Há tanto contexto histórico em torno de “Godzilla Minus Zero,” que nem sei bem por onde começar. Obviamente, tudo teve início em 1954, dois anos após o fim da ocupação americana dos territórios japoneses, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. O filme original de Ishirō Honda tanto nasce dos limites censórios impostos na indústria cinematográfica durante os anos de ocupação como é uma reação contra eles, conceptualizando a criatura titular como uma espécie de materialização monstruosa de todos os males que os EUA fizeram ao Japão durante e depois da guerra. Uma daquelas fintas à censura que o cinema de género consegue fazer.
Porque ele, esse colosso vivo, é a arma nuclear em versão escamada, com um raio destruidor que aniquila tudo o que tem pela frente com a radiação volátil que permeia seu corpo. De facto, o texto do filme faz referência às origens do monstro nos testes nucleares que, em 1954, atingiram um barco de pesca japonês e, a certa altura, uma das vítimas da destruição imposta pelo titã sobre a população civil faz referência a ter sobrevivido à bomba atómica. Esta ligação entre o rei dos kaiju e o holocausto nuclear que os EUA ameaçaram nunca sumiu, mesmo quando deu em franchise e o tom virou mais cómico ou terrorífico.
O género cinematográfico, por si só, é uma espécie de alegoria da História do Japão no século XX. Não admira, portanto, que as muitas tentativas de o transpor para fora das especificidades nipónicas tenham sido fracassos – para os críticos, mesmo que bem-sucedidos a nível comercial. Ao longo das décadas, o franchise tem vindo a reinventar-se, dando origem a várias eras – assim definidas para a vertente japonesa das aventuras e desventuras de Godzilla – como numa catalogação geológica dos filmes. A era mais recente chama-se Reiwa e começou em 2016 com “Shin Godzilla”, de Hideaki Anno, um grandioso e grotesco pesadelo cinematográfico.
Continuou com uma trilogia de longas-metragens de animação, coproduzidas entre a Toho e a Netflix, e uma série de anime que poucos viram. Dito isso, foi com “Godzilla Minus One”, de Takashi Yamazaki, que esta era realmente se consolidou e encontrou uma identidade, puxando a narrativa para os anos 40, antes do filme original, e colocando a mitologia do monstro em direto diálogo com o pós-guerra. Há quem critique “Godzilla Minus One” por não ser suficientemente crítico das ações do Japão enquanto potência fascista, mas há nuances perdidas nesse ultraje. Nomeadamente, o modo como o grande arco emocional da fita centra-se num aviador treinado para ser kamikaze que sobreviveu à guerra em desonra.
Ao longo da história de “Minus One”, ele aprende a valorizar a própria vida acima de noções como o dever nacionalista, a honra, e a vergonha de não morrer em nome de causas em que não acredita. Nos filmes de Yamazaki, o imperialismo nipónico é um culto à morte, tão nocivo quanto a ameaça nuclear que Godzilla introduz como eco das ações americanas sobre o povo japonês. Depois do sucesso tremendo de “Godzilla Minus One” e sua vitória histórica nos Óscares – foi o primeiro filme japonês a ganhar Melhores Efeitos Visuais – a produção da sequela estava mais do que assegurada. Mas algo ocorreu entre o fechar da produção de “Minus One” e a génese de “Minus Zero.”
Christopher Nolan decidiu contar a história de Robert Oppenheimer, o pai da bomba atómica, como um Prometeu americano, assombrado pela culpa do que tinha desencadeado, culminando naquela memorável imagem de todo o globo em chamas. “Oppenheimer” não é propaganda jingoísta de jeito nenhum, mas também não considera a perspetiva japonesa. Nem sequer tem a coragem de se manter fiel às convicções assumidas, escondendo os horrores dessa arma sobre o corpo humano ao mostrar a reação dos assassinos, mas nunca o sofrimento das vítimas. Muitos criticaram a escolha de Nolan, incluindo realizadores tão conceituados como Spike Lee.
Um filme feito em diálogo unilateral com o “Oppenheimer” de Nolan.

Pessoalmente, não sou o maior fã dessa cinebiografia, mas também não vejo incoerência na elisão da carnificina, seja por dramatização ou por imagem de arquivo. A questão foi muito mais polémica no Japão, onde a estreia de “Oppenheimer” foi atrasada vários meses e foi alvo de debate público. Para Yamazaki, “Godzilla Minus Zero” é resposta ao filme de Nolan, quiçá um contra-argumento ou, talvez até, um complemento. Esta comparação não surge da minha imaginação, tendo já sido apontada pelo realizador japonês em entrevistas. E, ao contrário da tagline patente no material promocional – “Não haverá uma terceira vez. Tudo termina aqui” – não sinto que o Yamazaki esteja a mentir.
