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Quatro grandes filmes de abertura no LEFFEST – NOS Lisboa Film Festival, os vencedores de Cannes, Veneza e San Sebastián, David Cronenberg a presidir ao júri e a mais completa retrospectiva dedicada a Lars von Trier. Paulo Branco explica como se constrói um festival desta dimensão, por que razão escolheu os cinemas NOS Vasco da Gama, quem gostaria de trazer a Lisboa e como a corrida aos Óscares lhe troca as voltas. Eis a síntese de uma conversa na FNAC Chiado sem diplomacias, com algumas provocações e uma certeza: o cinema continua a merecer todas as batalhas. A partir deste fim de semana (sexta) até 15 de Novembro.

Quando Paulo Branco começou a preparar a 20.ª edição do LEFFEST – NOS Lisboa Film Festival, há cerca de seis meses, estava longe de imaginar a abundância cinematográfica que acabaria por reunir. «Tínhamos a impressão de que íamos ter um pequeno festival», confessa, explicando que os primeiros sinais provenientes dos grandes festivais internacionais não eram particularmente animadores. Depois, os filmes começaram a aparecer, um atrás do outro, e aquilo que ameaçava transformar-se numa edição de circunstância acabou numa das programações mais ambiciosas da história do festival. «Alinharam-se os astros», sugeriu-se durante a conversa. Paulo Branco não discordou. E, pelo caminho, conseguiu ainda contrariar algumas das suas próprias previsões.

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De 6 a 15 de Novembro, Lisboa recebe uma selecção que atravessa Cannes, Veneza, Berlim, Toronto e San Sebastián, com estreias, retrospectivas, homenagens, concertos, debates e encontros com cineastas. O director do LEFFEST – NOS Lisboa Film Festival reconhece que o resultado é «das mais diversificadas» ofertas que o festival tem apresentado. Mas acrescenta uma observação pouco habitual em quem organiza semelhante banquete: «Não quer dizer que eu goste dos filmes todos que nós estamos a passar.» A honestidade tem destas inconveniências. Para Paulo Branco, o essencial é mostrar o que de mais relevante se fez no cinema internacional, independentemente das suas preferências pessoais.

E faz questão de esclarecer outra coisa: os filmes são escolhidos pela equipa do festival. O envolvimento de parceiros, distribuidores e produtores não determina a programação. Uma distinção importante numa época em que os interesses comerciais, as estratégias promocionais e as campanhas para os Óscares condicionam cada vez mais a circulação das obras.

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Quatro filmes para abrir a festa. Os Óscares ficam com os convidados

Cavalo Selvagem Nove - Festival de Veneza
“Cavalo Selvagem Nove” | © 2026 Searchlight Pictures All Rights Reserved.

A 6 de Novembro, o LEFFEST começa em quatro salas e com quatro filmes capazes de justificar, isoladamente, uma deslocação a Lisboa. Paper Tiger, de James Gray, com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, abre o São Jorge; Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh, com John Malkovich e Sam Rockwell, ocupa a Culturgest; Fjord, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro em Cannes, inaugura a programação do cinema NOS Vasco da Gama; e Possible Love, de Lee Chang-dong, Grande Prémio do Júri em Veneza, chega ao Nimas numa rara exibição em sala de uma produção da Netflix. O encerramento, a 14 de Novembro, pertence a The Debut, de Jesse Eisenberg, com Julianne Moore e Paul Giamatti.

O problema, explica Paulo Branco, é que uma programação desta qualidade não garante a presença dos respectivos protagonistas. John Malkovich, distinguido em Veneza por Cavalo Selvagem Nove, era um dos convidados desejados, mas a campanha para os Óscares tornou a deslocação impossível. O actor transmitiu-lhe que estava contratualmente comprometido com a promoção do filme. Cristian Mungiu enfrenta dificuldades semelhantes, uma vez que Fjord representa a Roménia na corrida ao Óscar internacional.

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«As campanhas dos Óscares são cada vez mais agressivas», observa Branco. O mesmo calendário que permite apresentar os filmes antes das estreias comerciais transforma-se numa armadilha para conseguir os seus realizadores e actores. Se o festival acontecesse em Março ou Abril, seria mais fácil trazer os nomes, admite. Mas nessa altura faltariam os filmes. Uma resposta que resume a sua maneira de programar: as celebridades são bem-vindas, desde que tenham cinema para mostrar.

