Com o CineEco 2026, a cidade de Seia na Serra da Estrela, volta a transformar-se, de 9 a 17 de outubro, numa pequena capital mundial do cinema ambiental. A 32.ª edição põe em competição filmes de 34 países e prova que ecologia no cinema já não significa apenas árvores bonitas, baleias em perigo e documentários destinados a fazer-nos sentir culpados depois do jantar.
Durante nove dias, Seia terá mais problemas para resolver do que muitas reuniões do G20. Alterações climáticas, exploração de recursos naturais, colonialismo, migrações ambientais, agricultura, energias renováveis, biodiversidade, culturas indígenas, urbanismo, ativismo, incêndios, javalis, renas, cavalos e, claro, o futuro da civilização. Tudo isto cabe na 32.ª edição do CineEco — Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, que decorre entre 9 e 17 de outubro e anuncia 87 filmes em competição provenientes de 34 países. Foram submetidas 410 obras e a programação total chega aos 106 filmes. Há quem faça festivais de cinema. O CineEco decidiu ocupar-se do planeta inteiro.
A boa notícia é que o chamado «cinema ambiental» deixou há muito de constituir um género cinematográfico destinado exclusivamente a espectadores capazes de distinguir sete variedades de musgo. O que a seleção de 2026 mostra é precisamente o contrário: falar do ambiente é hoje falar praticamente de tudo. Da economia à política, da pobreza à energia, das migrações ao colonialismo, da tecnologia às relações entre comunidades, empresas e Estados. E também de pessoas que gostariam simplesmente de continuar a viver onde sempre viveram sem descobrirem, numa terça-feira de manhã, que o progresso decidiu instalar-lhes uma mina, um parque eólico ou um hotel à porta.
De Cannes aos javalis

Só a Competição Internacional de Longas-Metragens reúne dez filmes em estreia absoluta em Portugal, vários deles vindos de festivais como Cannes, Roterdão, Sundance, Visions du Réel, CPH:DOX ou Salónica. E é aqui que começa a perceber-se como o CineEco consegue escapar àquela espécie de missa ecológica em que todos já sabemos antecipadamente quem são os santos, os pecadores e a mensagem final.
On the Sea, de Helen Walsh, leva-nos para uma comunidade piscatória galesa onde tradição e natureza nem sempre conseguem permanecer casadas. Já L’Espèce Explosive, de Sarah Arnold, premiado com o Europa Cinemas Label na Quinzena dos Cineastas de Cannes, consegue colocar agricultores, caçadores e javalis dentro da mesma comédia. Finalmente alguém percebeu que a coexistência entre espécies também podia ter sentido de humor.
Em Let Our Mountains Live, de Håvard Bustnes, pastores sami enfrentam a instalação de um enorme parque eólico; em Iron Winter, Kasimir Burgess acompanha dois amigos empenhados em proteger dois mil cavalos durante o inverno da Mongólia. Isto também ajuda a desmontar uma das simplificações mais confortáveis do debate contemporâneo: nem tudo aquilo que chega embrulhado na palavra «verde» deixa automaticamente de produzir conflitos, interesses e vítimas.
Mais politicamente incómodos são Kikuyu Land, filmado nas plantações de chá das terras altas do Quénia, e Materia Prima, sobre a exploração das reservas de lítio da Bolívia. O colonialismo mudou de vocabulário, melhorou os PowerPoints e aprendeu a falar de sustentabilidade, mas aparentemente continua a gostar bastante de matérias-primas. Black Water, por sua vez, acompanha refugiados no Bangladesh confrontados com a subida do nível do mar, enquanto Derek vs Derek transforma os conflitos em torno da produção agrícola numa comédia. A catástrofe climática, percebe-se, tem vários géneros cinematográficos disponíveis.
O planeta também fala português

A competição de longas-metragens em língua portuguesa inclui uma curiosidade particularmente estimulante: Yellow Cake, de Tiago Melo, ficção especulativa brasileira produzida por Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. Ao lado dela aparecem Nimuendajú, de Tania Anaya, Rua do Pescador nº 6, de Bárbara Paz, os portugueses Água Mãe, de Hiroatsu Suzuki e Rossana Torres, e O Avesso do Mundo, de Rita Palma, além de Baía dos Tigres, de Carlos Conceição. Ou seja, a língua portuguesa também serve perfeitamente para discutir o apocalipse, coisa que, conhecendo a nossa histórica vocação para a melancolia, nem chega propriamente a surpreender.
Nas curtas e médias-metragens, o mapa torna-se ainda mais vasto. Há 31 filmes na competição internacional sobre recursos naturais, territórios ameaçados, sustentabilidade, povos nativos ou urbanismo, e 14 obras na competição em língua portuguesa. Pelo meio aparecem trabalhos nascidos de uma residência cinematográfica orientada por Werner Herzog — o que, convenhamos, já torna qualquer conversa sobre mudanças climáticas ligeiramente mais ameaçadora —, filmes sobre pássaros, anfíbios, reflorestação, culturas tradicionais e até o primeiro hotel que ameaça transformar uma cidade costeira mexicana. E há ainda a inevitável relação com a Serra da Estrela. A Competição Panorama Regional reúne filmes ligados ao território e às suas comunidades, enquanto Lições de Fogo, do finlandês John Webster, será exibido fora de competição: um documentário sobre incêndios em Portugal rodado em Castelo Branco e no Sabugueiro. Num país que todos os verões redescobre, surpreendidíssimo, que existe fogo em agosto, talvez não seja má ideia ver cinema sobre o assunto em outubro.
Cinema antes que seja tarde
O CineEco existe desde 1995 e tornou-se um dos mais antigos festivais de cinema ambiental do mundo. Mantém entrada gratuita, programação competitiva, conferências, workshops, concertos, exposições e extensões durante o resto do ano. Há qualquer coisa de discretamente extraordinário nisto: enquanto boa parte da indústria cinematográfica continua concentrada em descobrir qual será o próximo super-herói a salvar o universo, em Seia há um festival a perguntar se talvez fosse útil salvar primeiro o planeta onde estão instaladas as salas de cinema.
E talvez seja essa a verdadeira importância do CineEco. Não convencer convertidos, nem transformar cada sessão numa aula de educação ambiental, mas usar o cinema para devolver complexidade a assuntos que as redes sociais reduziram a slogans e indignações de quinze segundos. O ambiente não é uma secção especializada da realidade. É a realidade. É economia, política, território, memória, comida, migração, poder, desigualdade e sobrevivência.
Quanto aos números, fica ainda uma pequena ironia ecológico-aritmética: o título do comunicado de imprensa da organização anuncia 87 filmes em competição, enquanto mais adiante o próprio texto refere 86 obras nas seis competições principais. Nada de particularmente grave. Perante o estado do planeta, um filme para cima ou para baixo talvez seja mesmo o menor dos nossos problemas.
JVM


