"A Praga" | © Films4You
google news

Um pouco por todo o mundo, onde quer que esses animais sejam espécies autóctones, tem-se vindo a verificar um fenómeno inquietante. Javalis selvagens, outrora senhores dos matos e das florestas, saem dos seus domínios ancestrais e invadem zonas habitadas por humanos. Num contexto rural, são o pesadelo dos agricultores que veem sua vivência ser espezinhada ou mesmo devorada por esses suínos em aparente expansão territorial. Como é evidente, trata-se de um problema ecológico, uma redução do habitat natural dos bichos, a perda de predadores naturais vítimas do mesmo fado, em conjugação com outros fatores originários na mão humana – mudanças climáticas aceleradas, por exemplo – que proporcionam a explosão populacional da espécie.

Perante um problema tão generalizado, era só uma questão de tempo até que algum cineasta se inspirasse nesta guerra entre os javalis e a gente. Já o vimos numa linha mais experimental, nos projetos multimédia de Elsa Brès, mas os exoterismos desses trabalhos mantiveram-nos bem longe do mainstream. Mais perto de um cinema acessível, temos a nova obra de Sarah Arnold, uma artista francesa em estreia como realizadora de longas-metragens. “A Praga”, conhecida como “L’espèce explosive” no original e “Too Many Beasts” no mercado anglófono, teve estreia mundial na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes deste ano, onde competiu em várias categorias e acabou por ganhar o prémio da Europa Cinemas.

Pub
Lê Também:
Epic Games oferece 2 jogos grátis para PC no valor de 30€

Por cá, teve a sua antestreia dentro da Competição Oficial da 27ª Festa do Cinema Francês, sendo um dos poucos títulos a concurso com distribuição nacional assegurada. Neste caso, será a Films4You a trazer “A Praga” às salas de cinema em todo o país, nalguma data futura, ainda por averiguar. Foi também um dos dois filmes a ganhar prémio, escolhido a dedo pelo júri da festa que decidiu conceder uma menção honrosa a Ella Rumpf, atriz suíça muito elogiada durante a Festa de Encerramento pelos seus talentos para a comédia. Aliás, reforçou-se muito a ideia de quão raro é ver filmes como “A Praga” num contexto de festival.

Porque, não obstante os muitos outros géneros com que joga, esta é, sem sombra de dúvida, uma comédia para rir à grande e à francesa. Mas, como o referido jogo implica, há elementos adicionais a considerar em “A Praga.” Esta é uma fita tão dada à farsa como ao suspense, à paranoia de um filme de conspiração e à estranheza de um policial em jeito surrealista, em dívida com “Twin Peaks”, de David Lynch e Mark Frost. Essa última referência torna-se óbvia quando a ação principal se afirma perante o espectador, mas, antes disso, Sarah Arnold preparou-nos um prólogo bem intrigante. Nele, vemos a fúria dos agricultores cujos campos têm sido atacados pela marcha imparável dos javalis.

Pub

O Homem contra a Natureza, o Homem contra si mesmo.

festa do cinema frances a praga critica
© Films4You

À porta da câmara municipal, eles exigem que se faça algo para proteger as colheitas e culpam as proporções gigantescas dos bichos nas débeis contingências que o município tem levado a cabo – nomeadamente, colocar postos de alimentação dentro do bosque na esperança de que os javalis de barriga cheia não sintam necessidade de invadir os terrenos à volta. Tudo isto observamos através de um olhar meio sardónico, com planos de câmara a voar, suspensa num drone, e música intensa, um registo humorístico mais caricato do que naturalista e um dramatismo latente no modo como se filmam as caras dos queixosos.

Um deles é Raoul Le Brun, que, de dia, alimenta os animais na floresta, mas, à noite, tenta defender seus campos dos javardos insaciáveis. É brutalizado nessa batalha, com nódoas negras e feridas que só contribuem mais dor à sua expressão amarga. Numa casa cheia de troféus de caça, infeliz herança paterna, ele parece começar a perder noção da realidade. De manhã, depois de atropelar um javali, Raoul espera pela chegada do dono rico de todo aquele arvoredo. Quando está a uma boa distância, saca a espingarda e dá-lhe um tiro. Passado um ano, Le Brun tornou-se uma lenda local, e há quem diga que o homem, desaparecido desde aquele homicídio e a subsequente mutilação do cadáver, ainda assombra o bosque.

Pub

É como se o folclore pagão que outrora dominava esta ruralidade gálica tivesse renascido no rescaldo destas violências. Ou então, é uma desculpa dos ricalhaços da zona para justificar os cadáveres de javalis atropelados que alguém insiste em deixar às suas portas. A história da “Praga” realmente começa com a chegada de dois forasteiros à força policial provinciana, como Dale Cooper, sem nenhum do otimismo ou da filosofia New Age com que Kyle MacLachlan abençoou as TVs do mundo todo há quase quarenta anos. São eles Fulda Orsini, um polícia córsico, exilado para esta esquadra no Nordeste depois de agredir um colega, e Stéphane Danjir, a psiquiatra que o outro agente tem que consultar diariamente.