Também Luca Guadagnino esteve perto de receber uma retrospectiva. A ideia acabou abandonada quando dois projectos que justificariam a sua presença se tornaram indisponíveis nas condições pretendidas. Simon Stone, realizador de Elsinore, era outro convidado desejado cuja deslocação se complicou entretanto. Quanto a Marcelo Tabello, actor de La perra, de Dominga Sotomayor, as filmagens em Buenos Aires impedem-no de viajar. A própria realizadora, recentemente mãe, poderá não estar presente.

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Em contrapartida, Kelly Reichardt deverá acompanhar o festival durante vários dias, e Willem Dafoe foi anunciado para participar na homenagem a Lars von Trier. Paulo Branco conhece bem estas negociações, feitas entre compromissos profissionais, amizades antigas e decisões tomadas quase à última hora. Os convidados não recebem cachês de presença, assegura, embora o festival procure proporcionar-lhes as melhores condições.

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Bunker - Festival de Veneza
© Courtesy of TIFF

David Cronenberg preside ao júri da Competição Oficial, acompanhado por Angélica Liddell, Charles Burnett, Milagros Mumenthaler, Gidon Kremer e Andrea Camprincoli. Onze filmes disputam o Grande Prémio NOS, incluindo Os Christophers, de Steven Soderbergh, Mariage au goût d’orange, de Christophe Honoré, Scherzetto, de Mario Martone, The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach, Butterfly Jam, de Kantemir Balagov, e Ela Olhava sem Nada Ver, realizado por Fanny Ardant nos Açores.

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Paulo Branco destaca igualmente La perra, de Dominga Sotomayor, que considera uma das possíveis grandes revelações da competição. A secção Descobertas, com onze filmes e um júri presidido por Barbara Sukowa, apresenta propostas do Nepal, Tailândia, Irão, México e Brasil, entre outras cinematografias. Para o director, importa distinguir o LEFFEST de festivais como o IndieLisboa e o Doclisboa, procurando filmes que combinem singularidade artística, reconhecimento internacional e capacidade de atrair espectadores.

Fora de competição, o desfile impressiona: Tender Loving Care, de Mike Leigh, Concha de Ouro em San Sebastián; Fatherland, de Paweł Pawlikowski; Soudain, de Ryūsuke Hamaguchi; Salvation, de Emin Alper; Resurrection, de Bi Gan; Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda; Ink, de Danny Boyle; e Bunker, de Florian Zeller, com Javier Bardem e Penélope Cruz.

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Mas existe um filme sobre o qual Paulo Branco fala com particular entusiasmo: Aqui, de Tiago Guedes, adaptação da trilogia de J. M. Coetzee, por ele produzida. A origem do projecto está numa conversa com o Nobel sul-africano, durante uma anterior passagem pelo LEFFEST. Branco tinha lido os três livros e sugeriu que dariam um filme extraordinário. Coetzee ofereceu-lhe a possibilidade de adquirir os direitos. Nasceu assim uma relação de confiança que o produtor considera determinante.

O escritor já viu o resultado e, segundo Branco, ficou profundamente emocionado. A adaptação, com cerca de três horas e meia, consegue transformar uma construção literária complexa numa narrativa de aparente simplicidade, sem sacrificar as suas numerosas camadas de sentido. Paulo Branco não esconde o orgulho: considera-o um dos filmes mais importantes que produziu nos últimos anos. E, conhecendo-o, não se trata de um elogio de circunstância.

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A NOS, o Vasco da Gama e a guerra pelas salas de cinema

Sala de Cinema
© İnzíle Dal, via Pexels

Uma das questões mais interessantes da conversa surgiu a propósito da associação à NOS, uma empresa cuja lógica de distribuição e exibição comercial parece, à primeira vista, distante do cinema independente que Paulo Branco sempre defendeu.

