"Crimes do Futuro" | © Pris Audiovisuais

LEFFEST ’22 | Crimes do Futuro, em análise

Crimes do Futuro “ teve a sua estreia mundial no Festival de Cannes, onde integrou a competição oficial. Agora, a mais recente obra de David Cronenberg serviu como filme de abertura para mais uma edição do Lisbon & Sintra Film Festival, dando início às celebrações com um toque de body horror e inquietação artística. Viggo Mortensen, Léa Seydoux, Kristen Stewart e Welket Bungué são alguns dos atores neste festim de alucinações futuras, onde a cirurgia é o novo sexo.

Chega uma altura na vida de todo o artista, em que os anos acumulados se refletem de forma invariável na obra. Por vezes, regista-se uma fossilização estilística, quiçá uma crescente displicência na forma outrora desafiada. Noutros casos, instala-se o suprassumo da autorreflexão. Assim se geram obras que se consideram a si mesmas num contexto maior – a vida do seu criador. Trata-se de um andar para a frente que sempre olha para trás, enveredando-se pelo futuro no mesmo gesto em que pondera o passado. A mortalidade é assunto predileto, assim como o envelhecimento, o pesar do tempo sobre os ossos e o pensamento.

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Contudo, outras possibilidades se manifestam, inclusive a autópsia de uma oeuvre crescente, quase tumescente depois de décadas em desenvolvimento. Pensa-se sobre a influência nos outros, no radicalismo de outros dias tornado em algo já não tão radical assim. Pensam-se em novas formas de testar os limites do meio, a sabedoria do velho artista tornada arma para a experimentação plena. É pena, portanto, como, apesar de tudo isto, muitos são aqueles que concluem como o artista envelhecido é menos interessante em comparação ao jovem criador.

Em crítica de cinema, especialmente, existe a ideia generalizada que, chegados a certa fase tardia, o cineasta já não tem nada de novo a dizer e certamente jamais criará nova obra-prima. É uma daquelas sabedorias populares que perduram no imaginário coletivo, dependentes de certos nomes sonantes. Afinal, ninguém olha para os últimos filmes de Kurosawa ou Bergman e reconhece neles maior importância que as obras feitas no seu auge. Ou, pelo menos, é essa a ideia que persiste qual preconceito enraizado. Neste contexto, encontramos “Crimes do Futuro” de David Cronenberg, um autêntico ‘filme de velho autor’ já por muitos descartado como trabalho menor.

Tal conclusão é um erro atroz pois, em seu novo pesadelo para o grande ecrã, o mestre canadiano propõe um testamento meditativo tão ou mais ousado que esses títulos dos anos 70 e 80 que o tornaram famoso. As intenções reflexivas são óbvias desde o momento em que o título é anunciado. Afinal, “Crimes do Futuro” é nome reciclado de um dos primeiros filmes de Cronenberg, produção meio-esquecida que pouco ou nada tem em comum com esta nova fita. Também em termos de estilo e tom existe um regresso a temas velhos repensados, o futuro virtual de “eXistenZ” levado além do videojogo.

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Mais importante que isso é o body horror de dias passados reinterpretado para o dia de hoje, divorciado da carne mortificada como veículo do choque e do medo. Numa nova conjetura, o organismo manipulado por tecnologias impossíveis emerge enquanto expressão criativa, uma celebração da vida ao invés do castigo espetacular. De facto, atrever-nos-íamos a declarar que “Crimes do Futuro” foge à definição do terror, convidando o espetador a partilhar o êxtase do autor numa vertente em que o susto não se pretende. O corpo aberto é berço de criação ao invés da marca de forças destrutivas que já foi.

Viggo Mortensen também é outro regresso, assumindo-se como o mais importante ator fetiche para Cronenberg e seu avatar dentro dos filmes. Aqui, em particular, os paralelos entre os dois não podiam ser mais óbvios, desde a cabeleira grisalha e trajado preto até ao ofício enquanto artista da carne. Ele é Saul Tenser que, com a ajuda da companheira Caprice, usa o seu organismo como tela num futuro próximo onde a dor e a infeção deixaram de existir para além de alguns indivíduos azarados. Concebendo novos órgãos transmutados como obras-de-arte tatuadas em jeito de assinatura pessoal, a parelha faz sessões de cirurgia pública, uma exposição onde a sala de operação substitui a galeria.

