Fatih Akin abriu o Zinemaldia/Festival de San Sebastián com fantasmas adolescentes, Fred Cavayé voltou a meter Jean Valjean e Javert frente a frente e Werner Herzog recebe o Donostia. San Sebastián começou entre mortos, condenados e um cineasta alemão que nunca reconheceu a palavra normalidade.
Primeiro dia de Festival de San Sebastián e a organização decidiu não facilitar a vida a ninguém. Logo de manhã, Geister / Ghost Song, de Fatih Akin, pôs uma rapariga morta a visitar durante quarenta noites os sonhos do rapaz por quem se apaixonou poucas horas antes de morrer. Pouco depois, Os Miseráveis, de Fred Cavayé, devolveu-nos Jean Valjean, Javert, Fantine, Cosette, barricadas, injustiça social e quase três horas de Victor Hugo. À noite, Werner Herzog recebe o Prémio Donostia das mãos de Orlando Bloom. Mortos, miseráveis e Herzog no mesmo dia: o Zinemaldia/Festival de San Sebastián começou com uma programação que, pelo menos, não corre o risco de ser confundida com uma tarde de televisão generalista.
Fatih Akin descobriu que os fantasmas também pertencem à Geração Z
Ghost Song é uma mudança curiosa no percurso de Fatih Akin, o germano-turco de Contra a Parede, Do Outro Lado, Em Pedaços e, mais recentemente, Amrum. Farasha e Faris têm vinte anos, encontram-se numa festa de finalistas, apaixonam-se imediatamente e ela morre nessa noite. Seria uma história de amor bastante curta não fosse Farasha descobrir que pode visitar o rapaz nos sonhos durante quarenta noites.
Akin chamou-lhe “cinema de autor para adolescentes”, expressão suficientemente perigosa para assustar simultaneamente distribuidores, adolescentes e alguns críticos de cinema. Mas percebe-se a intenção. Influenciado pela anime, pela manga, por Miyazaki, Your Name ou A Silent Voice, Akin tenta aproximar o seu cinema de uma geração que já não tem Hollywood como único alfabeto visual. O filme é rodado a preto e branco, mergulha na espiritualidade islâmica da educação do realizador e mistura primeiro amor, morte, suicídio, luto e sobrenatural sem transformar tudo numa sessão de terapia com iluminação artística.
O melhor de Ghost Song está justamente na recusa de explicar demasiado. O fantasma não precisa de preencher formulários nem de justificar administrativamente o regresso ao mundo dos vivos. Existe porque existe desejo, perda e a incapacidade de aceitar que aos vinte anos alguém possa desaparecer definitivamente. Akin troca a violência física e social que tantas vezes atravessou o seu cinema por outra mais íntima: perceber que amar alguém não significa poder conservá-lo. É uma abertura melancólica, estranha e visualmente sedutora, o que já é bastante melhor do que abrir um festival com um filme tão correcto que, meia hora depois, ninguém se lembra de o ter visto.
Jean Valjean outra vez? Sim. E continua a fazer sentido
Depois tivemos Os Miseráveis, de Fred Cavayé. Outra adaptação de Victor Hugo. Outra vez Jean Valjean. Outra vez Javert. Outra vez o pão roubado que se transformou no produto de padaria com maior carreira cinematográfica da História.
A novidade está sobretudo nos actores. Vincent Lindon é Jean Valjean e parece ter nascido preparado para o papel. Há rostos que precisam de maquilhagem para sugerir sofrimento; Lindon precisa apenas de entrar no enquadramento. Tahar Rahim interpreta Javert com a rigidez de quem acredita que a lei resolve tudo desde que seja aplicada com força suficiente. À volta deles aparecem Noémie Merlant, Camille Cottin, Benjamin Lavernhe e um elenco francês suficientemente sólido para sustentar os 178 minutos desta nova viagem ao romance publicado por Victor Hugo em 1862.
Fred Cavayé não tenta modernizar Os Miseráveis à força, nem transformar Jean Valjean num homem traumatizado ou Javert num bom policia e justiceiro. Faz antes um grande drama clássico, musculado, convencional quando é preciso e dependente da presença dos actores. E funciona sobretudo porque a velha discussão de Hugo continua desconfortavelmente actual: o que vale uma lei quando perdeu qualquer relação com a justiça? Quando a ordem se torna obsessão, quando a punição substitui a compreensão e quando a pobreza é tratada como delito, a França do século XIX começa a parecer menos distante do que gostaríamos.
Herzog: um Prémio Donostia para quem nunca quis ser domesticado
Se os filmes dominaram o dia, a personagem principal da noite é Werner Herzog. O realizador de Aguirre, a Cólera de Deus, Fitzcarraldo e O Enigma de Kaspar Hauser recebe o Prémio Donostia depois de quase seis décadas dedicadas a provar que aquilo que parece impossível geralmente só necessita de uma câmara, muita obstinação e alguém suficientemente insensato para avançar.
Herzog chega depois de apresentar em Veneza Bucking Fastard, com Rooney Mara, Kate Mara, Orlando Bloom e Domhnall Gleeson. Duas gémeas que falam em simultâneo, partilham sonhos e amam o mesmo homem: material quase documental, portanto, segundo os padrões de Herzog. Orlando Bloom entrega-lhe esta noite o prémio. Recentemente perguntaram ao realizador por que razão os jovens ainda gostam tanto dos seus filmes. Respondeu, com a elegância possível, que é porque são muito bons. Aos 84 anos, fingir modéstia seria apenas desperdiçar tempo que ainda pode ser utilizado para filmar um vulcão.
E San Sebastián tem muito mais para oferecer nos próximos dias: Brad Pitt em Heart of the Beast, Marion Cotillard em Milo, Jesse Eisenberg com The Debut, Rami Malek em The Man I Love, além de Pablo Larraín, Cristian Mungiu, Andrey Zvyagintsev, Penélope Cruz, Jeremy Irons, Diego Luna, Tsai Ming-Liang e uma quantidade considerável de estrelas, cineastas e produtores a ocupar corredores, hotéis e restaurantes. José Luis Rebordinos despede-se este ano da direção depois de dezasseis edições e Maialen Beloki assumirá o comando em 2027, tornando-se a primeira mulher a dirigir o festival.
Amanhã, Naomi Watts
E amanhã muda a homenageada. Naomi Watts recebe o segundo Prémio Donostia desta edição, entregue pelo realizador espanhol J. A. Bayona, antes da apresentação de The Housewife, primeira longa-metragem de Ben Shirinian, que vamos tentar ver porque está inexoravelmente esgotada, desde que abriram as marcações de bilhetes. A actriz de Mulholland Drive, 21 Gramas, O Impossível, King Kong e Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) chega com duas nomeações para os Óscares e uma daquelas carreiras capazes de passar por David Lynch, Michael Haneke ou Alejandro G. Iñárritu e ainda sobreviver a grandes produções de Hollywood sem perder identidade.
Para primeiro dia, chega perfeitamente. Fatih Akin trouxe-nos mortos que continuam apaixonados, Fred Cavayé lembrou-nos que Victor Hugo continua demasiado actual e Werner Herzog recebe um prémio por uma carreira passada a demonstrar que a realidade é apenas uma versão preliminar da imaginação. San Sebastián começou assim: entre fantasmas, miseráveis e cineastas que se recusam a comportar-se como pessoas razoáveis. Felizmente.
JVM