A resposta foi clara: aceitou a parceria porque conseguiu aquilo que pretendia, uma sala inteiramente disponível para o festival, durante os dez dias, com liberdade de programação e condições técnicas adequadas. A escolha recaiu sobre o cinema NOS Vasco da Gama, com capacidade para cerca de 270 espectadores, boa projecção e acesso directo. As experiências anteriores nas Amoreiras não o tinham convencido, sobretudo pelas dificuldades de circulação e pelas limitações técnicas e de programação. Também rejeitou a hipótese do CCB, cujas condições de projecção considera inadequadas para um festival cinematográfico regular.

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«Eu quero é que vejam os filmes», afirma. E acrescenta que o seu trabalho consiste em «criar públicos, criar espectadores, e buscar mais alguns», nem que sejam apenas dez, vinte ou trinta de cada vez. Para Branco, não existem espectadores de primeira e de segunda categoria, nem salas culturalmente legítimas e outras condenadas ao entretenimento industrial. Uma programação pode conquistar público onde houver condições para a apresentar.

A relação com a NOS não significa, contudo, uma rendição às suas políticas comerciais. Branco garante que continuará a contestar decisões de distribuição e exibição sempre que considerar necessário. Lembra também as dificuldades crescentes de manter um festival: os apoios municipais pouco mudaram em duas décadas, enquanto os custos de alojamento e produção dispararam. A parceria representa, portanto, uma necessidade financeira e uma oportunidade de alargamento do público. Não uma alteração da identidade artística.

Pelo caminho, critica a degradação das condições de algumas salas comerciais, a escassez de pessoal e os intermináveis blocos publicitários antes das sessões. Uma ironia pouco subtil: quem há cinquenta anos luta para levar espectadores ao cinema continua a encontrar obstáculos precisamente em quem deveria recebê-los.

O Diabo, Von Trier e uma absoluta falta de nostalgia

Elizabeth Holmes You can see everything
© Cinemundo

A retrospectiva dedicada a Lars von Trier será uma das mais completas alguma vez organizadas em torno da sua obra, incluindo O Elemento do Crime, Europa, Ondas de Paixão, Os Idiotas, Ninfomaníaca, A Casa de Jack e as três temporadas de O Reino. Por motivos de saúde, o cineasta dinamarquês não poderá deslocar-se a Lisboa, mas o festival contará com colaboradores próximos, incluindo Willem Dafoe.

Kelly Reichardt, Lee Chang-dong, Sophie Letourneur e Tiago Guedes recebem igualmente retrospectivas, enquanto Barbara Sukowa será homenageada com Lola, M. Butterfly e Hannah Arendt. A programação prolonga-se pelos ciclos «(i)moralidades» e A Morte do Diabo, com Abel Ferrara, Catherine Breillat e Eva Ionesco, documentários como Musk e You Can See Everything, leituras de Sade, Genet e Bataille, concertos e debates. A secção Memória do Cinema recupera clássicos restaurados em 4K, e o Encontro Internacional de Escolas de Cinema atribui o Prémio João Milagre, homenageando o professor e dinamizador cultural falecido este ano.

Entre os convidados anunciados encontram-se ainda Charles Burnett, Fanny Ardant, Christophe Honoré, Mario Martone, Florian Zeller, Albert Serra, Grace Passô, Béatrice Dalle, Angélica Liddell e vários outros cineastas e artistas.

No final da conversa, confrontado com a possibilidade de ser um homem nostálgico, Paulo Branco respondeu sem hesitações: «Nostalgia? Nenhuma. Zero.» Gosta de recordar histórias, rever filmes e recuperar obras esquecidas, mas interessa-lhe sobretudo aquilo que ainda pode fazer. Defende os filmes que produz porque acredita neles e porque considera ter uma responsabilidade perante quem os realizou.

Aos 20 anos, o LEFFEST parece partilhar essa filosofia. Não celebra o passado para viver dele. Recupera-o para alimentar o presente e continuar a descobrir o futuro. Paulo Branco poderá não gostar de todos os filmes que programou, mas continua disposto a lutar para que sejam vistos. E, num país onde se fala tanto de cultura e se fecham tantas portas à sua circulação, essa teimosia continua a ser uma excelente notícia.

