Guerrilha no Asfalto: a revolução acabou, mas Edgar Pêra ainda tem dinamite | Doclisboa 2026 (filme de abertura)

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As FP-25, uma ponte destruída, filmes impossíveis e uma boa dose de loucura cinematográfica. Edgar Pêra abre o Doclisboa 2026 com uma tragicomédia política que também ajusta contas com a sua própria carreira. E com um cinema português que continua a ter mais ideias do que dinheiro.

A Ponte 25 de Abril continua de pé. Convém esclarecer, porque quem vir Guerrilha no Asfalto, o novo filme de Edgar Pêra, poderá ficar com algumas dúvidas. O realizador manda-a pelos ares, parte-lhe o tabuleiro e transforma um dos principais símbolos da engenharia portuguesa num espectáculo de destruição cinematográfica. As imagens são impressionantes, suficientemente realistas para assustar quem atravessa diariamente o Tejo e suficientemente absurdas para percebermos que estamos perante um filme de Edgar Pêra. O homem não precisa de explosivos verdadeiros. Basta-lhe uma câmara, tecnologia digital e uma imaginação que nunca respeitou os limites do orçamento.

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Depois da estreia mundial no Festival de Locarno, Guerrilha no Asfalto foi escolhido para inaugurar, a 24.ª edição do Doclisboa. Uma opção que diz bastante sobre o espírito desta edição: menos certezas sobre o que é um documentário, mais perguntas sobre a realidade, a memória e a manipulação das imagens. Com 198 filmes de 51 países, o festival regressa a Lisboa para lembrar que o cinema documental não tem de se comportar como uma reportagem televisiva com pretensões artísticas.

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Quando a revolução se transforma numa comédia negra

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O ponto de partida é Guerrilha no Asfalto — As FP-25 e o Tempo Português, livro de Manuel Ricardo Sousa sobre uma das páginas mais violentas e contraditórias da democracia portuguesa. Nos anos oitenta, as FP-25 continuavam a acreditar na revolução quando a maioria dos portugueses já estava preocupada com coisas bastante menos ideológicas, como pagar a renda, comprar automóvel ou descobrir as vantagens dos primeiros cartões de crédito. Edgar Pêra recupera esse universo de clandestinidade, assaltos e terrorismo através da história de um estudante aparentemente pacato que acaba envolvido numa organização armada. O desfecho é brutal: baleado e linchado por uma multidão depois de um assalto a banco. A utopia revolucionária encontra finalmente o povo. Só que o povo não estava à sua espera para o aplaudir.

O realizador percebe uma coisa que nem sempre os filmes políticos compreendem: o absurdo não diminui a violência, antes pode torná-la ainda mais perturbadora. As operações de guerrilha misturam convicções ideológicas com uma extraordinária incompetência prática. Militantes convencidos de que estavam a mudar o mundo comportam-se, por vezes, como figurantes de uma comédia policial que correu muito mal. Ivo M. Ferreira também abordou esse período em Projecto Global, mas Pêra procura outra coisa: a dimensão grotesca de uma época em que alguns confundiam fidelidade à revolução com o direito de disparar sobre os outros.

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Um cineasta também pode ser um guerrilheiro

Guerrilha no Asfalto - DocLisboa
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A verdadeira surpresa chega quando percebemos que Guerrilha no Asfalto não é apenas um filme sobre as FP-25. É também sobre Edgar Pêra e a sua longa guerra pessoal contra os limites impostos à criação cinematográfica. O realizador transforma o projecto numa espécie de autobiografia desarrumada, povoada por filmes concretizados, filmes abandonados e outros que, provavelmente, continuam a existir apenas na sua cabeça.

Albano Jerónimo participa nesta viagem pelo passado, cruzando a narração com a voz do próprio Pêra. Surgem projectos de cinema negro pelas ruas e telhados de Lisboa, o Cinema Éden desenhado por Cassiano Branco, perseguições espectaculares, explosões e cenários apocalípticos. A abertura, com uma perseguição automóvel digna de um filme de acção americano, demonstra que Pêra também sabe fazer cinema convencional quando lhe apetece. O problema é que raramente lhe apetece durante muito tempo.

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Desde Manual de Evasão LX94, com Terence McKenna, Robert Anton Wilson e Rudy Rucker, até O Barão, Não Sou Nada ou Cartas Telepáticas, a sua obra tem sido uma permanente tentativa de transformar o cinema num laboratório de experiências. Pelo meio, realizou Movimentos Perpétuos, dedicado a Carlos Paredes, e até uma comédia popular, Virados do Avesso, que levou mais de cem mil espectadores às salas. Não lhe alterou os hábitos. Edgar Pêra continua a preferir os caminhos secundários, mesmo quando a auto-estrada está vazia.

