70º Festival de Cannes (Dias 8 e 9) | A Fábrica de Nada e os portugueses

Apesar de não estar em competição oficial, ’A Fábrica de Nada’, a longa-metragem de Pedro Pinto,  foi ontem aplaudida de pé e sala cheia, no fim da sessão especial (e única) da Quinzena dos Realizadores. As curtas-metragens portuguesas que integraram a Semana da Crítica e a Quinzena foram igualmente bem recebidas.

A Fábrica de Nada é a primeira longa-metragem de ficção de Pedro Pinho, depois Um Fim do Mundo, estreado na Berlinale 2013, e os documentários, Bab Sebta (2008), e As Cidades e as Trocas (2014), co-realizados respectivamente com Frederico Lobo e Luísa Homem. É mais uma obra saída do colectivo de produção Terratreme (Pedro Pinho, Luisa Homem, Leonor Noivo e Tiago Hespanha, com o produtor João Matos), a partir de uma ideia do encenador Jorge Silva Melo (do colectivo Artistas Unidos), e baseada na peça De Nietsfabriek, da dramaturga alemã Judith Herzberg.

Vê apresentação de A Fábrica de Nada

Portanto, A Fábrica do Nada reflecte isso mesmo, uma ideia de um colectivo num discurso entre a ficção e o documentário, feito a partir de testemunhos dos operários — da empresa de elevadores Otis, da Póvoa de Santa Iria, nos arredores de Lisboa e que mantiveram a funcionar em autogestão, durante mais de uma década — e com actores profissionais Carla Galvão e José Smith Vargas e não-profissionais, os próprios operários.

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A Fábrica de Nada, reflecte o vazio e a preocupação de vivermos numa sociedade e numa economia que nos coloca perante o dilema de como a tecnologia consegue substituir a força do trabalho humano e logo os rendimentos dos trabalhadores. Já que os meios de produção continuam nas mãos dos mesmos: os capitalistas, mesmo que se fale num capitalismo sustentável. O filme conta a história de um grupo de operários fabris que se apercebe que durante a noite a administração está a levar embora as máquinas e as matérias-primas da sua própria fábrica. Por isso decidem organizar-se para proteger os equipamentos e impedir o deslocamento da produção para outra unidade, começando aos poucos a pensarem com a ajuda de um sociólogo italiano (interpretado pelo encenador Daniel Incalcaterra) uma solução de gestão colectiva, mais ou menos utópica da fábrica. Rodado entre 2014 e 2015, o filme não é mais um obra sobre a crise económica portuguesa ou a presença da troika em Portugal, como As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, embora seja difícil fugir a esta referência, até na forma de discurso. Está lá em fundo esse período da história recente, bem como uma ideia de refundação da ideologia de esquerda nacional e europeia.

A Fábrica de Nada
Os operários são a maioria dos actores.

Mais importante que a ideia de esquerda e direita — porque o capitalismo somos todos nós —  A Fábrica do Nada insiste na impotência (e por vezes na indiferença) das pessoas em quererem mudar as coisas: é mais fácil fazê-lo juntos do que sozinhos nesta sociedade marcada pelo consumismo e individualismo. A Fábrica de Nada é um filme que oscila entre o drama íntimo — o dia-a-dia de um casal que como a maioria das pessoas trabalha para pagar as contas e dar uma educação exemplar aos filhos — e a comédia social realista, que inclui mesmo um excelente e surpreendente momento musical, que faz lembrar Dancer in the Dark, de Lars Von Trier. É também um filme optimista e de esperança num futuro melhor sobretudo como o que vivemos agora de uma ‘geringonça’ que parece que não funciona mas funciona; é uma obra que mostra sobretudo que a democracia representativa, negociada e as decisões colectivas são a melhor forma de governação. E nesse aspecto A Fabrica do Nada é um belo retrato do Portugal de hoje.

A Fábrica do Nada
Um número musical surpreendente.

Além de A Fábrica do Nada foram apresentadas — infelizmente todas fora das competições oficiais — primeiro a curta-metragem Coelho Mau, de Carlos Conceição na Semana da Crítica e depois Farpões, Baldios, de Marta Mateus, de Marta Mateus, e a animação Água Mole, de Laura Gonçalves e , ambas na Quinzena dos Realizadores. Depois de Boa Noite Cinderela (2014), apresentada igualmente na Semana da Critica, Carlos Conceição regressou a Cannes com o seu último filme, Coelho Mau, agora em co-produção luso-francesa e com um drama familiar entre o terror e a fantasia.

Coelho Mau
Dois irmãos muito ligados.

Coelho Mau parte da relação quase visceral (e incestuosa) entre dois irmãos (João Arrais e Júlia Palha), e a mãe ausente de ambos, uma mulher madura (Carla Maciel) e o seu amante mais jovem (Matthieu Charneau). O realizador português regressou aos temas das suas curtas anteriores marcadas pelas histórias de família, de personagens à procura da sua identidade, da sua relação com o corpo, das angústias da morte e da doença.

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Num universo de um velho palácio rodeado de uma floresta que mais parece a de Alice no País das Maravilhas, de uma casa na árvores, ora em cima de uma moto que rola no asfalto molhado, com dois miúdos, — ela com uma garrafa de oxigénio e ele quase sempre em tronco nu e com umas orelhas de coelho — desenvolve-se esta atemorizante fantasia sexual em que as personagens vacilam entre a iminência da morte e o assombro face aos seus desejos. Os ambientes lúgubres e decadentes propícios ao drama, bem como a música do gira-discos, são criados de uma forma magnífica pela direcção de arte de João Rui Guerra da Mata e a fotografia de Vasco Viana. Um excelente filme que é uma pena que não esteja numa competição oficial.

Vê trailer de Água Mole

A animação Água Mole, de Laura Gonçalves e , produzida pela Bando à Parte, faz lembrar de imediato os filmes de Regina Pessoa. Os desenhos são muito bonitos e a novidade está em acompanharem muito bem os registos sonoros e as conversas com pessoas do interior de Portugal — de aldeias Trás-os-Montes e Beira Alta — procurando não só o isolamento em que elas vivem e a desertificação do território, bem como a opção dessas gentes que preferiram ficar a optarem pela imigração.

Farpões baldios
As rugas das memórias.

Farpões Baldios, de Marta Mateus, produzida pela C.R.I.M. é um documentário ou um mosaico da realidade de cerca de meia hora, bem filmado e com uma montagem exemplar. O filme foi rodado no Alentejo é protagonizado por idosos e crianças na actualidade. É um filme que recolhe e mistura as crenças religiosas, com histórias e memórias das ocupações das terras e da Reforma Agrária no Alentejo no pós-25 de Abril. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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