Entroncamento – a Crítica
Em “Entroncamento” acompanhamos Laura, que foge de um passado turbulento, refugiando-se nesta cidade do distrito de Santarém para recomeçar a sua vida. Contudo, apesar de tentar encontrar um emprego honesto e uma vida melhor, começa a entrar em pequenos esquemas e crimes, motivados por familiares e amigos.
Ana Vilaça, Henrique Barbosa, Rafael Morais, Tiago Costa e Carlos Carvalho interpretam as personagens principais deste filme de Pedro Cabeleira que teve a sua estreia internacional no Festival de Cannes em 2025.
Entroncamento é um ciclo vicioso
Apesar de mostrar uma realidade dura, “Entroncamento” é um filme que tem uma grande sensibilidade. Consegue mostrar-nos, sem tornar demasiado óbvio, as dualidades das suas personagens.
São personagens que estão sempre no cinzento, que não são totalmente boas nem totalmente más. São personagens realistas, que não conseguem fugir do ciclo onde foram criados.
Aquele ambiente já lhes é confortável e acabam por se tornar vítimas de si próprios, da sua educação e de não serem capazes de fugir a um sistema que os oprime. É, por isso, que o final do filme nos apanha de surpresa.
Por estarmos à espera de que o ciclo se feche com uma tragédia, mas esse ciclo acaba por se abrir. Não querendo revelar nenhum spoiler, é um final poderoso, que nos dá uma sensação de alívio pelo quebrar de um ciclo.
Um noir português
Estamos já muito habituados a ver thrillers noir americanos com uma imagem escurecida e um ambiente underground demasiado romantizado, nos filmes de Hollywood.
Assim, é interessante ver como Pedro Cabeleira nos leva por um noir português em que o visual, os locais e o ambiente não são nada romantizados. São realistas e prendem-nos imediatamente a atenção porque sentimos que conhecemos esta realidade, que nos está próxima.
Reparei muitas vezes que o realizador escolhe deixar-nos do lado de fora de janelas, de apartamentos. Somos observadores exteriores do que se está a passar dentro daquelas portas. Como se fosse um segredo que não devíamos conhecer.
A sensibilidade e a violência em Entroncamento

Como referi, apesar de ser um thriller. Apesar de lidar com temas como a violência, crime e drogas. “Entroncamento” tem uma sensibilidade que nos surpreende. Na forma como apresenta estas comunidades marginalizadas.
Na forma como nos dá a conhecê-las e justifica as suas ações. Mas esta sensibilidade que sentimos no meio do caos, só é possível pelos atores que têm um grande range emocional e capacidade de apresentar uma dualidade de ações e sentimentos.
Ana Vilaça é uma protagonista forte, dura, que não apresenta facilmente as suas fragilidades. E Henrique Barbosa salta entre a violência, a repressão e a emoção com uma facilidade que nos surpreende e nos toca.
Conclusão
“Entroncamento” recusa romantizar a marginalidade e aposta numa abordagem humana e empática das suas personagens. Pedro Cabeleira constrói um retrato cru de pessoas presas a ciclos sociais e emocionais difíceis de quebrar, explorando a tensão entre destino e possibilidade de mudança.

