© Tina Rowden/Netflix

Dolly Parton e Tim Curry morreram no mesmo dia e tinham ambos 80 anos. Ela fez das lantejoulas, do cabelo impossível e da música country uma declaração de independência; ele transformou saltos altos, maquilhagem e vilões deliciosamente perversos numa arte. Duas carreiras muito diferentes, uma extraordinária maneira de nunca se negarem a ocupar demasiado espaço e atenção.

A 25 de Agosto de 2026, a cultura popular perdeu, com poucas horas de intervalo, duas pessoas que pareciam ter sido inventadas por alguém com manifesta alergia à discrição. Dolly Parton morreu em Nashville. Tim Curry morreu em Los Angeles. Tinham ambos 80 anos, tinham nascido em 1946 e passaram décadas a demonstrar que o bom gosto é uma categoria bastante sobrevalorizada quando comparada com talento, inteligência, humor e personalidade. À primeira vista, juntar Dolly e Curry na mesma crónica pode parecer um ideia concebida depois de três Martinis. Ela, filha do Tennessee rural, rainha absoluta do country, compositora de Jolene e I Will Always Love You, empresária, actriz, filantropa, monumento capilar e instituição americana. Ele, inglês, actor de teatro, cinema e televisão, cantor, mestre da voz, especialista em criaturas suspeitas e responsável por algumas das entradas em cena mais memoráveis da cultura pop dos anos 70. Bastam cinco minutos, porém, para perceber que pertenciam à mesma espécie rara: artistas que construíram uma imagem excessiva e tiveram inteligência suficiente para mandar nela em vez de serem engolidos por ela.

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VÊ TRAILER DE “I WILL ALWAYS LOVE YOU” DOLLY PARTON

O direito ao excesso

Dolly passou a vida vestida como se todas as noites fossem passagem de ano em Las Vegas e explicava as suas escolhas antes que os outros tivessem tempo de troçar delas. O truque era precisamente esse: ninguém conseguiria caricaturar Dolly Parton melhor do que Dolly Parton. Por baixo das perucas, unhas, decotes, strass e piadas sobre o próprio peito estava uma extraordinária compositora, uma empresária temível e uma mulher que compreendeu cedo como sobreviver num negócio dirigido por homens que confundiam simpatia com ingenuidade.

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No cinema percebeu-se rapidamente o mesmo. Em Das Nove às Cinco (1980), de Colin Higgins, apareceu ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin e roubou cenas com a naturalidade de quem aparentemente tinha entrado no estúdio por engano. Afinal sabia representar, tinha timing cómico e ainda escreveu a canção que toda a gente saiu do cinema a cantar. Voltou a Colin Higgins em A Melhor Casa Suspeita do Texas (1982), ao lado de Burt Reynolds, e em Flores de Aço (1989), de Herbert Ross, integrou aquele extraordinário coro feminino onde estavam Sally Field, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Daryl Hannah e Julia Roberts. Dolly nunca precisava de desaparecer dentro de uma personagem. Levava Dolly consigo e fazia a personagem caber lá dentro.

Tim Curry Rocky Horror Picture Show
© 20th Century Fox – All Rights Reserved

Tim Curry procedeu de forma semelhante, só que com ligas, batom e uma expressão capaz de fazer fugir um padre. Dr. Frank-N-Furter, de The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman, podia ter destruído uma carreira convencional. Felizmente, Curry nunca pareceu demasiado interessado numa carreira convencional. Aquela criatura sexualmente insolente, teatral, ambígua, decadente e irresistivelmente divertida transformou-o num ícone antes de Hollywood perceber sequer o que tinha acontecido.

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Dois padroeiros dos que não cabiam na fotografia

É também aqui que Dolly Parton e Tim Curry se encontram de maneira menos óbvia. Ambos acabaram adoptados por gerações de pessoas que se sentiam deslocadas das convenções de género, comportamento, sexualidade ou simples respeitabilidade social. Curry deu-lhes Frank-N-Furter, com a porta escancarada e os saltos altos bem assentes no chão. Dolly ofereceu-lhes uma imagem de feminilidade tão exagerada que acabou por desmontar a própria ideia do que uma mulher deveria parecer, enquanto defendia durante décadas o direito dos outros a viverem como quisessem. Nunca precisaram de transformar isso numa campanha publicitária permanente. Faziam-no vivendo.

E depois existia o humor, arma decisiva dos dois. Curry conseguia interpretar o mordomo de Os Sete Suspeitos (1985), de Jonathan Lynn, como se Shakespeare tivesse sido contratado para apresentar uma farsa policial; podia ser o Cardeal Richelieu de Os Três Mosqueteiros (1993), de Stephen Herek, ou o concierge demasiado atento de Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque (1992), de Chris Columbus. Como Pennywise em It (1990), traumatizou crianças que passaram anos a desconfiar de palhaços, esgotos e balões vermelhos. Uma contribuição social considerável.

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VÊ TRAILER DE “ROCK HORROR PICTURES SHOW”

E ambos chegaram aos Muppets, o que constitui praticamente uma condecoração. Curry foi um magnífico Long John Silver em Os Muppets na Ilha do Tesouro (1996), de Brian Henson, e confessaria com humor que o grande amor da sua vida era Miss Piggy. Dolly cantou com Cocas, conviveu com Miss Piggy e recebeu ainda em vida o estatuto afectivo que qualquer pessoa sensata gostaria de pôr no currículo: aceite pela família Muppet.

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I Will Always Love You de ligas e peruca

A coincidência da morte no mesmo dia forneceu à imprensa um daqueles títulos que parecem escritos por um argumentista demasiado sentimental. Mas funciona porque Dolly Parton e Tim Curry representam uma cultura popular que sabia ser popular sem precisar de ser estúpida. Trabalhavam para multidões, divertiam-nas, exageravam, cantavam, representavam, faziam rir e, pelo caminho, ajudavam muita gente a descobrir que ser diferente podia constituir uma vantagem.

Dolly transformou uma infância pobre nas montanhas do Tennessee num império e usou parte da fortuna para oferecer centenas de milhões de livros a crianças. Curry atravessou um AVC devastador em 2012 sem desaparecer completamente da vida artística e continuou a encontrar-se com admiradores, a trabalhar com a voz e a conservar aquele humor britânico que parecia ter sido temperado em ácido. Partiram aos 80 anos, quase juntos, como se alguém tivesse decidido organizar uma improvável sessão dupla no grande cinema do outro lado: primeiro Dolly, toda de branco, lantejoulas e cabelo suficiente para tapar metade do ecrã; depois Tim Curry, de capa, batom e sobrancelha levantada, perguntando quem tinha autorizado tamanha solenidade. A resposta adequada seria pôr Jolene a tocar, projectar The Rocky Horror Picture Show, abrir uma garrafa e esquecer por uma noite a obrigação contemporânea de sermos todos tão impecavelmente normais. Dolly Parton e Tim Curry passaram oitenta anos a provar que a normalidade dá imenso trabalho e produz péssimas fotografias. Ainda bem que nunca perderam tempo com ela.

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