Um filme sobre um "cancelamento" político. © Ella Knorz_ifProductions_Alamode Film

Berlinale 2026 | Os premiados, cartas amarelas e ursos prateados

Um Urso de Ouro escrito com tinta de aviso: “Yellow Letters”, do alemão de origem turca İlker Çatak, e a dupla vitória de “Queen at Sea”, Berlim voltou a provar que não sabe — nem quer — separar cinema do mundo real. E ainda bem.

A Berlinale 2026 acabou como viveu os últimos nove dias: com o coração na garganta e a política a bater à porta das salas de cinema, das conferências de imprensa, das entrevistas com os talentos e de cartas abertas e amarelas. O Urso de Ouro foi para “Yellow Letters”, de İlker Çatak, um dos filmes que chegava ao fim da Competição da Berlinale 2016, com mais carga de favoritismo. Um filme sobre duas pessoas do teatro (um encenador e uma actriz) que, de repente, ficam proibidas de trabalhar por causa das suas posições políticas e que nos lembra, com a delicadeza de um murro, como a censura e o medo não precisam de farda para entrarem em casa. É daqueles prémios que a Berlinale adora: um filme “necessário”, um espelho do presente, um aviso para o futuro. E, desta vez, o júri presidido por Wim Wenders fez questão de sublinhar isso mesmo, como quem tenta colar as peças de um festival que passou dias a discutir se devia “ficar fora da política”. Afinal, como sempre, não ficou. Çatak, no discurso, preferiu a ideia de “não nos virarmos uns contra os outros” e apontou o alvo para fora: autocratas, extremismos, a máquina do ressentimento. Traduzindo: o problema não é o cinema falar do mundo; é o mundo estar a ficar pior do que qualquer argumento.

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VÊ TRAILER DE “YELLOW LETTERS”

 

Urso de Prata com peso: “Salvation” e o pódio moral da Berlinale

O Urso de Prata – Grande Prémio do Júri foi para “Salvation”, do turco Emin Alper: filme e discurso na mesma frequência do prémio principal, com solidariedade para quem vive esmagado por regimes, guerras e opressões. A Berlinale, quando acerta, faz isto: transforma o palco num lugar onde a estética e a urgência se sentam lado a lado, mesmo que desconfortáveis. O Urso de Prata – Prémio do Júri foi para “Queen at Sea”, do norte-americano Lance Hammer, protagonizado por Juliette Binoche, e que saiu de Berlim com ar de “terceiro lugar”, mas com impacto de protagonista. Ainda levou a cereja em cima do bolo: Melhor Interpretação Secundária para a dupla de veteranos Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall. É um daqueles casos em que a Berlinale diz “é um filme de actores” e depois prova-o com o troféu na mão deles.

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VÊ TRAILER DE “ROSE”

Sandra Hüller, outra vez: a actriz que ganha mesmo quando o filme perde

O prémio de Melhor Interpretação Principal foi, inevitavelmente, para Sandra Hüller por “Rose” (drama a preto e branco: um corpo em fuga dentro de uma sociedade fechada, uma mulher que tenta escapar ao patriarcado fingindo ser homem). Hüller tem esse talento raro: entra num filme e parece que a câmara passa a respirar por ela. E a Berlinale, que gosta de consagrar “caras da casa”, voltou a confirmar que, quando ela aparece, o prémio já vem meio escrito.

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VÊ TRAILER DE “NINA ROZA”

O resto da lista, ou como a Berlinale tenta ser justa (e às vezes consegue)

No resto do palmarés da Competição, houve prémios para quem “segura” um festival: Grant Gee levou Melhor Realização por “Everybody Digs Bill Evans”; Geneviève Dulude-De Celles venceu Melhor Argumento com “Nina Roza”; e a Contribuição Artística Excepcional foi para “Yo (Love Is a Rebellious Bird)”, de Anna Fitch e Banker White. A cerimónia de entrega dos Ursos voltou a ficar tensa, com slogans e respostas da plateia. Não foi a mais elegante — discursos longos, nervos à flor da pele — mas foi real. E Berlim, goste-se ou não, não sabe acabar um festival em modo “cocktail”.

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VÊ TRAILER DE “QUEEN AT SEA”

Mais uma Berlinale igual a si própria

A Berlinale 2026 exibiu centenas de filmes, trouxe a habitual fauna cinéfila ao frio e confirmou o que já sabíamos: este, apesar de tudo, continua a ser o grande festival onde o mundo entra pelas salas de cinema de forma activa, querendo dizer alguma coisa. No fim, ficou um palmarés coerente com o clima: um Urso de Ouro para um filme sobre repressão, uma prata grande para um cineasta que fala dos conflitos como quem não consegue fingir neutralidade, e uma celebração de actores que carregam o humano às costas. Se isto é “cinema político”? Claro que sim. É o cinema a fazer o seu trabalho, enquanto o resto do mundo parece que está a falhar no dele.

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Segue a lista completa dos vencedores:

Competição

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Urso de Ouro para Melhor Filme: Yellow Letters  – İlker Çatak (Alemanha/França/Turquia)

Urso de Prata – Grande Prémio do Júri: Salvation – Emin Alper (Turquia/França/Holanda/Grécia/Suécia/Arábia Saudita)

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Urso de Prata – Prémio do Júri: Queen at Sea  – Lance Hammer (Reino Unido/EUA)

Urso de Prata para Melhor Realizador: Grant GeeEverybody Digs Bill Evans  (Irlanda/Reino Unido)

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Urso de Prata para Melhor Interpretação: Sandra HüllerRose  (Áustria/Alemanha)

Urso de Prata para Melhor Ator/Atriz Secundária: Tom Courtenay, Anna Calder-MarshallQueen at Sea

Urso de Prata para Melhor Argumento: Nina RozaGeneviève Dulude-De Celles (Canadá/Itália/Bulgária/Bélgica)

Urso de Prata por Contribuição Artística Excepcional: Yo (Love is a Rebellious Bird) Anna Fitch, Banker White (EUA)

JVM


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