Em Guerrilha no Asfalto, regressam os fantasmas da contracultura e das suas antigas obsessões filosóficas, incluindo Terence McKenna e os seus universos psicadélicos. A inteligência artificial permite agora recuperar visualmente algumas ideias que nunca tiveram financiamento. Pode discutir-se a legitimidade destas novas ferramentas, mas seria estranho exigir precisamente a Pêra que recusasse uma tecnologia só porque ela incomoda os puristas.

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O cinema mente. O espectador que descubra a verdade

A utilização de imagens fabricadas digitalmente levanta, aliás, algumas das questões mais interessantes do filme. Quando vemos a Ponte 25 de Abril desmoronar-se, estamos perante uma mentira visual construída com uma precisão assustadora. E quantas imagens que diariamente consumimos como verdadeiras não assentam exactamente no mesmo mecanismo? Pêra não resolve o problema, nem parece particularmente interessado em fazê-lo. Prefere explorar as possibilidades da fraude cinematográfica, confrontando o arquivo histórico com a ficção, a memória pessoal e a realidade artificial. É uma operação estimulante, embora nem sempre disciplinada. O excesso faz parte do seu método. Algumas sequências poderiam beneficiar de maior contenção e determinados desvios autobiográficos parecem destinados sobretudo aos conhecedores da sua filmografia. Mas exigir contenção a Edgar Pêra seria como pedir a um músico punk que tocasse mais baixinho para não incomodar os vizinhos. Rodrigo Areias, produtor da Bando à Parte, merece por isso uma palavra especial. Imagino o esforço necessário para acompanhar um realizador capaz de transformar uma história sobre terrorismo português num filme sobre cinema, ficção científica, filosofia, autobiografia e destruição de infra-estruturas nacionais. A contabilidade deve ser tão dramática como algumas das sequências.

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Um filme de abertura em tom de síntese

A escolha deste filme para abertura do Doclisboa 2026 não é, portanto, um simples gesto de reconhecimento de um realizador português. Funciona como um manifesto de programação. A retrospectiva de Lino Brocka, o cineasta filipino que utilizou o melodrama para denunciar a violência política e social do seu país, a recuperação dos arquivos cinematográficos da Palestina e o encerramento com Alain Cavalier revelam diferentes maneiras de confrontar a História através das imagens. O passado não interessa apenas pelo que aconteceu, mas também pela forma como foi contado, escondido ou transformado. No final de Guerrilha no Asfalto, José Afonso canta O Que Faz Falta. É uma escolha particularmente irónica para um filme que revisita uma organização que acreditava poder salvar a revolução pelas armas. A canção conserva a sua força, mas não serve de justificação retrospectiva para os disparates e crimes cometidos em nome de Abril. Edgar Pêra parece ter chegado a uma conclusão bastante mais interessante: se a revolução política terminou, a cinematográfica continua disponível. E, ao contrário das FP-25, não precisa de assaltar bancos nem de disparar sobre ninguém. Basta-lhe convencer Rodrigo Areias a financiar a próxima explosão.

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JVM 7/10

Guerrilha no Asfalto

Conclusão

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Com Guerrilha no Asfalto, Edgar Pêra transforma os fantasmas da revolução numa provocação cinematográfica que também serve de ajuste de contas com o seu próprio percurso. Entre o terrorismo político, os filmes impossíveis e a inteligência artificial, constrói uma obra tão excessiva quanto fascinante, onde a memória e a ficção se atropelam sem grandes preocupações com o código da estrada. Uma escolha certeira para abrir o Doclisboa 2026. Afinal, num cinema português frequentemente condicionado pelos orçamentos, Pêra continua a provar que a imaginação é a única coisa que não aceita cortes.

Overall
7/10
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O melhor: A liberdade criativa, o humor corrosivo e as espectaculares sequências de acção e destruição, sobretudo a explosão da Ponte 25 de Abril. Edgar Pêra no seu melhor: imprevisível, provocador e cinematograficamente indisciplinado.

Cons

O pior: A dispersão narrativa e alguns excessos autobiográficos que tornam o filme demasiado hermético para quem não conhece a obra do realizador. Nem todas as ideias mereciam sobreviver à montagem.


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