Léa Seydoux e Niels Schneider protagonizam “A Desconhecida” um dos thrillers mais insólitos do ano. Arthur Harari transforma uma aventura sexual numa crise de identidade, mistura Kafka com o cinema fantástico e demonstra que, às vezes, o maior desconhecido somos nós próprios. O problema é que, pelo caminho, também o espectador se perde.
Imagine que acorda de manhã, olha para o espelho e descobre que o seu rosto desapareceu. Não envelheceu, não engordou, não fez uma cirurgia estética na Turquia. Simplesmente passou a ser outra pessoa. Pior: uma pessoa do sexo oposto. E, para complicar a situação, ninguém acredita que continua a ser quem sempre foi. Nem a família, nem os amigos, provavelmente nem as Finanças. É esta a proposta de “A Desconhecida”, o novo filme de Arthur Harari, estreado na competição oficial do Festival de Cannes 2026, que chega agora aos cinemas portugueses. Um thriller psicológico, erótico e fantástico que começa como uma aventura nocturna e acaba numa reflexão perturbadora sobre o corpo, a identidade, a sexualidade e a solidão. Pelo meio, Léa Seydoux e Niels Schneider trocam mais do que olhares. Trocam literalmente de existência. E se a ideia parece saída de uma comédia americana, esqueçam as gargalhadas. Harari não está para graças. Ou, melhor, tem um sentido de humor bastante mais perverso.
Um fotógrafo à procura do homem que desapareceu
David Zimmerman (Niels Schneider) aproxima-se dos quarenta anos e dedica-se a fotografar as transformações urbanas de Paris. Compara imagens antigas com a paisagem actual, procura edifícios desaparecidos e lugares que o tempo tornou irreconhecíveis. Uma actividade aparentemente melancólica que, afinal, constitui a primeira grande pista do filme: tudo muda, mesmo aquilo que julgamos imutável. Uma noite, os amigos conseguem arrancá-lo à sua existência quase clandestina e levá-lo a uma festa de máscaras. Entre música, álcool, drogas e personagens extravagantes, David cruza-se com Eva (Léa Seydoux), uma mulher misteriosa que o atrai irresistivelmente. Segue-a, os dois envolvem-se sexualmente e, depois de uma experiência particularmente intensa, perde os sentidos. Quando acorda, está dentro do corpo dela. A partir daqui, começa uma investigação desesperada para recuperar a identidade perdida, descobrir quem é realmente Eva e perceber que espécie de força transforma os corpos em recipientes de consciências alheias. O argumento, adaptado da novela gráfica “Le Cas David Zimmerman”, desenvolvida pelos irmãos Arthur e Lucas Harari, com Vincent Poymiro a colaborar na escrita cinematográfica, multiplica personagens, falsas pistas e transferências de identidade. Convém não perder a concentração. Um momento de distracção e já não sabemos quem está dentro de quem. O que, convenhamos, também acontece em algumas relações amorosas perfeitamente normais.
Léa Seydoux, uma mulher com um homem lá dentro

A grande inteligência de “A Desconhecida” está em não reduzir a troca de corpos a um exercício de fantasia sexual. Harari interessa-se sobretudo pela distância entre aquilo que somos, aquilo que os outros vêem e aquilo que julgamos conhecer de nós próprios. É uma questão de identidade, mas também de desejo, género, memória e representação. Léa Seydoux, que já demonstrou em “A Vida de Adèle”, “Crimes do Futuro” e “A Besta” uma particular disponibilidade para explorar territórios físicos e emocionais extremos, oferece aqui uma interpretação extraordinariamente contida. O seu corpo parece permanentemente habitado por alguém que desconhece as respectivas instruções de funcionamento. Niels Schneider, que conhecemos de “Amores Imaginários”, compõe David como um homem frágil, atormentado, progressivamente incapaz de distinguir a realidade do pesadelo. Harari filma ambos sem procurar o erotismo convencional, embora explore deliberadamente a ambiguidade do olhar masculino sobre o corpo feminino. Afinal, o que significa um homem contemplar-se nu quando o corpo já não é o seu? E quem está realmente a olhar? O realizador transforma estas perguntas num jogo de espelhos onde o voyeurismo, a intimidade e a estranheza convivem perigosamente. A presença de Valérie Dréville, Lilith Grasmug e até do cineasta romeno Radu Jude acrescenta novas camadas a uma narrativa em permanente mutação.
O cinema de Hara: Entre o Génio e o excesso

Arthur Harari também já tinha demonstrado em “Onoda, 10 000 Noites na Selva” uma fascinante capacidade para explorar personagens aprisionadas nas suas próprias convicções. Foi também co-argumentista, com a sua companheira Justine Triet, de “Anatomia de uma Queda”, Palma de Ouro em Cannes em 2023. Em “A Desconhecida”, regressa à obsessão pela verdade e pelas suas múltiplas interpretações, mas troca o realismo judicial pelo fantástico. A fotografia de Tom Harari, os espaços urbanos, os corredores, as portas e os reflexos constroem uma atmosfera inquietante, quase claustrofóbica. As imagens de Paris, continuamente transformada e reconstruída, funcionam como metáfora de corpos que já não correspondem às respectivas memórias. O problema surge quando a complexidade deixa de acrescentar significado e começa a funcionar como demonstração de virtuosismo. Harari parece tão fascinado pelo mecanismo que inventou que se esquece, por momentos, das personagens que colocou lá dentro. O thriller transforma-se num labirinto de situações, encontros, revelações e novas perguntas. Algumas estimulantes, outras dispensáveis. E os 140 minutos tornam-se excessivos para uma história que poderia ganhar intensidade com menos explicações e mais emoção. Curiosamente, os momentos mais perturbadores são precisamente aqueles em que o realizador abandona as complicações narrativas e deixa os actores comunicarem através dos gestos, dos silêncios e dos olhares.
JVM 6/10
A Desconhecida
Conclusão
- “A Desconhecida” é um filme imperfeito, mas estimulante, desconcertante e suficientemente ousado para contrariar a previsibilidade de grande parte do cinema contemporâneo. Harari arrisca, mesmo quando se perde nas suas próprias ideias, e propõe uma reflexão sobre a impossibilidade de conhecermos inteiramente o outro. Ou até nós próprios. O desfecho, mais emocional do que explicativo, recupera alguma da humanidade que o labirinto narrativo parecia ter engolido. Talvez a identidade não dependa apenas do corpo que habitamos, mas também de quem ainda consegue reconhecer-nos. E talvez seja essa a verdadeira tragédia do filme: não a transformação física, mas a possibilidade de deixarmos de existir para aqueles que amamos. Afinal, o horror não está necessariamente em acordarmos com outra cara. Está em descobrirmos que a nossa já não significa absolutamente nada.
Overall
6/10User Review
( votes)Pros
O melhor: Léa Seydoux e Niels Schneider, a atmosfera visual e a ousadia de transformar uma fantasia sexual num perturbador ensaio sobre identidade e memória.
Cons
O pior: O excesso de reviravoltas, algumas pistas narrativas inconsequentes e uma duração de 140 minutos que nem sempre justifica tanta ginástica cerebral.



