“As minhas fitas – Crónica de uma cinéfila”

Hoje rasguei a estrutura. As folhas descansam no chão gelado, junto aos meus pés descalços. Ao lado, sobre a madeira escura da secretária, repousam vários DVDs que escolhera para me encontrar nalgumas histórias. Não os abri, mesmo sabendo que as personagens permaneceriam entaladas pelas duras capas, deixando-se não viver, mais uma vez.

Hoje rasguei a estrutura e escolhi não libertar histórias. Neste mês, sublinhado pela liberdade, deixei que os cravos encarnados despontassem, sós. Assim, a cinéfila largou a caneta e procurou quatro pessoas. Todas elas são diferentes umas das outras; têm construído caminhos opostos, delineado planos distintos, proferido palavras que não se cruzaram. Porém, apesar do que as distingue, existe algo que possuem em comum: a paixão pelo cinema.

Estes quatro cinéfilos aceitaram o meu desafio e procuraram responder a duas simples, mas complexas, questões: “Se pudesse escolher o filme da sua vida, qual seria? E porquê?”

O meu entrevistado mais novo tem 28 anos e é Engenheiro Informático. Apesar da sua área de estudo, entendi que o seu interesse pelas matérias é vasto e maleável às diferentes abordagens existenciais. O filme da sua vida é o “Pulp Fiction“.

“Vi o filme pela primeira vez com 12 anos e era diferente de tudo o que tinha visto até então. Foi uma sensação estranha porque, por um lado, era totalmente diferente dos grandes filmes de aventura que mais marcaram a minha infância (“Indiana Jones”, “Star Wars”, “Regresso ao Futuro”) e, por outro, adorei mas ainda não tinha a capacidade de explicar porquê.”

“Revendo o filme novamente apenas em adulto, consegui perceber que se trata de um filme sobre nada e que revela as “inspirações” do seu realizador com várias referências mais ou menos obscuras a outros filmes. Apesar disso, tem um argumento do melhor que já vi até agora, grandes interpretações, excelente banda sonora, momentos extremamente violentos que, em vez de serem chocantes, acabam por ter um timing cómico perfeito, e frases que ainda hoje ninguém esquece.”

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Uma Thurman em “Pulp Fiction”

“É uma representação perfeita da cultura dos anos 90 com que cresci e, olhando para trás, marca o momento que compreendi a diferença entre um simples filme e o cinema como um meio que transforma o ‘nada’ em forma de arte”, termina.

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De facto, as palavras do primeiro cinéfilo representam, claramente, a paixão pela arte e, mais especificamente, pelo cinema. Os vários momentos da sua vida ofereceram-lhe uma perspetiva transformada do filme e do cinema em geral. Não é possível ver cinema sem realmente observá-lo.

A segunda cinéfila abraçou calorosamente este pequeno desafio. Abriu-me as suas portas e deixou-me entrar no seu mundo de 36 anos: “O filme da minha vida seria o “Despertar da Mente” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind). Porque, por um lado, tento ser muito consciente dos padrões que condicionam as minhas decisões e fugir deles. Mas, ao mesmo tempo, sei que só posso evitar repeti-los se estiver consciente deles. Ou seja, a consciência deles é o que me permite fugir-lhes. As memórias são preciosas, mesmo que doam. Além disso, há coisas contra as quais é inútil lutarmos, mesmo quando já sabemos que o final é triste. Queremos o nosso final triste, porque é nosso. Antes isso do que um grande nada, sem cor, sem cheiro e sem vida.”

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O Despertar da mente”

“Uma particularidade engraçada: gostei tanto do filme que fiquei a ver a primeira parte inteira, de pé na sala, agarrada à vassoura (estava a varrer quando começou). Não conseguia mexer-me de tão presa que estava.”, concluiu.

Não há dúvida que tendemos a ligar-nos ao que nos cede um sentir. Quando nos oferecemos a uma tela, sabemos que parte dela será nossa, para sempre. De certo modo, parte das personagens pertence a um pedaço de uma consciência que, de forma mais ou menos atenta, nos permite timbrar a fita e tê-la como nossa.

A terceira cinéfila possui 43 anos de intensa vivência. Como é próprio da sua profissão, a Advocacia, expôs-se, sem hesitações, a esta questão com o filme “Filadélfia” (Philadelphia).

“Primeiro porque é um filme que trata um caso jurídico que ainda agora acontece. Retrata a podridão e a falta de ética na sociedade, usando um grande escritório de advogados por base. Depois porque retrata bem o preconceito que subsiste à roda do HIV e dos homossexuais. Apesar de toda a injustiça que se vai desenrolando, vamos conseguindo ter alguma fé na humanidade quando os valores, a amizade e a dignidade acabam por prevalecer.”

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Tom Hanks em “Filadélfia”

“Os atores nem precisam de apresentação…Denzel Washington e Tom Hanks. Interpretação extraordinária!”, diz.

Mais uma vez, é evidente que a experiência pessoal é uma alavanca na escolha de algo que nos permite elevar para um patamar em que sentimos a respiração afastar-se. Transportamos o que, por escolha ou não, nos marca e o que nos marca é fortemente escolhido pelo que vivemos.

Por último, encontrei um cinéfilo com cerca de 70 anos que, com a sua extraordinária perceção sobre várias áreas da cultura, me permitiu colmatar este texto com precisamente aquilo que pretendia: conhecimento.

“Porque gosto muito de cinema e tenho visto durante os últimos setenta anos muitos milhares de filmes, mas também porque existem muitos géneros de películas, desde o romance aos filmes de ação, passando pelos filmes de antecipação e ficção científicas, pelos filmes de guerra, pelos filmes policiais, de terror e de aventuras, é perfeitamente impossível escolher um único filme como o preferido acima de todos. Acresce que quem vê muitos filmes ao longo de toda a vida vai mudando o seu gosto, pelo que um filme visto na juventude já não se vê com gosto muitos anos depois. Alguns exemplos: quando era muito jovem adorava os filmes cómicos do Tótó e do Cantinflas; um filme que considerei extraordinário o “Gunga Din”; os filmes de aventuras do Kirk Douglas; os filmes de Johnny Weissmuller, como o “Tarzan“, e muitos mais. Deste modo, os filmes que vão ficando na memória são os vistos mais recentemente.”

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Johnny Weissmuller em “Tarzan”

“Hoje, já fico maçado ao ver a maior parte dos filmes que têm aparecido, na sua grande maioria são déjà vu: mesmo assim alguns remakes ainda consigo ver de novo, pelas qualidades da realização, da montagem ou mesmo das soberbas representações dos atores.”

Quatro vidas. Quatro cinéfilas. Uma paixão em comum.

Foi precisamente isto que desejei testar, com a ínfima amostra que encontrei: a durabilidade das escolhas nas nossas vidas, a influência da experiência nas opções que fazemos e o preço que a maturidade nos incute.

No meio de tudo isto, apenas algo é certo: não se vê sem olhar, não se descobre sem sentir mas apaixona-se sem pensar.

Carolina Taveira

Carolina Taveira nasceu em Lisboa em 1986. Possui um mestrado integrado em Psicologia Clínica e uma mais recente pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos. Realizou Psicoterapias de apoio a Vítimas de violência doméstica, durante o seu estágio e consequente voluntariado. Hoje, é consultora numa empresa de formação profissional. Participou em inúmeras coletâneas literárias nacionais e internacionais e publicou o livro de poesia "Palavras intemporais" em 2009. Para além disso, desenvolve o gosto pelas fotografia amadora, escrita, música e também pelo cinema. Contacto: carolina.s.taveira@gmail.com

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