A ação passa-se dois anos depois do primeiro filme, em plena ocupação americana, e o elenco de personagens ainda vivas encara cada dia com o duplo trauma da guerra e da calamidade que Godzilla causou. Kōichi Shikishima, o aviador que conseguiu desferir o golpe mortal contra a besta, casou-se com Noriko, que perdeu toda a família na guerra e por pouco não morreu no ataque do kaiju a Ginza, e ambos adotaram a pequena Akiko, uma das muitas órfãs dos bombardeios incendiários sobre Tóquio. À sua maneira, eles tentam seguir em frente com a vida e superar os traumas, incluindo a culpa de sobrevivente e as maladias físicas que ficaram marcadas sobre o corpo de Noriko.
O Dr. Noda, antigo engenheiro naval que cometeu crimes de guerra e esteve por detrás de muita tecnologia atroz, redimiu-se com as ações tomadas contra Godzilla e agora dirige um departamento governamental que lida com catástrofes em grande escala. Sumiko, a vizinha de Shikishima, há muito se desapegou da raiva contra todos aqueles que, ao contrário dos seus filhos, sobreviveram à guerra e agora gere um orfanato a partir de casa. Há mais algumas personagens pelo meio, incluindo duas caras novas e importantes. Uma delas é a Sra. Aoyama, prodigiosa meteorologista cujos conhecimentos se provarão vitais no combate às desgraças no horizonte.
A outra será a face envelhecida pela idade e pela perda do Dr. Murakami, um biólogo que sobreviveu a Hiroshima, mas testemunhou a carbonização de toda a família, e teve semelhante “sorte” quando Godzilla atacou Ginza. Conhecemo-lo durante outro evento do género, logo na primeira cena de um filme que começa in media res. Tudo acontece num plano-sequência construído pelas magias dos efeitos especiais, dando-nos uma perspetiva imersiva e visceral do pandemónio que se abate sobre a cidade de Matsumoto. Fãs ferrenhos destes filmes hão de reparar que não se trata de nenhum dos kaijus clássicos, ou assim parece à primeira vista.
Como os próprios cineastas pediram que a crítica internacional mantivesse em segredo este monstro, tentarei não me desbocar, evitando spoilers desnecessários. Fica a ideia de uma criatura que apareceu depois da queda de um meteoro e que, nas observações dos cientistas, começou a vida como uma espécie de crisálida amorfa, capaz de consumir matéria animal, como se, em vez de um filme de kaiju, “Godzilla Minus One” fosse o remake japonês de “The Blob.” Só que, a cada ataque, o monstro cresce, desenvolve novas características e poderes, exigindo a ação imediata do Dr. Noda e companhia.
Enfim, toda a gente sabe como é que isto vai acabar. Depois de vários fracassos e da ressurreição de Godzilla, os cientistas e militares, com a ajuda de uns quantos civis, veem-se forçados a considerar seu antigo inimigo como um novo aliado. A única maneira de salvar o Japão desta nova ameaça, passará pelo combate direto entre ele e Godzilla. Nesta reconsideração de animosidades passadas, poderíamos ver aqui um reflexo de como o País do Sol Nascente veio a tornar-se um dos maiores aliados dos EUA nas últimas décadas. Mas não, pois as realidades espelhadas em “Godzilla Minus Zero” são as de um período de ocupação.
Que mensagem de paz nos traz Godzilla? O desarmamento é a única opção.

Na verdade, os americanos surgem como uma espécie de vilão terciário, com o último ato do filme propondo-os como a maior ameaça para a paz mundial neste universo de monstros quase divinos e armas de destruição maciça. Aqui vemos, novamente, como os filmes de Yamazaki conferem uma complexidade histórico-política bem sentida num franchise que há muito se havia tentado livrar dessas leituras. Também notamos a preocupação com a vida humana, cada morte marcada por um pesar imenso, até quando são figurantes sem nome a perder a vida. O drama humano interessa tanto em “Minus One” e “Minus Zero” quanto nas cenas de ação com monstros à mistura.
E neste caso, essa vertente dramática surge como uma alternativa, quase didática, ao caso “Oppenheimer.” Novamente a esquivar-me do spoiler, fica a ideia de que, certa personagem tem intenções vingativas contra os EUA – justificadas pela visualização das memórias de guerra em todo seu horror – e encontrou uma maneira de instrumentalizar Godzilla. A escolha de usar a arma ou não revela-se a grande questão de “Godzilla Minus Zero” e uma forte crítica à escalada de ameaças e armamentos de que os EUA têm sido culpados durante a Guerra Fria e até hoje. Aquilo de que Oppenheimer foi culpado e o erro que condenou toda a humanidade.
