Alen Tagus (foto cedida por Alen Tagus)

Alen Tagus à MHD | “Queremos ser uma banda, queremos ter o nosso som”

Sentámo-nos com Charlie Mancini, de Alen Tagus, no café do Cinema São Jorge, para uma conversa que passou por música nacional, cinema e Chanson Française.

O EP de estreia de Alen Tagus, Paris, Sines, lançado a 17 de Maio pela My Dear Recordings, junta o músico português Pedro Pereira, mais conhecido por Charlie Mancini, e a artista francesa Pamela Hute num projeto de colaboração à distância, que estes vêm com bons olhos. Por enquanto, já saiu um álbum, que não será o último. Foi o foco de uma animada e extensa cavaqueira com Pedro Pereira, da qual damos aqui a conhecer as passagens mais relevantes.

Alen Tagus Entrevista 2019
Pamela Hute e Pedro Pereira em Alen Tagus

MHD – Como surgiu este projeto?

Charlie Mancini – Eu trabalhei quatro anos na rádio e sempre gostei de divulgar projetos, sobretudo a nível nacional. Descobri o trabalho da Pamela. Ela tem alguns álbuns a solo e lançou uma editora em 2016. Gostei do som dela, da sonoridade e então entrei em contacto com ela e enviei-lhe algumas bases de canções que tinha na gaveta. Ela desconstruiu aquele tema, que veio a ser o “Time Passing By”. A ideia era só fazer esse single. E pronto. Feito o single, ela começou a mostrar aos amigos e editores, que gostaram. Disseram “Está aqui qualquer coisa!” Depois fizemos o “Black Hole”, o segundo single. E depois pensámos “é tão suave de trabalhar que vamos dar um nome a isto”, que até foi sugestão da Pamela. E surgiu Alen Tagus.

ALEN TAGUS | “TIME PASSING BY”

MHD – Há algum significado para este nome?

Partiu de uma pergunta da Pam. Ela perguntou-me em que região é que eu morava e disse-lhe Alentejo. E ela, Alentejo? O que é que isso significa? É “beyond the river Tagus”. Então e se “Alen” fosse uma pessoa, uma personagem? Separámos “Alen” e “Tagus” e ficou assim.

MHD – Apesar das tecnologias que temos hoje em dia, a distância vai ser sempre um fator decisivo. Como encaram a distância neste tipo de projeto?

Para nós, como ainda não somos uma banda, não estamos juntos fisicamente, achamos que até é um benefício. Eu, por exemplo, faço as bases e envio-lhe. Ela trabalha-as em estúdio, acrescenta a voz, a guitarra e a bateria. Depois, quando e escuto, dou o meu feedback. Tentamos pôr um bocadinho os egos de parte, que também é por isso que as vezes as relações se cansam um bocadinho. E a distância nisso ajuda.

MHD – Apesar de ser uma colaboração, destaca-se o cunho de um e outro? Manteve-se esta identidade do artista solo?

Sim, eu costumo mais trabalhar no âmbito do cinema ou teatro e sou acompanhador musical de cinema mudo.  Assim, nem que seja ao fundo, nota-se sempre um laivo da música para cinema. Por outro lado, há claramente a componente de rock direto da Pamela, por isso pressente-se sempre um bocadinho dos dois, nem que seja pelas escolhas estéticas.

PARIS, SINES | “BLACK HOLE”

MHD – Apesar de ser importante manter a identidade de cada um, de certeza que esta parceria também há de ter algo de inovador que resulta desta fusão.

Sim, sim, nós achamos que o som está muito marcado. Temos aquele objetivo de vincar, queremos que a malta oiça e fique tipo “Sim, isto é Alen Tagus”. Daqui a uns anos, não digo que mantenhamos a forma, mas temos isto balizado para que isto seja Alen Tagus e não muita coisa. Às vezes, envio-lhe instrumentais e ela diz-me: “Hmm, isto não vai caber aqui na cena.” “Mas porque não?”, pergunto eu. “Não é Alen Tagus”, diz-me ela. Nesse momento, apercebo-me de que realmente é verdade. Lá está, agora de início queremos vincar bastante, queremos ser uma banda, queremos ter o nosso som.  Podemos beber inspiração de muitos lados, de uma exposição, de arquitetura. A Pamela gosta muito de arquitetura e de design e gosta muito do lado estético. Mas diria que não será difícil termos este som comum, gostamos das mesmas bandas, temos a mesma idade, o que é interessante, nascemos em 82, e temos aquelas referências todas do grunge e do college rock americano, bandas britânicas e eu nasci com o rock progressivo e com o cinema – ah, e, claro, muita música nacional.

