Blackkklansman

BlacKkKlansman – A Eternidade do Ódio

Nomeado para 6 Óscares e vencedor de 1, “BlacKkKlansman” é um marco na história do Cinema e um dos mais importantes retratos de xenofobia de sempre

O que significa ser uma pessoa negra nos Estados Unidos da América? O que significa viver-se cercado de ódio? Preconceito, julgamento, descriminação. Parece que a era mais negra do racismo na América já faz parte do passado e isso é verdade estatisticamente. Hoje em dia, o racismo é visto como uma das piores ideologias a que um indivíduo pode subscrever, em conjunto com o Nazismo e o Estalinismo. Estatisticamente, o número de pessoas racistas, quer publicamente quer em privado, diminuiu desde o apogeu dos ideais Sulistas, do início do século XX e até desde 1978, ano em que a narrativa de “BlacKkKlansman” ocorre. No entanto, tem-se assistido a um crescimento da xenofobia não só na América do Norte, como também na Europa, onde vemos um ressurgimento da extrema-direita liderada por personalidades como Marine Le Pen (França) e Jimmie Akesson (Sweden), e na América do Sul, onde, por exemplo, Jair Bolsonaro venceu as eleições para a  presidência brasileira. Os Estados Unidos têm visto atos de violência justificados por superioridade racial e preconceitos tais como os frequentes ataques a homens negros por parte da polícia (resultando no movimento Black Lives Matter) ou até a catástrofe em Charlottesville a 12 de Agosto de 2017.

Eis o que “BlacKkKlansman” e Spike Lee esperam que fique nas nossas cabeças: o racismo, o preconceito e o ódio estão longe de estar extintos. De facto, o Ku Klux Klan tem presentemente entre 8000 a 12000 membros, à volta do mesmo número que se apresentava em 1979 (10000 membros). Para nos explicar esta semelhança, Lee estrutura e constrói o filme ao clarificar estes paralelos entre passado e presente. Frequentemente as comparações são extremamente pertinentes e fortes. Patrice Dumas, o interesse amoroso do protagonista, e todo o grupo Black Panthers nutrem um profundo ódio pela polícia. Eles consideram que os agentes eram todos racistas e odiosos para com a comunidade negra, dando o exemplo de uma situação em que Patrice fora assediada por um agente. Em outras ocasiões as comparações são demasiado óbvias e superficiais. Vêm-me à cabeça as várias farpas lançadas ao atual presidente americano, Donald J. Trump, que têm o objetivo de reforçar as comparações entre antes e agora. Contudo, a infâmia e notoriedade dessas expressões sobrepõem-se ao seu propósito no filme. Ao ouvir os personagens a dizê-las, não pude evitar sentir que a minha imersão fora quebrada enquanto a figura do homem louco que agora rege os Estados Unidos preenchia a minha cabeça.

BlacKkKlansman - John Washington e Adam Driver
John David Washington como Ron Stallworth e Adam Driver como Flip Zimmerman em “BlacKkKlansman”

Apesar de alguns paralelos falhados, tudo crescia, sem deliberada intenção e brilhantemente, em direção aos últimos planos do filme: imagens do ataque em Charlottesville. Spike Lee admitiu numa entrevista que o evento ocorreu durante a pós-produção do filme e, ao assistir à tragédia, ele percebeu imediatamente como tinha de acabar a sua obra, adicionando os vídeos no final. Graças a Deus que o fez, pois encerra a lição mais forte que “BlacKkKlansman” tem para nos ensinar de uma forma brutalmente espetacular.

O segundo tema que o filme quer discutir é esta: o mundo e o ódio não são a preto e branco. Ron Stallworth, o protagonista, existe como um paradoxo tanto para o Ku Klux Klan como para os Black Panthers: ele é um agente da polícia negro. Desta maneira, ele serve como mensageiro e o moderador no conflito temático do filme. Apesar de criticar o Klan sem dó, Lee não se abstém de atacar os Black Panthers, um partido político de extrema-esquerda criado em 1966 que reclamava liberdade e poder para a comunidade afro-americana. No filme, o grupo tem algumas tendências violentas e é extremamente odioso para com a polícia. Mesmo tendo razões para o rancor, eles perdem-nas ao se protegerem sob um véu de vitimização, abraçando a mesma forma de manifestação aplicada no Klan: ódio violento.

