infantil, e familiar cheio de fantasia.

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Julianne Moore novamente num filme de Todd Haynes.

Wonderstruck conta a história de duas crianças que sonham ter uma vida diferente. Ben sonha com o pai que nunca chegou a conhecer, ao passo que Rose isolada pela sua deficiência auditiva, apaixona-se pela carreira de uma actriz famosa (Julianne Moore). Ben descobre nas coisas da mãe (Michelle Williams), algo que o pode conduzir ao pai e Rose descobre que a sua atriz favorita está em cena. As duas crianças lançam-se em paralelo nas suas buscas e num percurso que as vai levar sozinhas a Nova Iorque.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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