19.ª Festa do Cinema Italiano apresenta Giorgio Armani. ©19.ª Festa do Cinema Italiano/Divulgação

Giorgio Armani Não Entrava em Cena, Mandava na Cena | 19.ª Festa do Cinema Italiano

No domingo, 19 de abril, às 16h00, no Cinema São Jorge, Sala 2, a 19.ª Festa do Cinema Italiano presta homenagem a Giorgio Armani com a projeção de “Armani racconta Armani”, documentário da RAI, e “Made in Milan”, de Martin Scorsese.

Este programa complementar da 19.ª Festa do Cinema Italiano apresenta Giorgio Armani como “figura maior da moda contemporânea recentemente desaparecida”, em setembro passado, e propõe um retrato do criador através de dois olhares distintos: o da televisão pública italiana e o de Martin Scorsese, que com ele trabalhou em “Tudo Bons Rapazes”. Felizmente, esta homenagem pode ser mais do que um ritual de agenda cultural com cartaz elegante e reverência protocolar. Porque Giorgio Armani não foi apenas um estilista famoso, um nome de luxo ou um império italiano bem passado a ferro. Foi alguém que percebeu uma coisa essencial: no cinema, uma personagem começa muitas vezes antes de abrir a boca. Começa nos ombros do casaco, na queda das calças, na forma como uma camisa branca pode anunciar poder, desejo, classe ou ameaça. E isso vale mais do que muitos diálogos escritos num argumento.

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VÊ TRAILER DE “AMERICAN GIGOLO”

Armani, um homem do cinema

Durante demasiado tempo, tratou-se a moda com a condescendência habitual reservada às coisas que dão dinheiro, mexem com a vaidade e parecem superficiais. Como se vestir bem fosse apenas um capricho burguês, e não também uma linguagem, uma encenação, uma forma de poder e de construção de identidade. Armani percebeu isso melhor do que quase ninguém. A sua grande revolução foi aparentemente simples: tirou rigidez ao poder. Amaciou o fato masculino, deu-lhe fluidez, respiração, sensualidade e arrogância sem excesso. Quando Richard Gere aparece em “American Gigolo”, em 1980, vestido por Armani, não vemos apenas um homem elegante. Vemos uma mutação cultural. O corpo masculino deixa de parecer preso dentro da roupa e passa a habitá-la com consciência, charme e intenção. A roupa deixa de servir apenas para compor respeitabilidade. Passa a narrar.

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VÊ TRAILER DE “O LOBO DE WALL STREET”

Essa foi a esperteza de Armani: nunca desenhou só roupa. Desenhou hierarquias, desejos, atmosferas, profissões e modos de ocupar o espaço. Não admira que Hollywood o tenha abraçado. Armani assinou guarda-roupa ou figurinos para mais de 200 filmes, entre eles “American Gigolo” (1980), “Os Intocáveis” (1987), “Tudo Bons Rapazes” (1990), “O Cavaleiro das Trevas” (2008) e “O Lobo de Wall Street” (2013).

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O cinema de braço dado com a moda

E isto interessa porquê? Porque o guarda-roupa no cinema continua, demasiadas vezes, a ser tratado como decoração, quando, na verdade, molda a forma como lemos uma personagem. Armani percebeu que o estilo não é um adorno do cinema: é parte da dramaturgia. Um gangster mal vestido perde metade da autoridade. Um milionário com um fato mal cortado parece logo um aldrabão de segunda. O cinema consegue fingir muita coisa, mas não resiste muito tempo a um mau casaco.

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VÊ EXCERTO DE “MADE IN MILAN”

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É por isso que “Made in Milan” torna esta homenagem particularmente saborosa. Quando Scorsese se aproxima de Armani, em 1990, não o faz por curiosidade lateral. Reconhece nele outro autor, alguém igualmente obcecado com o detalhe, o ritmo, a presença e o controlo do olhar. O filme acompanha Armani na preparação de um desfile e transforma esse processo numa reflexão sobre estilo, identidade e visão artística. Isso aproxima duas artes que muita gente ainda insiste em separar à bruta: cinema e moda. Como se uma fosse séria e a outra frívola. Scorsese percebe que Armani trabalha como um realizador: repete, elimina, afina, depura, organiza volumes e presenças. No fundo, partilham a mesma obsessão: controlar aquilo que o olhar recebe para produzir emoção, memória e sentido.

Elegância, essa heresia contemporânea

Por sua vez, “Armani racconta Armani”, produzido pela RAI em 1987, funciona como um autorretrato mais íntimo e revelador, cruzando memórias familiares e profissionais, reflexões sobre o carácter, os defeitos, as amizades, o estilo de vida, Piacenza — a cidade onde nasceu, em 1934 — e Pantelleria. Se Piacenza é a origem, Pantelleria foi o refúgio espiritual de Giorgio Armani durante mais de 40 anos. Esta ilha vulcânica selvagem, situada entre a Sicília e a Tunísia, tornou-se o seu santuário de verão e uma das suas maiores fontes de inspiração criativa.

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VÊ TRAILER DE “TUDO BONS RAPAZES”

Ou seja, este filme mostra não apenas a marca, mas o homem. E isso importa, porque o nome Armani corre hoje o risco de soar a logótipo fossilizado, quando foi, durante décadas, um organismo vivo, uma disciplina, quase uma religião do corte. Dizer bem de Armani em 2026 pode soar, para certas almas contemporâneas, a um gesto conservador. Vivemos num tempo em que a desarrumação performativa virou virtude e em que aparecer publicamente com ar de quem dormiu dentro de um contentor é vendido como autenticidade. Armani representava o contrário: disciplina, forma, coerência, elegância como método. E isso incomoda sempre num mundo viciado em ruído, novidade histérica e espetáculo de quinta categoria.

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O estilo como ideologia (e não como tendência)

Armani não vestia apenas atores. Vestia ideias de masculinidade, feminilidade, dinheiro, estatuto e desejo. Vestia o capitalismo bonito, o poder discreto, a ambição com bom corte, a sedução que entra numa sala e concentra os olhares. Durante anos, milhões de espectadores viram filmes convencidos de que estavam apenas a seguir a narrativa. Não estavam. Estavam também a aprender uma pedagogia visual do sucesso, da autoridade e do erotismo. Por isso, esta homenagem não é só para amantes de moda ou cinéfilos de nicho. É para qualquer pessoa que já tenha visto uma personagem e pensado: é assim que o poder se devia apresentar. Mesmo quando esse poder era moralmente duvidoso, criminalmente criativo ou afetivamente desastroso. O cinema adora canalhas bem vestidos porque sabe que o mal entra melhor quando tem bom caimento.

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Richard Gere by Giorgio Armani.
Richard Gere aparece em “American Gigolo”, em 1980, vestido por Armani. ©Paramount Pictures

Há qualquer coisa de justa nesta homenagem em Lisboa. Giorgio Armani foi um dos grandes arquitetos invisíveis da presença no cinema contemporâneo. Nunca precisou de gritar para se impor. Fez ao vestuário o que alguns realizadores fazem ao enquadramento: retirou-lhe excesso até ele começar a respirar. No fim de contas, talvez seja isso que distingue os verdadeiramente grandes: não precisam de entrar em cena para dominar a cena. Armani quase nunca foi figurante. Foi sempre mise-en-scène. A sessão é gratuita, mediante levantamento de bilhete no próprio dia.

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