Começou esta quinta-feira 15 de outubro a 24ª edição do festival Doclisboa, um festival organizado pela Apordoc – Associação pelo Documentário. A edição de 2026 decorre entre os dias 15 e 25 de outubro em vários locais da cidade de Lisboa. Nesse âmbito, a MHD viu o filme “A Voz de Todos – Jornal do Fundão” (2026, Manuel Mozos) que faz parte da secção de Competição Portuguesa do festival.
A longa-metragem recorre a vários registos do jornal regional do Fundão para construir um documentário essencialmente visual a partir desses registos. Um belo e cuidado poema áudio-visual. Vai estar em exibição hoje, sábado 17, às 18h30 na Culturgest e terça 20 às 14h no Cinema São Jorge.
“A Voz de Todos – Jornal do Fundão” é uma produção da produtora/distribuidora “The Stone and The Plot” pelo que podemos vir a ter em breve uma estreia comercial. Portugal precisa do seu cinema nas salas e, em particular, o Fundão agradecerá!
A História do Fundão é também a História de Portugal

“A Voz de Todos – Jornal do Fundão” propõe uma viagem a partir de vários artigos publicados pelo “Jornal do Fundão” entre 1946 e 2019. Para isso, o documentário recorre à voz de diferentes leitores que interpretam os textos em causa, ao mesmo tempo que surgem em imagem vários locais da cidade do Fundão, mas também arredores. A saber, o filme foi filmado no Fundão, Castelo Branco, Penamacor, Covilhã, Manteigas, Minas da Panasqueira, Serra da Estrela e Vilar Formoso.
Apesar da distância de cerca de 70 anos no espaço temporal dos textos lidos (e interpretados), a ressonância é quase sempre intemporal, o que demonstra as ligações entre o passado e o presente. Afinal de contas, as preocupações da população são semelhantes ao longo do tempo: saúde, trabalho, habitação, etc. Contudo, há algumas exceções ao longo do documentário onde o tempo se demarca de forma mais incisiva como, por exemplo, a referência ao suplemento cultural do jornal durante os anos do Estado Novo ou a questão da emigração também durante esta época que passou por Vilar Formoso.
Assim, o “Jornal do Fundão” não era só de Alves Redol ou de Luandino Vieira – autores relevantes do neo-realismo e do anticolonialismo -, mas era também da população, dos seus leitores. Precisamente por isso a voz é tão fundamental neste documentário. Não sendo a chamada “voz de Deus”, recorrendo a Bill Nichols, é a voz das gentes do Fundão. De protagonista em protagonista, viajamos com as diferentes histórias e vozes em “A Voz de Todos – Jornal do Fundão”. Muitos dos textos que ouvimos são mesmo contados na primeira pessoa. Isso por si só dá logo uma proximidade mais particular com o espectador.
A Voz de Todos – Jornal do Fundão é um documentário mas é também um ensaio audiovisual e uma investigação particular

Apesar da grande maioria do documentário ser composta por estes registos sonoros que se complementam com as imagens, há também outros elementos curiosos ao longo do filme. O realizador Manuel Mozos surge no documentário, durante as suas pesquisas no arquivo do “Jornal do Fundão”. É ele que (quase) silenciosamente nos conduz pela História do jornal e de todos estes 70 anos. Nesse aspeto, são deliciosas as fotografias ele nos mostra relativas a incêndios na zona ou o suplemento cultural “&etc”. Suplemento este que é um elemento bastante particular e que demonstra o funcionamento do Estado Novo onde um jornal regional não podia ter qualquer suplemento cultural e, por isso, foi proibido.
“A Voz de Todos – Jornal do Fundão” é, por tudo isto, um documentário essencial para se perceber não só a História do Fundão mas também a História de Portugal ao longo de sete décadas. Várias são inclusive as histórias que, mesmo sendo do Fundão, se podiam passar em qualquer outro local do país. Por exemplo, acidentes na linha do comboio, tempos de espera nas urgências, um centro de acolhimento para refugiados, etc.
Uma carta de amor ao Fundão e arredores

Embora se sinta uma emoção maior nos textos referentes aos anos antes do 25 de Abril (nomeadamente, na questão da emigração, por exemplo) e à época do PREC que se seguiu, o documentário traz-nos também uma carta de amor aos próprios locais onde filma e até às situações que acompanha como, por exemplo, as bandas filarmónicas, uma fábrica de têxteis ou os trabalhadores das minas. Em parte, pode-se aproximar este documentário de outros como “Avenida Almirante Reis em Três Andamentos” (2018, Renata Sancho) ou “Santa Iria” (2025, Luís Miguel Correia). Neste caso trata-se, portanto, de uma carta de amor ao Fundão e arredores.
Propositadamente, os textos só são identificados no genérico final do filme. Isso faz com que o espetador nem sempre se consiga se situar temporalmente nas situações. Contudo, isso é claramente uma decisão deliberadamente pensada pelo realizador e que reflete sobre a tal intemporalidade dos textos. Se o filme ganharia outra densidade caso tivesse essa identificação em cada um dos textos ou se os mesmos seguissem uma ordem cronológica? Certamente que sim. No entanto, seria um filme muito diferente. Por outro lado, é um filme que não precisa de protagonistas visíveis. É a voz que faz a narrativa e que a conduz.
O filme termina brilhantemente com um plano bastante geral da cidade do Fundão a partir da Serra da Estrela enquanto ouvimos o hino do jornal. No entanto, sinto que a montagem poderia ganhar uns contornos um bocadinho diferentes se o realizador tivesse optado por incluir os planos da sede do “Jornal do Fundão” imediatamente antes deste plano final. Contudo, um filme como este pode ter sempre várias versões de montagem… E cada uma delas ter uma leitura completamente diferente.
A Voz de Todos - Jornal do Fundão
Conclusão
- “A Voz de Todos – Jornal do Fundão” é um poema áudio-visual que recorre a vários artigos do “Jornal do Fundão” para nos trazer sete décadas de História onde o passado ecoa no presente e vice-versa.
- Um filme onde a voz é a protagonista mas há também o lado visual com vários planos de contexto na cidade do Fundão e arredores, bem como planos mais observacionais da população (nas minas, nas feiras, nas bandas filarmónicas).
- Um documentário forte e lírico que só peca um pouco pela montagem que nem sempre tem uma continuidade lógica e onde a sede do “Jornal do Fundão” podia ser dos últimos planos do filme…