Ao princípio, a relação entre os dois é uma guerra passivo-agressiva. Orsini é um chauvinista ferrenho, perturbado pela rejeição da namorada ao ponto de perder noção da realidade e se tornar violento. Ela é constante vítima da condescendência do Major, dos avanços sexuais de outro polícia e da agressividade ultrajada do seu principal paciente. Contudo, pouco a pouco, a dinâmica vai-se alterando e, entre os dois, floresce um entendimento baseado na fúria que ambos sentem pelo mundo à sua volta. Um mundo que ambos reconhecem estar cheio de corrupção e injustiças, até conspirações locais. E, no fim, como todas as estradas levam a Roma, todo o fio narrativo da “Praga” regressa-nos aos javalis.

Pub

Um filme que devia ter sido expandido em série?

a praga critica festa do cinema frances
© Films4You

Fazer justiça à fita implica manter alguns dos seus segredos, pelo que não revelarei certos “twists” que Arnold e seus coargumentistas, Olivier Séror e Jérémie Dubois, inventaram para explicar e explorar a faceta mais negra e obscura desta comunidade rural. Fica a dica de que este não é um drama orientado por linhas de cinema ambientalista, preferindo teorias mirabolantes de javalis importados e esquemas de gente rica, à comercialização da terra como resort de caça ao porco, em vez das realidades mais complicadas com que nós nos confrontamos fora da fantasia do cinema. Isso poderia fazer resvalar a fita numa certa ideologia reacionária, mas Arnold evita tais fados.

Fá-lo, em parte, pela excentricidade das duas personagens e de toda uma comunidade queer no âmago desta aldeia, desta trama, do conflito destas personagens dentro e fora da sua batalha sem fim contra os javalis selvagens. A ternura marca a diferença, a compaixão de uma realizadora que ama as suas ficções e trata com afeto as suas facetas mais estranhas. Aliás, quanto mais Orsini e Dangir revelam suas idiossincrasias, mais a câmara se apaixona por eles e mais liberdade a realizadora dá aos atores Alexis Manenti e Ella Rumpf para darem asas à imaginação e exibirem quão flexíveis são no torcer a comédia em tragédia e mais além.

Pub
Lê Também:
Clayface | Há convites duplos para a antestreia do filme com Tom Rhys Harries

Uma sequência que descobre os dois forjando cumplicidade sob o efeito de drogas, ao mesmo tempo em que tentam descobrir a verdade sobre a origem de animais com proporções cada vez mais titânicas, marca o melhor dos dois intérpretes. Ou talvez seja a sua negociação da ténue linha que separa o desejo de ser visto na plenitude de quem somos e o desejo carnal, uma ideia meio perversa que chega ao seu clímax numa cena final bem inesperada. Dito isto, nem o génio de Manenti e Rumpf, nem a genialidade de Orisini e Dangir enquanto personagens, salvam “A Praga” de alguns problemas fundamentais. Nomeadamente, um ritmo demasiado apressado e a fartura de ideias a mais para uma estrutura tão modesta.

Falei em “Twin Peaks,” mas a minisséries que o francês Bruno Dumont produziu também em forma de cinema épico, “P’tit Quinquin”, parecem-me um formato mais acertado para o que Arnold pretende fazer com a história de “A Praga.” Na sua forma atual, este filme parece o esboço de algo maior, repleto de pormenores que exigem mais desenvolvimento e relações de personagens às quais se devia prestar mais atenção, talvez até alguma solenidade. Uma conclusão em forma de protesto distante, uma qualquer revolução francesa à escala agrária, parece pedir seguimento, uma reticência em vez de um ponto final. “A Praga” tem muito potencial e digo o mesmo de Arnold enquanto realizadora, mas esse potencial ainda não foi plenamente alcançado.

Pub
A Praga

Conclusão:

  • O problema dos javalis selvagens chega ao grande ecrã num cocktail de géneros com um gosto muito estranho, algures entre a doçura de uma comédia romântica entre gente excêntrica e a acidez da paranoia, a amargura das teorias da conspiração, o picante que surge com a mera sugestão do terror. “A Praga” de Sarah Arnold é de difícil classificação, mas essa polivalência de géneros é dos aspetos que lhe dá mais valor. Especialmente quando considerada como estreia da realizadora nas longas-metragens.
  • Ela consegue fazer um pouco de tudo e, com a ajuda de um elenco e de uma equipa técnica com flexibilidade semelhante, chega a sugerir um herdeiro de “Twin Peaks” ou “P’tit Quinquin” com esta sua “Praga.” Infelizmente, esses são épicos televisivos com vários episódios e a expansividade de uma tapeçaria para desenrolar suas narrativas. “A Praga” nem tem 100 minutos para tentar capturar alguma com essa mesma grandeza. Como tal, acaba por ficar com a aparência de um esboço que alguém não terminou, o esquiço antes de se chegar à obra de arte finalizada.
  • Se o todo não vale tanto quanto as partes, pelo menos as partes são de grande qualidade. Os atores principais merecem especial destaque, com Ella Rumpf recebendo a menção honrosa do júri da 27ª Festa do Cinema Francês. Venham ver suas síncopes tragicómicas e as comparáveis loucuras de Alexis Manenti quando “A Praga” estrear nas salas de cinema portuguesas este novembro, pela mão da distribuidora Films4You.
Overall
7/10
7/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

google news

Sobre o Autor


Leave a Reply