Brooklyn, em análise

O talento de Saiorse Ronan torna Brooklyn uma experiência apaixonante, com um toque melodramático que já sentíamos falta. 

Brooklyn Título Original: Brooklyn
Realizador: John Crowley
Elenco: Saiorse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Jim Broadbent e Julie Walters
Género: Drama
NOS Audiovisuais | 2015 | 111 min
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Todas as nações e principalmente os Estados Unidos da América têm um ponto vinculado à sua história – a imigração. Na verdade, o tema costuma estar associado a problemas económicos, financeiros e sociais que aterrorizam qualquer nação, mas aqui a mise-en-scène de John Crowley propõe explorar uma banal história de amor, sobre decisões e sobre o crescimento. Baseado no romance de Colm Tóibín, Brooklyn foca-se em Ellis, uma jovem que deixa para trás a sua família (mãe e irmã) em Enniscorthy – na época uma pequena cidade irlandesa -, para procurar um futuro na América. Lá recebe a ajuda do padre Flood (Jim Broadbent), também ele irlandês e amigo da família e da senhoria Madge (Julie Walters), que a incentivam a ultrapassar as saudades de casa.

A narrativa raramente de desprende do ponto de vista de Ellis, razão que facilita a identificação do espetador com a protagonista, afinal a viagem que realiza também já ocorreu a certo momento nas nossas vidas, quando tivemos de sair da nossa zona de conforto e encontrar um novo lar. Em Nova-Iorque, Ellis consegue tornar-se uma mulher emancipada, mas não basta ter um novo emprego ou amigas com quem desabafar, é também preciso um interesse romântico. Durante um baile organizado por imigrantes irlandeses, Ellis conhece Tony (Emory Cohen, com traços de Robert DeNiro ou de Marlon Brando), um jovem cujos pais também são imigrantes (desta vez italianos). Tony, encanta-se perdidamente por Ellis e ela por ele, e o filme debate-se essencialmente sobre qual o ‘futuro’ (e que futuro) desta relação.

Brooklyn

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Dia a dia discutem sobre pontos comuns de dois jovens que estão apaixonados (vejamos como este não é um romance comercial para os fãs de Twilight ou de qualquer adaptação literária de Nicholas Sparks). Tony não hesita em acompanhar Ellis desde a escola onde estuda Contabilidade até casa da senhora Madge, onde o nome de Deus tem de ser proferido com respeito. É realmente com Tony que a narrativa mais flui. A química entre os jovens atores é tão intensa que transportam-nos para aquele período, onde o amor tinha outro significado. Todavia a felicidade é interrompida quando Ellis recebe uma notícia trágica e decide voltar para a Irlanda.

Lá conhece outro jovem, Jim Farrell (Domhall Gleeson, o oposto ao americano, muito sereno) por quem desenvolve um carinho especial. A tensão emocional é também maior, pois Ellis é agora uma mulher mais madura, inteligente, perspicaz e charmosa e Saiorse Ronan coloca todo o seu talento neste desempenho, o melhor da sua carreira que começou quando tinha 14 anos em Expiação. Tanto alegre, como triste ou mais nervosa, Ronan é tão realista nas suas emoções, que a sentimos à flor da pele. O seu trabalho é quase um espelho da sua vida, também ela filha de irlandeses a morar nos EUA, com uma interpretação digna de prémios daí que seja bem merecida a nomeação ao Óscar.

Brooklyn vale ainda pela magnifica direção artística e pelo irreverente trabalho de fotografia de  Yves Bélanger que valida o elo irrepreensível entre interior e exterior. Ora tons mais quentes ora tons mais frios com reflexos no guarda-roupa como nos tons únicos que dominam a intriga.

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A mise-en-scène de John Crowley consegue ser também pura obra de arte e uma das mais requintadas deste ano, espelho do próprio cinema. Ora vemos um cinema primitivo, que teme descobrir novos lugares, ora um cinema emotivo (o close-up do rosto de Ellis maquilhado prova-o bem) e algumas marcas do estilo utilizado na dramaturgia clássica de Hollywood. Quando a dúvida se coloca e Ellis tem de tomar uma decisão estamos diante uma questão sobre o próprio cinema. Será melhor um melodrama requintado como este ou as narrativas sobre efeitos digitais?

Enfim com metodologia mais descritiva, Brooklyn serve de homenagem aos muitos imigrantes espalhados não só pela América, mas por tudo o mundo que relembram para todo o sempre a sua terra natal. Arte de (sobre)viver quando temos um coração agarrado a um espaço e a um tempo que já não existem.

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VJ

 

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