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6 A 15 DE NOVEMBRO · LISBOA

QUATRO ABERTURAS QUE VALEM POR UM FESTIVAL

Paper Tiger, de James Gray, no São Jorge; Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh, na Culturgest; Fjord, de Cristian Mungiu, no NOS Vasco da Gama; e Possible Love, de Lee Chang-dong, no Nimas. Tudo a 6 de Novembro. The Debut, de Jesse Eisenberg, encerra as cerimónias a 14. O problema não é a falta de bons filmes, mas a impossibilidade física de estar em quatro salas ao mesmo tempo. A indústria cinematográfica continua a falhar na invenção da ubiquidade.

A COMPETIÇÃO E AS DESCOBERTAS

Onze filmes disputam o Grande Prémio NOS, com David Cronenberg à frente do júri. Outros onze concorrem ao Prémio Revelação, presidido por Barbara Sukowa. Entre os títulos mais prometedores estão Os Christophers, de Soderbergh, Butterfly Jam, de Kantemir Balagov, La perra, de Dominga Sotomayor, e A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr. Uma recomendação: reservem pelo menos duas sessões para filmes de realizadores desconhecidos. É assim que se descobrem os futuros favoritos.

OS FILMES PREMIADOS QUE NÃO CONVÉM PERDER

Fjord, Palma de Ouro de Cannes; Tender Loving Care, Concha de Ouro em San Sebastián; Possible Love, premiado em Veneza; Fatherland, de Paweł Pawlikowski; Salvation, de Emin Alper; e Soudain, de Ryūsuke Hamaguchi. Acrescentem-se Sheep in the Box, de Kore-eda, e Aqui, de Tiago Guedes, a aposta pessoal de Paulo Branco. O difícil será encontrar horas livres entre as sessões e as conversas.

AS RETROSPECTIVAS E OS PECADOS CAPITAIS

Lars von Trier domina as homenagens com uma retrospectiva monumental, acompanhado por Kelly Reichardt, Lee Chang-dong, Sophie Letourneur e Tiago Guedes. Barbara Sukowa recebe uma homenagem especial. Os ciclos «(i)moralidades» e A Morte do Diabo convidam à provocação, à reflexão e a algumas discussões inevitáveis. Ver Ninfomaníaca integralmente ou enfrentar os pecados cinematográficos de Buñuel exige disponibilidade. E, em certos casos, estômago.

OS CONVIDADOS, OS AUSENTES E AS SURPRESAS

David Cronenberg, Willem Dafoe, Kelly Reichardt, Fanny Ardant, Christophe Honoré, Mario Martone, Abel Ferrara, Catherine Breillat, Barbara Sukowa, Béatrice Dalle e muitos outros integram os anúncios do festival. John Malkovich e Cristian Mungiu encontram-se condicionados pela campanha dos Óscares; Luca Guadagnino ficou fora desta edição. Paulo Branco lembra que muitas presenças dependem de decisões de última hora. Convém acompanhar as actualizações do programa: um realizador pode aparecer quando menos se espera.

A NOS, AS CINCO SALAS E A LIBERDADE DE ESCOLHER

O festival ocupa o Cinema São Jorge, o Medeia Nimas, a Culturgest, o Teatro do Bairro e, pela primeira vez, uma sala dos Cinemas NOS Vasco da Gama, inteiramente dedicada ao LEFFEST. É uma forma de levar o cinema de autor a um espaço habitualmente associado aos grandes êxitos comerciais. Paulo Branco resume a estratégia numa frase: «Eu quero é que vejam os filmes.» Seja onde for, acrescentaríamos, desde que a projecção seja boa e o espectador não tenha de suportar vinte minutos de publicidade.

A ÚLTIMA RECOMENDAÇÃO

O LEFFEST não é uma competição para descobrir quem consegue ver mais filmes em dez dias. É uma oportunidade para conhecer obras, reencontrar cineastas, ouvir quem faz cinema e, sobretudo, sair da rotina. Escolham antecipadamente as sessões indispensáveis, deixem espaço para duas ou três surpresas e comprem bilhetes antes que esgotem. Depois, desliguem o telemóvel. A Netflix continuará em casa quando regressarem. Lars von Trier, Cronenberg e companhia não estarão em Lisboa todos os dias.

JVM


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