No centro de tudo está Rosa, interpretada por Jani Zhao. ©Tomás Duarte Pedro/Nos Audiovisuais/Divulgação

“Projecto Global”: Quando a Revolução Saiu à Rua e Levou uma Arma

Em “Projecto Global”, o novo filme de Ivo M. Ferreira, as FP-25 regressam não como lenda, nem como nota de rodapé, mas como sintoma moral de um país que continua a celebrar Abril e a fugir da sua ressaca.

“Projecto Global”, de Ivo M. Ferreira (“Cartas da Guerra”), estreia agora nas salas portuguesas e faz uma coisa rara no cinema nacional: pega num tema que continua a incomodar Portugal e recusa tratá-lo com pinças. O assunto são as FP-25, a violência política dos anos 80, a ressaca do pós-25 de Abril e a forma como uma certa ideia de revolução, quando não aceita a realidade, pode acabar a falar a linguagem das armas. Não é um filme para efemérides sorridentes nem para patriotas de lapela bem composta. É um thriller político sujo, ambíguo e nervoso, e necessário que alerta para a violência vinda ela de onde vier.

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Projecto Global
José Pimentão é o inspector que persegue os clandestinos. ©Tomás Duarte Pedro/Nos Audiovisuais/Divulgação

Ivo M. Ferreira não quis fazer um manual de História nem um tribunal moral em formato cinema. Pelo contrário: “quando o cinema reduz tudo a bons e maus, acabou. Deixa de me interessar.”, diz o realizador. E essa frase explica quase tudo. O filme “Projecto Global” não transforma os seus militantes e activistas revolucionários em monstros de papelão nem em heróis de calendário. Faz uma coisa mais difícil: olha para eles como pessoas. Pessoas com afectos, convicções, raiva, medo, desejo, amizade e erro. E isso basta para tornar o filme mais incómodo do que muita conversa pública portuguesa sobre estes anos de instabilidade que procederam à Revolução dos Cravos.

Abril murchou, mas a ressaca ficou

O filme acompanha Rosa, Queiroz, Jaime e Marlow num retrato ficcionalizado dos chamados anos de chumbo portugueses. O que está em jogo não é apenas a actividade armada das FP-25, mas o estado mental de uma geração ou de uma franja dela que achou que a revolução não tinha acabado, que a democracia nascente era insuficiente, ou até uma traição, e que a História ainda podia ser forçada à bala. “Projecto Global” entra aí sem nostalgia e sem catecismo. E há qualquer coisa de particularmente certeira na forma como Ferreira filma esse desfasamento: gente que continua a falar a língua da revolução quando o país já começou a aprender a gramática mais morna da normalização democrática. Não são apenas personagens politizadas; são personagens desreguladas por uma convicção. E o realizador insiste no ponto essencial: “Este filme é sobre dúvida. Sobre erro. Sobre ambiguidade moral.” Porque é exactamente essa ambiguidade que lhe dá espessura e o impede de cair na facilidade do panfleto.

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Um thriller com corpo, ruído e ferida

“Projecto Global” funciona também porque assume sem vergonha a sua dimensão de thriller político. Há assaltos, perseguições, bombas, escutas, fugas, operações policiais. Mas o melhor do filme não está só na mecânica da tensão. Está no modo como toda essa acção exterior prolonga um tumulto interior. O verdadeiro campo de batalha está nas cabeças das personagens, na forma como justificam o injustificável, na rapidez com que uma ideia de justiça se contamina com fanatismo. No centro de tudo está Rosa, interpretada por Jani Zhao, a figura mais forte do filme. Não porque seja transparente, mas porque não é. Nela cruza-se maternidade, desejo, clandestinidade, convicção política e desagregação íntima. Rosa não é uma tese, é um corpo em conflito. À sua volta movem-se cúmplices, amantes, polícias e companheiros de causa, todos apanhados numa engrenagem em que o afecto e a ideologia já não se distinguem com facilidade.

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Projecto Global
O filme é uma constante acção de fuga dos operacionais das FP-25. ©Tomás Duarte Pedro/Nos Audiovisuais/Divulgação

Ferreira diz que queria fazer “um cinema em que sentimos que entramos a meio da vida das personagens”. E sente-se isso a cada passo. O filme não apresenta, atira-nos para dentro. Não organiza o caos com excesso de zelo. Deixa que a matéria respire, tropece e por vezes se espalhe. É um risco. Mas é um risco vivo.

A violência começa antes do tiro

Talvez a ideia mais forte de “Projecto Global” seja esta: a violência não começa quando alguém puxa do gatilho. Começa muito antes, quando uma convicção se torna absoluta e deixa de admitir mundo à volta. O próprio realizador resume isso de forma brutal: “A violência não nasce do ódio. Nasce da convicção de que estamos certos.” É uma frase que serve para o filme, para o passado e, infelizmente, para o presente. Porque “Projecto Global” fala dos anos 80, mas não está fechado neles. O filme reverbera no tempo actual, num momento em que o discurso político volta a endurecer, a simplificação volta a ser vendida como coragem e demasiada gente parece achar que pensar é só escolher trincheira. Nesse sentido, o filme vale menos como reconstituição histórica do que como aviso. Há também uma dimensão pessoal que lhe dá verdade. Ferreira fala de memórias de infância marcadas por “um cheiro a clandestinidade, a perigo”. Esse cheiro atravessa o filme. Não estamos apenas perante uma reconstrução de época; estamos perante uma memória absorvida pelo corpo, um ambiente vivido de perto, um mundo em que as conversas se sussurravam e a política podia entrar pela porta com rumor policial atrás.

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Projecto Global
Ivo Canelas é o Inspector-chefe da PJ, que tem o cas das FP-25 nas mãos. ©Tomás Duarte Pedro/Nos Audiovisuais/Divulgação

Imperfeito, mas vivo

Nem tudo resulta por inteiro. A duração pesa. Há personagens laterais que prometem mais do que cumprem. O filme por vezes alonga-se e dispersa-se. Mas prefiro isso a mais um filme português todo muito certinho, arrumado e morto por dentro. “Projecto Global” arrisca excesso, ambição e desordem. Falha por excesso, não por anemia. E isso dá-lhe vida. No fundo, o que Ivo M. Ferreira faz aqui é recusar a preguiça moral. Não absolve, não santifica, não demoniza de forma fácil. Obriga-nos a olhar para uma parte da História recente que Portugal continua a preferir encaixotar entre o embaraço, o esquecimento e a conversa mal resolvida. Portugal gosta muito de Abril, desde que Abril não fale demasiado alto. Gosta do símbolo, nem sempre gosta da ressaca. “Projecto Global” vai à ressaca. E faz muito bem. É um filme desconfortável, desigual, por vezes excessivo, mas raro. E, no cinema português, o raro ainda é uma forma de elogio bastante séria.

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JVM

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