A 24.ª edição do Doclisboa começou no passado dia 15 de outubro e continua até ao próximo dia 25. Com mais de uma centena de obras na sua programação, a Magazine.HD está a acompanhar o festival e traz-te algumas críticas dos filmes em exibição. Parte integrante da secção “Da Terra à Lua”, analisamos “Atlas de la Desaparición” (2026, Manuel Correa).
A longa-metragem em estreia nacional acompanha a busca de familiares pelos seus ente queridos desaparecidos durante o regime franquista em Espanha. O filme foi exibido na passada sexta-feira 16 na Culturgest e volta a ser exibido na sexta-feira 23 às 18h30, igualmente na Culturgest.
A vitória de um regime é a mágoa das famílias
A ascensão do regime franquista em Espanha surge a partir da Guerra Civil Espanhola iniciada em 1936 e que terminou em 1939. O regime vigoraria durante mais 36 anos até 1975.
“Atlas de la Desaparición” procura refletir sobre as repercussões deste regime fascista que procurou apagar a grande maioria das suas vítimas. E não falamos apenas de matar estes resistentes mas também – e, sobretudo – de esconder que alguma vez eles tenham existido.
Tentar descobrir a verdade, a partir de pequenos indícios

“Atlas de la Desaparición” é um documentário que, apesar de refletir sobre um dado momento histórico, quase não utiliza imagens de arquivo. A razão é também bastante simples já que o filme procura desmontar tudo o que o regime franquista deixou em Espanha, escondido na penumbra.
Com o depoimento de alguns familiares que perderam os seus entes queridos durante o regime ditatorial espanhol, entramos num universo obscurecido mas nunca esquecido.
Este é, pois, um documentário poderoso que nos mostra como o regime espanhol de Francisco Franco escondeu qualquer um dos seus opositores nos sítios mais absurdos possíveis. Com fuzilamentos recônditos, o regime franquista deixou corpos escondidos em terrenos ou em buracos arqueológicos. Não só estas mortes foram terríveis como também foram tratadas de forma desprezível, sem qualquer apreço pelos direitos humanos. Muitos foram os familiares que ficaram décadas sem saber sobre o paradeiro dos seus familiares e muitos deles vão continuar a não saber…
A tecnologia em busca da verdade
Não recorrendo necessariamente a registos de arquivo, “Atlas de la Desaparición” traz-nos uma reconstrução tecnológica a partir de mapas digitais e ‘softwares’ de arquitetura. Esta razão prende-se igualmente com o facto de que, entre 1959 e 1981, estes corpos foram transferidos para o Vale dos Caídos, um monumento que se tornou símbolo do regime de Francisco Franco, um símbolo de vitória desprezível. Com muitos dos locais inacessíveis ao olhar humano, a tecnologia de hoje permite-nos, assim, revelar onde foram escondidos estes corpos e sobretudo a forma como foram ‘guardados’ em caixas e ao molho. Muitos deles nem estão identificados, nem estão completos…
Com vários milhares de vítimas, o regime não se preocupou sequer em fazer os registos de forma verosímil. O resultado são várias páginas de registos com nomes ‘desconhecidos’. E isso demonstra a crueza de tratamento deste regime fascista. Se, em Portugal, as prisões do Estado Novo se tornaram símbolos do regime e agora museus pela resistência, o Vale dos Caídos (agora, Vale de Cuelgamuros) é um monumento de maior grandeza e com iguais fins, especialmente após a exumação dos restos mortais de Francisco Franco que se encontrava no centro do monumento, como que a representar um rei a olhar perante os seus sucessos.
“Atlas de la Desaparición” traz-nos uma pequena gota pela memória das vítimas do regime franquista.
Atlas de la Desaparición não é apenas um filme, mas também um projeto de grande importância

“Atlas de la Desaparición” não é um simples documentário sobra a violência do regime de Francisco Franco. O filme mostra-nos ainda uma pesquisa transdisciplinar composta por geógrafos, cineastas, arquitetos e artistas que procuram dar luz a todos as ‘desconhecidas’ vítimas do regime espanhol.
Assim, Manuel Correa encontrou a Oficina de Investigación Documental (OID) que, nos anos mais recentes, pôde começar a procurar respostas para o desaparecimento destas pessoas, após a aprovação do governo de Pedro Sanchéz. Além disso, o realizador inspirou-se na sua experiência como parte do coletivo Forensic Architecture que permitiu, assim, que o filme desse espaço, tempo e memória às vítimas de Franco.
“Atlas de la Desaparición” é, portanto, também o título do trabalho de investigação iniciado em 2022 pela OID e este filme acompanha a par e passo os primeiros momentos dessa pesquisa e os primeiros resultados positivos da mesma. Uma das últimas sequências do filme é precisamente a devolução dos restos mortais às famílias destas vítimas e que nos dá, enquanto espectadores, sentimentos agridoces muito profundos. Um filme poderoso que só peca por algum excesso de gráficos digitais que, obviamente, é contraditório face ao contexto histórico em análise.
Atlas de la Desaparición
Conclusão
- “Atlas de la Desaparición” é um filme que procura dar voz às vítimas ocultadas mas nunca esquecidas do regime fascista espanhol de Francisco Franco.
- Corpos espalhados por toda a Espanha, muitos sem identificação, foram posteriormente transladados para o Vale dos Caídos, um monumento de ostentação do regime franquista.
- A partir de depoimentos de familiares, alguns arquivos e, sobretudo, pela reconstrução digital, o documentário procura dar respostas nem sempre fáceis.
- Um filme fundamental para a compreensão de um regime ditatorial e da História do século XX que só peca por um uso algo excessivo de grafismos digitais que, por vezes, acabam por se tornar distrativos.


