Depois de ter voltado a conquistar o público global com a sua marcante interpretação de Morticia Addams em “Wednesday” (Netflix), a icónica Catherine Zeta-Jones está de regresso aos pequenos ecrãs e catálogos de streamings. Desta vez, fá-lo na plataforma da HBO com “Kill Jackie”, uma produção de ação fast-paced e atitude irreverente. O grande atrativo? A atriz vencedora de Óscar assume um papel feito à sua medida e recupera algo que lhe é profundamente querido: a sua terra natal e o incontornável sotaque galês de nascimento. O resultado imediato? Uma personagem principal que transborda carisma e energia do primeiro ao último minuto.
“Kill Jackie” enquadra-nos na vida de Jackie Price (Catherine Zeta-Jones), uma antiga ‘baronesa’ de droga que, por algum motivo, reinventou-se como importante negociante de arte em Bilbau. Mas, claramente ainda com ligações ao mundo do crime, toda a ação ganha um novo ritmo quando ela é considerada um alvo a abater. De algo que pensa vir do passado, Jackie vê-se a braços com um grupo de assassinos de elite, os Seven Demons (Sete Demónios), cuja missão é simplesmente eliminá-la. Sem tempo a perder, mas também sem querer fugir, Jackie vai voltar às suas raízes e procurar virar o jogo a seu favor. Para isso recorre a antigas relações, novos contactos e um instinto visceral para lidar com quem a tenta matar.
Kill Jackie é um frenesim que encontra alguma ordem
A narrativa de toda a série adota um ritmo acelerado e constante, socorrendo-se de uma voz-off omnipresente da própria protagonista, em que sentimos quase a ‘quebra da quarta parede’. No entanto, não sendo totalmente óbvio, tem uma composição que se revela bastante envolvente quando há flashbacks estilizados e até pequenos apontamentos visuais de explicações sobre quem é quem na história. Não sendo uma fórmula inovadora, é um recurso dinâmico que nos remete para produções britânicas de culto recente, como “The Gentlemen”, de Guy Ritchie.

Saltitando entre os cenários urbanos e frios de Bilbau, Londres e as paisagens galesas de Swansea, a série afasta-se do habitual registo norte-americano (não é na verdade uma série norte-americana) e coloca-nos num ambiente europeu vibrante e refrescante. O que, não sendo um fator de desempate para uma boa produção, é algo que consideramos ser também uma lufada de ar fresco dentro do vasto número de séries que continuam a estrear todos os meses em streaming.
Catherine-Zeta Jones é a estrela de um elenco quase desconhecido
Para quem se habituou a ouvir Catherine Zeta-Jones com os habituais sotaques norte-americanos ou refinados de Hollywood ao longo da sua vasta carreira, ouvir a sua voz natural em “Kill Jackie” pode soar invulgar nos primeiros momentos. Algo até exagerado e quase que a invocar um certo tom de paródia. Contudo, é essa autenticidade que torna a sua presença ainda mais magnética.

Já o resto do elenco é maioritariamente composto por rostos menos conhecidos do grande público, o que faz com que a protagonista sobressaia ainda mais. O restante leque de personagens traz à série uma aura de paródia por haver muitos sotaques regionais carregados, e com própria alusão nos diálogos à inaptidão das personagens se perceberem entre si. Além de que funcionam quase sob uma dinâmica semelhante ao que vimos no filme “Bullet Train”: cada assassino ou obstáculo é apresentado ao seu tempo, carregado de quirks e rivalidades que tornam cada episódio uma caixa de surpresas cativante.
No entanto, destacamos das outras personagens o ator Daniel Ings (“The Gentlemen”). O ator britânico volta a trazer aos pequenos ecrãs um caos hilariante na construção da sua personagem, o advogado e potencial aliado de Jackie. Diríamos até que é o que mais rivaliza com Zeta-Jones em termos de destaque quando partilham uma cena. As suas trapalhadas e a incerteza constante sobre o seu rumo deixam-nos em sobressalto e garantem alguns dos momentos mais leves da temporada.

É verdade que não há um espaço profundo para o desenvolvimento dramático de todas as figuras secundárias, mas dentro do tom despretensioso a que se propõe, a medida adotada em “Kill Jackie” revela-se bastante acertada. No entanto, fica um travo amargo em relação a uma aparição especial de peso: Ron Perlman (“Hellboy”, “Sons of Anarchy”). Sendo uma surpresa de peso no elenco, a sua participação acaba por ser demasiado curta para o potencial que um ator do seu calibre traria a este universo de mercenários.
Um final em aberto e a promessa de um caminho espinhoso
Embora a estrutura de oito episódios sugira à primeira vista uma história fechada, vale realçar, sem dando spoilers da temporada, que “Kill Jackie” não se fecha sobre si mesma. O último episódio deixa a porta escancarada para a continuidade das peripécias da protagonista. Jackie consegue sobreviver, isso podemos dizer, mas irá ter de redefinir o seu destino e claro, será nos seus próprios termos. Mas, aludindo ao próprio título da série, parece-nos claro que uma recompensa pela sua cabeça irá continuar a estar em destaque no seu futuro.
“Kill Jackie” não vem reinventar a roda do género de ação e vingança, mas equilibra perfeitamente o humor ácido, a violência estilizada e uma realização com selo britânico imparável. É uma proposta leve, altamente divertida e que se devora sem esforço, apoiada no ombro gigantesco de uma Catherine Zeta-Jones em pleno estado de graça.
Kill Jackie
Conclusão
“Kill Jackie” é uma série de entretenimento puro e sem complexos, ideal para uma maratona descontraída de fim de semana. Com uma Catherine Zeta-Jones eletrizante no centro do furacão e uma estética refinada, a minissérie da HBO cumpre o que promete: ação visceral, diálogos divertidos, e ainda deixa uma curiosidade legítima quanto ao futuro da sua protagonista num eventual regresso.
Overall
7/10User Review
( votes)Pros
- Catherine Zeta-Jones sublime e a brilhar com o seu sotaque galês nativo.
- A energia hilariante e caótica de Daniel Ings ao longo da temporada.
- A montagem e o ritmo visual fast-paced, com uma excelente banda sonora e cenários europeus.
Cons
- A subaproveitada participação de Ron Perlman num papel que pedia mais tempo de ecrã.
- O recurso à narração em voz-off e grafismos em cena pode não agradar a todos os perfis de espetador.
- O pouco desenvolvimento de alguns antagonistas.



