No Good Men: Uma Abertura Com Amor em Estado de Emergência no Berlinale 2026
A abertura da Berlinale 2026, não foi só a cerimónia e o Urso de homenagem a Michelle Yeoh que tiveram destaque ou as figuras da passadeira vermelha, foi com “No Good Men”, um beijo filmado por uma mulher afegã Shahrbanoo Sadat, num país que a queria calada.
A Berlinale gosta de começar com cerimónia, à sua maneira, mas com a cerimónia ao jeito alemão e com frio, mas desta vez com “No Good Men”. Não muito frio, por acaso este ano, até agora claro, pois ainda faltam 10 dias até ao fim, pois ainda agora começaram as hostilidade. Luzes afinadas, música medida, políticos locais sorridentes, estrelas que passam (aqui não sobem porque não há escadaria) pela passadeira vermelha do Berlinale Palast como se o mundo estivesse em pausa. A 76.ª edição não foi exceção.
Tricia Tuttle abriu oficialmente o festival com discurso ponderado, Wim Wenders apresentou o júri com aquela calma quase filosófica de quem já atravessou décadas de cinema e de crises, e a actriz malaia Michelle Yeoh (“Wicked 1 e 2) recebeu o Urso de Ouro honorário com a elegância tranquila de quem já conquistou Hollywood e não precisa de provar nada a ninguém. Sean Baker, o realizador de “Anora” fez o elogio, a gala foi transmitida em direto no streaming, os nomes conhecidos desfilaram na passadeira vermelho.
Tudo no sítio certo. Tudo muito civilizado. Muito europeu, ou melhor muito alemão Tuttle seja norte-americana. E, durante umas horas, parecia que o cinema servia para suspender a realidade. Só que não. Porque, logo depois da festa, o que verdadeiramente abriu a Berlinale 2026 foi um filme vindo de um país onde filmar já é, por si só, um risco. “No Good Men”, da realizadora afegã Shahrbanoo Sadat, 36 anos, cineasta, argumentista, actriz e, agora, exilada na Alemanha.
Escolher este filme para abrir o primeiro grande festival europeu do ano não é gesto inocente. É posição política. E é raro ver um festival assumir posição logo na primeira noite. Normalmente é para agradar ao público ou aos grandes distribuidores internacionais. Mas a Berlinale é assim, contra-corrente.

“No Good Men” é uma rom-com num país à beira do colapso
À superfície, “No Good Men” parece uma provocação quase leve: Naru (interpretada pela própria realizadora Shahrbanoo Sadat), a única operadora de câmara de uma televisão em Cabul, está convencida de que não existem homens bons no Afeganistão. Trabalha numa redação onde política e vida privada se misturam às vezes de uma forma um tanto inconsequente.
Um dia, aceita acompanhar o jornalista Qodrat — interpretado por Anwar Hashimi, escritor afegão cujos textos autobiográficos inspiram uma série de filmes da jovem realizadora — numa reportagem nos dias que antecedem o regresso dos talibãs ao poder. Faíscas. Discussões. Mal-entendidos. Uma possível história de amor, em tempo de guerra. Poderia ser apenas isso. Uma comédia romântica urbana, onde a liberdade e a segurança são inconstantes.
Mas estamos em Cabul, em 2021, nos últimos dias de uma liberdade frágil, quase ilusória. A cidade que vemos já está condenada à chegada dos talibãs e à deserção dos EUA e o espectador sabe-o. As personagens ainda tentam fingir que não. É nesse intervalo que o filme ganha força: entre o amor possível e o colapso inevitável. Sadat filma esse momento com humor seco, com ironia contida e com uma urgência política que nunca se transforma em discurso panfletário. Não há heroísmos épicos. Há gente comum a tentar viver enquanto o chão treme. E depois há o beijo. O primeiro beijo na boca mostrado num filme afegão. Não é um detalhe romântico. É um gesto político. Num país onde o controlo sobre o corpo feminino é regra, e portanto filmar um beijo é desafiar um sistema inteiro.