Lee mantém esta comparação e debate entre os dois grupos durante o filme, desenvolvendo-os em conjunto com o personagem de Ron Stallworth, que tem uma forte presença em ambos. Sendo negro ele não é capaz de deixar de acreditar, e com razão, que o KKK é um movimento violento e perigoso, rendendo-se por vezes ele próprio a um ódio furioso. Porém, sendo agente da polícia, ele protesta contra as declarações dos Black Panthers, incluindo as da sua amante Patrice, de que todos os polícias são racistas e preconceituosos para com a comunidade afro-americana.

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Ele mantém o debate não só com a experiência de Ron, mas também com a progressão da narrativa. Lembro-me agora de uma sequência em que Lee corta entre uma iniciação do Klan e uma reunião dos Panthers simultaneamente, mostrando as diferenças entre os dois (a maneira como cada grupo reage à controversa obra prima de D. W. Griffith, “Birth of a Nation”), assim como as semelhanças, apresentando o ódio que os membros de ambos os grupos nutrem uns pelos outros.

Infelizmente, este tema tem falta de algo, consequência de estar profundamente ligado à experiência do protagonista: uma resolução. Enquanto o primeiro tema é construído e desenvolvido ao longo do filme concluindo de forma poderosa, este não resulta em nada. É uma conversa que não nos leva a lado nenhum.

Ron é um protagonista com um arco plano, isto é, não muda profundamente com o final. As suas crenças são as mesmas que eram no início e essa pode ser uma boa escolha. Ter um protagonista com um arco plano ajuda a discutir os temas de um ponto de vista objetivo. Contudo, há um princípio crucial de discussões temáticas em cinema que parece não ter sido potenciado.

Escreve K. M. Weiland no seu livro “Creating Character Arcs”: “Not only does character arc directly influence story structure, it is also a direct influence on theme. In some respects, we might even go so far as to say that character arc = theme.”

Spike Lee parece ter aplicado esta ideia sem avaliar com precisão suficiente se seria o melhor para a narrativa ter o tema a seguir o percurso do herói. Ron pode ter um arco sem mudança significativa, mas a discussão temática tem de ter mudança, tem de nos oferecer uma conclusão ou as peças necessárias para chegarmos a uma. O protagonista contribui para a conversa, sem dúvida, especialmente ao reformar algumas das opiniões de personagens secundárias, em particular Patrice, no entanto, no final, ele parece não ter uma opinião sobre o assunto. Ele é um mensageiro, um meio para um fim. Mas, neste caso, isso não é suficiente. Se alguma aproximação e conclusão não nos chega por meio do herói, então que venha por meio de outros personagens ou mesmo da narrativa em si. Lee preferiu que o tema ficasse agarrado ao arco de Ron Stallworth, em vez de o libertar e explorar até ao fim.

BlacKkKlansman - Topher Grace
Topher Grace como David Duke em “BlacKkKlansman”

O primeiro tema que aborda o racismo no passado e no presente deixa a audiência com um sentido de propósito. O sonho de Martin Luther King ainda não está realizado e por isso temos de lutar e continuar a lutar para exterminar o racismo de uma vez por todas. O segundo tema, de que nada é preto e branco, deixa-nos com uma sensação de “okay, o que é suposto fazer com esta informação?”. O KKK e os Panthers não eram assim tão diferentes, sim. Mas os Panthers acabam por ser preferíveis. No fim de tudo, Ron acaba envolvido romanticamente com uma dos líderes. Em relação a este aspeto, “BlacKkKlansman” deixa-nos com uma pergunta, mas quase nenhuma indicação sobre o que fazer com ela.

Concluindo, “BlacKkKlansman”, apesar de desenvolver alguns dos aspetos dos seus temas de forma atabalhoada, mostra uma conversa clara acerca do racismo e do ódio. É um filme pertinente, forte e extremamente interessante em que Spike Lee nos demonstra que é um mestre do cinema ao trazer à luz uma história verídica com a qual a maioria do público não está familiarizada, através de um elenco talentoso, boa estruturação, ritmo, montagem e direção muito bem conseguidas. Nestes tempos em que o ódio renasce, é uma obra obrigatória.

TRAILER | “BLACKKKLANSMAN”

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