Descrever o enredo do filme além desta premissa inicial parece-nos fútil – existem crianças mortas e autópsias falseadas, homens cobertos de orelhas e com as bocas cosidas, uma conspiração para esconder a verdade. Entenda-se que grande prazer existe na descoberta desse amanhã que Cronenberg aqui sonha, um universo paradoxalmente antigo e ruinoso, onde a matéria-prima do ser humano caminha na direção da Humanidade transcendida. Filmado numa Atenas cheia de edifícios abandonados, envolta em sombras espessas e pontuada pelas cenografias hediondas de Carol Spier, “Crimes do Futuro” usa uma narrativa proto-noir como pretexto para ruminação de ideias.

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A história é mero esqueleto sobre o qual o realizador pode desenvolver conceitos reciclados e refeitos. Assim se discutem crueldades sobre o corpo que trai a mente e sobre a tecnologia que desvia a evolução, o milagre impuro da morte derrotada. Assim se encontram peculiares melancolias, sentimentos de perda descontextualizada e sofrimento inusitado. Come-se plástico e corta-se a cara na esperança de sentir algo, na esperança de se ser mais que a pessoa de um presente que já é ontem. Estamos perante uma realidade fraturada, onde aquilo que faz de nós pessoas foi tão destabilizado que todos são como cegos errantes em busca de uma resposta inalcançável.

Toda esta descrição remete para algo abstrato e incoerente, difícil de entender ou mesmo inconcebível de explicar. Fica aqui a promessa que, se aceitarmos as ideias mirabolantes que o filme dispara sobre o espetador e saborearmos o tom por elas evocado, “Crimes do Futuro” é mais poema que puzzle. Não tentem decifrar, simplesmente desfrutem. Sintam a bizarria de Kristen Stewart numa prestação de alienação extremada, movimentos que lembram insetos e uma dicção de robot estragado. Sintam o desconforto que Saul sofre e Mortensen traduz em pose e caminhar, em expressão de ardor crónico. Sintam o erotismo patente na intimidade de um bisturi perfurando a pele, o desejo amoral num patamar da existência onde a moralidade já não existe. Rendam-se a este filme desafiante, bebam o vinho da loucura e comam a hóstia da perdição, partilhando estes estranhos amores em comunhão cinéfila.

Crimes do Futuro, em análise
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Movie title: Crimes of the Future

Date published: 11 de November de 2022

Director(s): David Cronenberg

Actor(s): Viggo Mortensen, Léa Seydoux, Kristen Stewart, Welket Bungué, Scott Speedman, Lihi Kornowski, Nadia Litz, Tanaya Beatty, Don McKellar, Ephie Kantza, Tassos Karahalios

Genre: Drama, Terror, Ficção-Científica, 2022, 107 min

  • Cláudio Alves - 87
87

CONCLUSÃO:

“Crimes do Futuro” tanto reflete sobre temas e imagéticas antigas na oeuvre de David Cronenberg como propõe desafiantes tonalidades que trespassam a perspetiva de um artista envelhecido. Esperamos que este não seja o último trabalho do mestre, mas seria um ponto final adequado, um testamento e um requiem justapostos, unidos como dois corpos penetrantes e penetrados. Que delírio, que melancolia, que pesadelo!

O MELHOR: A cenografia de Carol Spier, especialmente no que se refere aos contrastes entre tecnologias em forma de carne mutilada e osso mutado com a arquitetura degradada de uma Atenas moderna.

O PIOR: Para quem torça o nariz perante a violência de Cronenberg, a possibilidade de beleza será difícil de atingir e os tons mais delicados da obra serão certamente inalcançáveis. Trata-se de uma reação entendível, especialmente quando os tabus quebrados chegam ao extremo de ver um menino nu ser aberto por maquinaria futurista. Dito isso, para fãs hardcore do terror sangrento, o filme também não é tão lúgubre como possam imaginar, ocupando um meio-termo destinado a frustrar gregos e troianos em igual medida.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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