Filmado fora de casa, contra o tempo
“No Good Men” foi rodado na Alemanha. Não por opção estética, mas por necessidade. Após a tomada de Cabul pelos talibãs, Sadat deixou o Afeganistão e vive hoje em Hamburgo. A impossibilidade de filmar no seu próprio país é parte da história do filme. É o subtexto que atravessa cada plano. Todo o elenco é afegão. A memória é afegã. A dor é afegã. Mas o cenário é europeu. E isso diz muito sobre o estado do mundo.
Este é o terceiro capítulo de um ciclo de cinco longas-metragens inspiradas nos escritos de Anwar Hashimi, depois de “Wolf and Sheep” e “The Orphanage”, ambos apresentados nas sessões paralelas do Festival de Cannes. Mas aqui há uma mudança de tom. “No Good Men” é menos alegoria rural, mais frontalidade urbana. Menos fábula, mais confronto direto com o patriarcado. Sadat já afirmou que cresceu convencida de que não havia homens bons na sua sociedade.
O filme não confirma nem desmente essa ideia. Questiona-a. E essa dúvida é o verdadeiro motor dramático da narrativa. Porque “No Good Men” não é apenas um filme sobre o regresso dos talibãs, aliás até podia ser o que o tornava muito mais interessante. É um filme sobre o que existia antes deles. Sobre como a opressão não começa num golpe de Estado, mas muito antes, no quotidiano, na família, nas regras não escritas.
O risco em vez de estratégia
É curioso que a Berlinale 2026 tenha aberto com este filme numa altura em que muitos grandes estúdios evitam festivais para controlar melhor as suas estreias. Tricia Tuttle reconheceu que os grandes títulos comerciais preferem gerir o lançamento longe do “ruído” crítico. Os festivais e sobretudo Berlim, tornaram-se imprevisíveis. Um aplauso pode ser ouro. Uma crítica negativa pode custar milhões. Berlim respondeu escolhendo um filme feito contra todas as probabilidades.
Uma co-produção entre Alemanha, França, Noruega, Dinamarca e Afeganistão, distribuída internacionalmente por uma pequena empresa francesa. Não há aqui estratégia de blockbuster. Há convicção. E isso é, talvez, a melhor declaração de intenções possível para o que aí vem no resto da Berlinale 2026. Num ano em que o streaming continua a dominar a indústria e as salas independentes lutam para sobreviver, abrir com um filme como “No Good Men” é lembrar que o cinema não é apenas conteúdo. É experiência coletiva. É partilha. É risco.

Um beijo em “No Good Men”, vale mais do que mil discursos
No final da sessão de abertura, os aplausos foram longos. Não porque o filme seja perfeito, não é, tem um lado até um pouco amador e de guerrilha. Tem irregularidades, tem momentos menos conseguidos, tem a fragilidade própria de um projecto feito sob pressão. Mas é honesto. E é necessário. Michelle Yeoh recebeu o seu Urso dourado. Wim Wenders sorriu. O protocolo cumpriu-se. Mas o momento que ficou não foi o brilho das jóias nem os flash dos fotógrafos.
Foi a imagem de uma mulher afegã a filmar o amor num país que a quer silenciar. Para um festival que gosta de se apresentar como termómetro do mundo, começar com um beijo proibido em Cabul é mais do que um gesto simbólico. É um posicionamento. E, num tempo em que tanta gente prefere a neutralidade confortável, isso já é muito.

Um festival que sabe para quem existe
Horas antes da abertura, Tricia Tuttle enviou uma mensagem personalizada a todos os acreditados. Não era uma nota protocolar. Era quase uma declaração de princípios. Lembrava que, todos os anos, Berlim se transforma num ponto de encontro para cerca de vinte mil profissionais e criativos vindos de diferentes línguas, histórias e estéticas. Que durante dez dias partilham salas escuras, corredores de mercado, conversas luminosas e descobertas inesperadas. Que fazem novos amigos. Que fazem negócios. Que fazem cinema. Sublinhava uma ideia essencial: todos fazem parte do mesmo ecossistema. Que cada sucesso beneficia outros. Que a Berlinale existe para produtores, distribuidores, exibidores independentes, críticos, blogues, técnicos, realizadores, actores. Que o festival existe para todos os que procuram formas sustentáveis de criar, financiar, exibir, escrever e celebrar cinema. E agradecia — explicitamente — a resiliência de todos face às mudanças e desafios da indústria. Lida à luz da escolha de “No Good Men” como filme de abertura, a mensagem ganha peso. Porque abrir com um filme feito em exílio, com meios limitados, contra todas as probabilidades, é a melhor forma de dar corpo a essa ideia de ecossistema. Não é cinema de cem milhões de dólares. É cinema de convicção.