MHD – E porquê Charlie Mancini e não Pedro Pereira? É algum tipo de mudança de persona?

Claramente, Charlie Mancini é um alter-ego. Comecei a compor música para cinema para amigos que faziam curtas metragens. Quando se tornou mais sério, decidi criar esta personagem. Porquê? É a música e o cinema. Charlie, de Charlie Chaplin, e Harry Mancini, que é um dos compositores com mais Óscares até hoje, fez centenas de bandas sonoras, faleceu em 94 e viveu ali sempre em Hollywood. Quando faço mesmo música, música, é mais Pedro Pereira mas, como contactei a Pamela como Charlie, depois continuámos. Até soa melhor, o Charlie e a Pam. Também, claro, em vista ao mercado internacional.

MHD – Trabalhas muito na música para filmes. Não deixámos de reparar nos videoclipes que acompanham as músicas desta colaboração. Tiveste algo a ver com isto?

Só mais com a conceção, não filmei nem nada. Fui dando a minha opinião e discutindo algumas ideias. Mas o “Holiday “ é mesmo o mais caprichado.

ALEN TAGUS | “HOLIDAY”

MHD – Que sítios e paisagens inspiraram a sonoridade do EP?

Cinema, temos alguns temas baseados em filmes ou personagens de filmes. Aquele filme Paris, Texas, a forma como a atriz está a deambular, retrata aquela solidão e a ideia de relação à distância, acho que isso se entende. Mas isto devia ser a Pam a responder, ela é que faz as letras… De qualquer forma, também gosto da ideia de que a interpretação fique ao critério de cada um. Mas é basicamente isto, a relação fica muito mantida à base do telefone e é tudo um pouco inspirado neste filme, gostamos imenso da sua estética.

MHD – Os singles parecem muito mais Sines, muito mais associados ao cenário português. Já há um pouco de Paris neste singles que saíram ou é algo que ainda está para vir?

Sim, percebo o que querem dizer. Paris é a urbe, obriga a uma componente muito mais urbana. As músicas são um pouco escapistas e sonhadoras, não se sente muita influência de Paris. A minha mãe era professora de francês, então eu fiquei com essas referências, da chanson française. Mas quando estamos a compor, não é bem assim. Não estamos a pensar: “Agora vou pôr um pouco de french touch.” É algo mais inconsciente.

MHD – Paris, Sines é um álbum de estreia de um projeto novo. Olhando para o futuro, têm em vista continuar com Alen Tagus?

Sim, já estamos a trabalhar no próximo registo. Ainda agora, enquanto estava à vossa espera, estava ali na varanda a ouvir uma gravação que a Pam me enviou. Nestes novos temas já se sente o french touch.

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MHD – Top 5 de álbuns?

Não os vou pôr por ordem, porque acho que é uma grande injustiça. Mas diria Animals, dos Pink Floyd. Ouvi tanto que quase gastei o disco ao meu tio. Currents, Tame Impala; Abbey Road, The Beatles e Pet Sounds, dos Beach Boys. Falta um. Para terminar, talvez nacional. Rosa Carne, dos Clã.

MHD – E, para finalizar, um desafio. Tens a oportunidade de tomar um café num local qualquer à escolha, com qualquer pessoa, viva ou morta. Quem, onde e que música porias a tocar?

Local podia ser o Japão. Quem? Epah… Isso é tramado! Olha, pode ser um japonês também, o Ryuichi Sakamoto. E a música que poria a tocar pode ser o Terceiro Concerto para Piano, de Rachmaninov. É a peça mais difícil para piano.

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