The Chemical Brothers à conquista de Hollywood

Desde os anos 90 que The Chemical Brothers têm alcançado sucesso musical, mas apenas recentemente se aventuraram no mundo das bandas-sonoras cinematográficas.

No início da sua vida profissional, ainda na década de 90 do século XX, o futuro cineasta Joe Wright fez parte de uma companhia chamada Vegetable Vision. Esta iniciativa de nome bizarro tinha como enfoque a criação de acompanhamento visual para vários artistas musicais e seus respetivos espetáculos, com especial incidência na cena rave que estava no píncaro da sua popularidade na Inglaterra dessa época. Um dos grupos com que Wright colaborou foi The Chemical Brothers, o duo de Tom Rowlands e Ed Simons especializado em música eletrónica, maioritariamente dentro do subgénero big beat.

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Esta colaboração é de importante menção neste artigo pois a experiência deixou a sua marca no jovem Wright que, anos depois, viria a afirmar-se como um dos mais promissores cineastas do panorama britânico. Depois de mais de uma década envolvido no mundo da música e da televisão, Joe Wright estreou, em 2005, o seu primeiro filme, uma adaptação do clássico Orgulho e Preconceito, onde a pátina de embalsamada respeitabilidade típica de semelhantes adaptações literárias é rejeitada em prol de uma vibrante energia juvenil, mais anacrónica e visceral. Jane Austen e música eletrónica não parecem mesclar-se muito bem, pelo que Wright escolheu o italiano Dario Marianelli para compor a banda-sonora do filme. Mesmo assim, o cineasta estreante tinha mantido o desejo de, um dia, voltar a trabalhar com The Chemical Brothers num novo contexto – no cinema.

 

 

Os projetos seguintes de Wright, Expiação e O Solista, eram também obras mais coerentes com uma musicalidade classicista, ou levemente modernista como é o caso das melodias de Expiação que misturam uma orquestra completa com os ritmos mecânicos de uma máquina de escrever antiga. Isso não implica que sejam projetos de desprezível valor ou que a sua componente musical seja medíocre, muito pelo contrário, mas o facto mantinha-se que Joe Wright ainda não tinha arranjado oportunidade para convidar The Chemical Brothers a uma nova colaboração. Isso mudou quando Wright começou a desenvolver um dos seus projetos mais estranhos, um conto-de-fadas tornado narrativa de ação moderna com uma adolescente assassina no papel central – Hanna.

 

 

Com efeito, assim que leu o guião original de Hanna, Wright decidiu contactar os seus antigos colaboradores e The Chemical Brothers tornaram-se assim nos compositores da banda-sonora do filme. Este foi o primeiro trabalho do género para a dupla que, mesmo assim, não mostrou qualquer tipo de fragilidade na sua abordagem ao desafio. Interessantemente, Hanna veio estrear em 2011, no meio de uma mini tendência musical que viu realizadores a criarem colaborações inspiradas com inúmeros músicos até então afastados do panorama da sétima arte. The Chemical Brothers podem assim contar-se entre Trent Reznor (A Rede Social, Millenium 1 e Em Parte Incerta), Johnny Greenwood (Haverá Sangue, O Mestre e Vício Intrínseco), M83 (Oblivion), Arcade Fire (Her) e os Daft Punk (TRON: Legacy).

 

 

O facto de estar na moda não quer necessariamente dizer que estas colaborações fossem frutíferas mas, tirando o possível caso dos M83, quase todos estes artistas produziram fenomenais bandas-sonoras que vieram enriquecer a interseção entre o mundo do cinema e da música. Entre as melhores bandas-sonoras em questão, incluiríamos certamente o trabalho de The Chemical Brothers, cujas batidas eletrónicas e uso de vocais espectrais, quase etéreos, criam um balanço fenomenal entre violência sónica e a doçura, meio grotesca, da fantasia e inocência infantil própria de um conto-de-fadas. Não é por acaso que, quando a revista New Musical Express (NME) publicou uma lista das 61 melhores bandas-sonoras cinematográficas de sempre, Hanna tenha aparecido na 54ª posição.

 

 

Até agora não falámos muito profundamente sobre a história da dupla The Chemical Brothers mas isso deve-se mais à conjugação da sua relativa distância do mundo do cinema com a sua relativa fama dentro de um certo nicho do consumo musical popular. Ao contrário de Mica Levi, cujo trabalho explorámos o mês passado nesta mesma rubrica, The Chemical Brothers há muito que saíram do anonimato do circuito avant-garde experimental. Os seus oito álbuns de estúdio, sua positiva receção crítica e comercial e os quatro Grammys que já ganharam são prova disso mesmo.

 

 

Com tudo isso dito, nada garantia que, depois de Hanna, esta dupla oriunda de Manchester, cuja carreira começou no final da década de 80 antes do sucesso alcançado na década de 90, voltasse ao cinema. Pela sua parte, Joe Wright voltou aos projetos onde uma banda-sonora eletrónica não faria sentido como é o caso de Ana Karenina. Mesmo assim, mesmo antes da estreia de Hanna, já circulavam rumores de outras possíveis aventuras cinematográficas, incluindo o Cisne Negro de Darren Aronosfsky e Now You See Me de Tom Rowland e até os últimos filmes da saga The Hunger Games. No que diz respeito ao projeto que valeu a Natalie Portman o Óscar, o compositor Clint Mansell ficou em cargo da banda-sonora final e The Chemical Brothers apenas contribuíram com algum material suplementar, nomeadamente um remix para a cena do clube noturno. No caso de Now You See Me, foram apenas rumores, e, acerca de The Hunger Games, The Chemical Brothers apenas contribuíram com uma música. Até o seu álbum Further, de 2010, apresentou uma certa componente cinematográfica com curtas-metragens feitas para corresponder a cada uma das músicas originais.

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Tudo isto para dizer que, depois de Hanna, The Chemical Brothers não mais voltaram a ser compositores de uma banda-sonora cinematográfica até agora, com Trespass Against Us ou Código de Família. O filme é a primeira longa-metragem de Adam Smith, um antigo colega de Joe Wright na Vegetable Vision, e, apesar de ter carência de criatividade em termos narrativos, a sua componente sónica é impecável. De facto, é interessante testemunhar como a contribuição da dupla The Chemical Brothers, dá uma componente quase mítica à pequena história de um criminoso a tentar fugir à influência pérfida de uma família que há muito virou as costas à lei. Nos últimos 15 minutos da trama, quando o protagonista interpretado por Michael Fassbender comete uma série de atos irracionais, a urgência grandiosa dos ritmos eletrónicos e estranhas passagens vocais da banda-sonora sugerem algo maior, mais grandioso que a banalidade em cena, talvez ilustrando o modo como as personagens encaram as suas próprias existências. É um trabalho inteligente e belíssimo que, esperamos nós, esteja a pressagiar futuras aventuras cinematográficas para este inspirador duo.

 

 

Infelizmente, a banda-sonora de Código de Família ainda não foi disponibilizada comercialmente, pelo que, apenas a poderás ouvir na totalidade se fores ver o filme em questão. Acima, deixamos um trailer que faz uso de uma das composições originais de The Chemical Brothers. O que pensas da sua contribuição musical para este filme?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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