Amor Impossível, em análise

 

O novo filme de António-Pedro Vasconcelos é baseado numa investigação policial e factos verídicos, e tem como pano de fundo duas histórias de obsessão: um amor fatal de dois adolescentes e uma relação extra-conjugal, vivida pelo casal de agentes da Judiciária, que investigam o caso.

FICHA TÉCNICA

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Título Original: ‘Amor Impossível’
Realizador: António-Pedro Vasconcelos
Elenco: Victória Guerra, Soraia Chaves, José Mata e Ricardo Pereira.
Género: Drama policial
Big Pictures | 2015 | 125 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 

 

Depois da crónica social ‘Os Gatos Não Têm Vertigens’ (2014), o veterano realizador português António-Pedro Vasconcelos (APV) regressou aos ecrãs com ‘Amor Impossível’, um filme policial e um género que tem marcado o seu melhor cinema e seus maiores êxitos de público, como ‘O Lugar do Morto’ (1984) ou ‘Call Girl’ (2007).

VÊ MAIS: Assiste ao trailer de Amor Impossível

O grande mérito do último filme de APV, começa pelo facto de ser um retrato (embora negativo) de uma realidade nacional: inspirado numa história passada na moderna e algo sofisticada cidade de Viseu (não é por acaso que é considerada uma das cidades com mais qualidade de vida em Portugal), e rodado por lá, tentando de alguma forma ‘descentralizar’ dos habituais dramas e ambientes urbanos demasiado cosmopolitas que ocorrem quase sempre na capital. ‘Amor Impossível’, mostra para o bem e para o mal (e melhor que as caricaturas de ‘Bem-Vindos a Beirais’), que as problemáticas, pessoas e vidas no interior, já não estão de modo nenhum tão distantes da capital.

Tiago (José Mata) e Cristina (Victória Guerra).
Tiago (José Mata) e Cristina (Victória Guerra).

 

‘…o filme mostra  para o bem e para o mal que as problemáticas, pessoas e vidas no interior, já não estão de modo nenhum tão distantes da capital…’

Dois agentes da Polícia Judiciária, Madalena (Soraia Chaves) e Marco (Ricardo Pereira), com uma cumplicidade muito especial, são chamados a Viseu por causa de uma jovem que está desaparecida. O namorado está hospitalizado e em estado de choque. No interrogatório o jovem fala que quando namoravam na noite anterior numa zona discreta dos arredores da cidade tinham sido atacados por dois raptores violentos, que o espancaram e drogaram enquanto metiam a rapariga dentro de um carro. Por sorte, tinha conseguido escapar e cambalear até à cidade, onde fora socorrido e hospitalizado. Os agentes não ficam convencidos com as explicações do jovem, e a descoberta do diário da namorada permite-lhes, pouco a pouco reconstituir os acontecimentos dos dias anteriores ao desaparecimento. Por seu lado Cristina (Victória Guerra) e Tiago (José Mata) são dois jovens universitários que vivem uma relação amorosa intensa e obsessiva.

Cristina está demasiado marcada pela morte misteriosa do seu pai anos antes e sonha viver um amor arrebatador, como nos romances do Século XIX (‘O Monte dos Vendavais’ de Emily Brontë). Mas  quer ir mais longe tanto do ponto de vista sexual, como familiar. Tiago é um rapaz mimado por uma família de posses, um pouco violento, menos fantasioso do que Cristina e com outros planos na vida, além da música e da namorada, e muito diferente do Heathcliff. E é deste conflito psicológico central que nasce um drama passional que desenvolve uma curiosa história de investigação policial, onde os dois agentes da PJ, se envolvem e abordam de uma forma emocional bastante diferentes este caso.

Os dois agentes da PJ: Madalena (Soraia Chaves) e Marco (Ricardo Pereira).
Os dois agentes da PJ: Madalena (Soraia Chaves) e Marco (Ricardo Pereira).

‘…um história de investigação policial, onde os dois agentes da PJ, se envolvem e abordam de uma forma emocional bastante diferentes este caso.’

‘Amor Impossível’ é sem dúvida mais um daqueles filmes de APV, que procura reconciliar o público com o cinema português e com histórias que realmente tenham a ver connosco, fazendo apelo a um género (policial), que sempre atraí os espectadores e com actores bastante conhecidos. No entanto, é um daqueles filmes onde se sente, menos empenhamento da parte do realizador. Parece que à excepção da direcção de actores (e já lá vamos!) tudo foi feito apressadamente, inclusive aspectos da rodagem, planificação de cenas sempre muito fechadas e intimistas e sobretudo na direcção de fotografia de Miguel Sales Lopes, que podiam ter explorado mais a beleza e a luz da cidade de Viseu. Tendo em conta a experiência do realizador, são incríveis algumas falhas a nível do ‘raccord’: no hospital e na reconstituição de Tiago, a continuidade da narrativa é demasiado pormenorizada, na passagem de uma cena para a outra e causa alguma confusão depois no espectador, em relação à posterior reconstituição da cena real; as cenas da Cristina praia, não encaixam e não têm interesse para o resto do drama, servindo para mostrar talvez o carisma e a belíssima voz do José Martins, no papel de Jacinto. Se todos estes aspectos fossem mais controlados tornava tudo mais credível e ‘Amor Impossível’, um filme muito melhor.

 

Amor Impossível
O inquérito policial começa no hospital.

 

‘…é sem dúvida mais um daqueles filmes de APV, que procura reconciliar o público com o cinema português…’

Contudo há que ter em conta o excelente trabalho dos actores sobretudo de Victória Guerra e José Mata (na sua estreia no cinema) por darem força e credibilidade às suas personagens na relação obsessiva, que se torna convincente tanto nos diálogos, como nas cenas intimas, que são bastante arriscadas e sensuais. Soraia Chaves, por seu lado, (vamos vê-la em breve e em grande na série ‘Terapia’, que estreia na RTP1 a 4 de Janeiro) volta a mostrar a sua capacidade para construir personagens misteriosos, que combinam sensualidade e beleza com complexidade e inteligência. Ricardo Pereira também está muito bem no seu papel do policia cretino, frio e indiferente, embora exagere nos palavrões e nas expressões como: ‘Amo-te caralho’. Por mais realista e ‘borgesso’ que se seja ninguém diz isto a uma mulher…Amor Impossível’, não é um mau filme, pois é pelo menos realista pois tem muito do que se passa por esse País fora e nas notícias  menos boas dos media.

 

O melhor: a notável interpretação dos actores, com destaque para Victória Guerra, em todos os aspectos, sobretudo nas arriscadas cenas íntimas.

 

O pior: a linguagem por vezes com recurso aos palavrões, que é recorrente nos filmes portugueses e que procura dar uma ideia errada de um maior realismo.

 

Consulta Também: Guia das Estreias de Cinema | Janeiro 2016

 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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