Na posse de um poder destes, o seu uso é o suicídio da espécie e o fim de todos nós, enquanto pessoas, indivíduos e coletivos. Há crimes que não se perdoam. E como dá para perceber, se “Minus One” já não era uma fita muito alegre, “Minus Zero” é mais triste ainda, seguindo um tom soturno que afeta até as cenas de ação à escala monumental. Elas, por sua vez, são executadas com uma visceralidade incomum, dando tanta atenção à violência dos kaiju entre si como à sua capacidade destrutiva face ao ser humano. Temos de rebobinar até ao fim da era Showa dos filmes Godzilla, ou quiçá até às experiências mais mortificantes dos anos 90 e do início do novo milénio, para encontrar imagens tão cruéis como estas.
Sentimos o sofrimento da população, mas também dos monstros, cada golpe entre titãs é um novo murro no estômago do espetador. Mais inquietantes ainda são aqueles momentos em que nos vemos atordoados pela grandiosidade destas impossibilidades que só podem existir na fantasia do grande ecrã. Como quando o vilão máximo de “Godzilla Minus Zero” revela a capacidade de manipular a gravidade, fazendo metade de uma cidade flutuar, suspensa em céus tempestuosos, antes de arremessá-la contra o resto da metrópole. É perturbador quanto o apocalipse nos pode parecer tão belo, mesmo nestes preparos de filme de série B elevado com orçamento milionário.
Mas, de novo, o foco de Yamazaki na perda de vida é lacerante, como quando a câmara se prende a uma mulher e ao seu bebé na varanda de uma dessas casas voadoras, gritando em suplício por um resgate que nunca virá. Atentem que isto não é queixa minha, mas uma admiração em comunhão com um profundo pesar. Nesses e noutros aspetos, “Godzilla Minus Zero” faz jus ao legado já estabelecido pelo seu antecessor. Mas não existem filmes perfeitos e, quando se trata de sequelas, a comparação implícita é uma forte fonte de infelicidades. O ritmo é mais frouxo aqui, as repetições mais difíceis de engolir.
Mesmo quando essas redundâncias ocorrem com o intuito de desenvolver personagens que bem o precisavam, como Noriko. Os atores são fantásticos num registo estilizado em negociação com a materialidade e tom sério da história, mas alguns dos melhores intérpretes continuam a ser desperdiçados – Sakura Ando precisa de mais ênfase! Também há uma pobreza significativa na mise-en-scène pensada para câmaras IMAX, não ajudada pela preponderância de panos-de-fundo digitais que saltam à vista em demasia. São questões menores, mas vale a pena apontar, mesmo quando o filme é um sucesso de forma geral, daqueles que nos deixam os olhos marejados e o coração aos saltos.
Godzilla Minus Zero
Conclusão:
- “Godzilla Minus Zero” é um filme mais contemplativo e cabisbaixo que o seu antecessor. Também é bastante mais violento, tornando a possibilidade para o espetáculo numa chance para expor o espectador a horrores inimagináveis. Isso vai desde a infeção genética dos kaijus no corpo humano, que relembra as repercussões da radiação nos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, até à própria violência imposta aos corpos digitais das criaturas.
- Todo o sofrimento se sente no coração e na alma quando Takashi Yamazaki está na cadeira de realizador. Daí resulta uma sequela com um ritmo mais vagaroso, clímaxes menos jubilantes, e uma certa negação da catarse que parece ir contra toda a regra do cinema blockbuster. Esperamos que a publicidade seja enganadora e que, de facto, haja um terceiro filme na história deste Godzilla, em que o aviador e a sobrevivente de guerra tentam reconstruir a vida num Japão perdido entre os traumas da bomba atómica e as cicatrizes deixadas por estes titãs das profundezas e do espaço.
- Mas não digo mais nada para não ser acusado de revelar spoilers importantes. A perfeição é impossível, mas há muito mérito em “Minus Zero “ e até as suas tonalidades trágicas têm que se lhe diga, sugerindo uma complexidade concetual muito rara neste tipo de aventura. Também temos que fazer a festa à equipa de efeitos visuais, tanto pelos monstros como pelos seus poderes, pelas maquilhagens dignas de filmes de terror e pela sonoplastia que parece remexer nos órgãos internos do público em sala – pelo menos, na sala IMAX.
- Ficam ainda os parabéns aos novos membros do elenco, Min Tanaka e Masami Nagasawa, e uns aplausos mais fraquinhos para a equipa de design, cujo trabalho tende a ser minimizado por uma fotografia sem graça. Também fica a dica de que, apesar da montagem das cenas de ação ser um tesouro, há muitos flashbacks desnecessários, mas talvez isso seja uma questão de argumento. Takashi Yamazaki é bem melhor a escrever personagens e explorar temas do que a estruturar as suas histórias.



